UM ESTUDO SOBRE O ATENDIMENTO DE ALUNOS SURDOS EM ESCOLAS REGULARES

Maria Rita Cotillo Pazini

RESUMO

Os surdos há tempos têm sido discriminados e tratados como incapazes. A partir da década de 90, com o advento da Declaração Mundial de Educação para Todos e da Declaração de Salamanca, adentraram nas escolas alunos que antes eram excluídos do entorno educacional. Sob esse novo quadro, este estudo tem como referencial teórico os Estudos Culturais e por objetivos descrever e analisar como os surdos vêem a escola regular e o que eles aprendem nas salas de aula das escolas comuns, ou seja, este estudo tem por finalidade analisar a inclusão de alunos surdos dentro do entorno escolar. Para tanto, esta pesquisa foi realizada com sete alunos surdos que freqüentam a escola comum do interior paulista e que estão incluídos desde o ano de 2009.  A pesquisa foi qualitativa, com entrevistas semi-estruturadas constituídas de 10 perguntas, previamente elaboradas e aplicadas, individualmente aos surdos, em Libras. As entrevistas foram filmadas, por um profissional, para posterior transcrição. Os resultados obtidos, por meio dos relatos dos surdos, na entrevista, destacaram que a inclusão do surdo só será possível com a presença da língua de sinais dentro da sala de aula, ou seja, com a aceitação da diferença lingüística e da cultura surda; e com a família desse aluno fornecendo o apoio necessário para o processo.

Palavras-chave: surdez, inclusão, escola regular.

INTRODUÇÃO

Este trabalho de pesquisa é resultado de minha atuação enquanto educadora e que no ano de 2007, teve ma primeira experiência com surdos na sala de aula. Estes alunos ingressaram neste mesmo ano, em uma classe regular, juntamente com alunos ouvintes, freqüentando, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), pois são alunos que estão defasados na idade escolar.

Nesta sala de aula com sete alunos surdos, que vieram de uma escola de surdos, e que agora freqüentam a escola regular. Estes alunos apresentaram muitas dificuldades, por não apresentarem a mesma língua na sua comunicação. Por outro lado, os professores ficaram, no início, muito receosos com aquela turma, pois se sentiam incapacitados para assumirem tal responsabilidade.

Por isso, a comunicação com os alunos surdos, ou seja, a diferença lingüística na educação de surdos foi e tem sido o grande entrave na questão educacional.

Este trabalho de pesquisa pretende fazer um estudo sobre a inclusão de alunos surdos na rede regular de ensino, isto é, analisar e descrever como esses alunos enxergam o processo de inclusão, como eles se sentem e o que aprendem na escola regular.

Este trabalho de pesquisa que descreve a inclusão de alunos surdos, na escola regular, pretende ir além, chamar atenção para o fato de que os alunos falantes da Libras apresentam uma identidade e cultura surdas e que devem aceitar a surdez não como uma anomalia, mas como uma diferença lingüística fazendo parte da característica dessa comunidade.

Sob esse referencial teórico, o presente estudo tem por objetivo, descrever e analisar como os alunos surdos sentem a escola regular, o que eles aprendem e como enxergam o processo de inclusão.

MÉTODO

Considerando o referencial teórico (Estudos Culturais) desta pesquisa e os objetivos nela estabelecidos, utilizou-se a pesquisa qualitativa.

O universo estudado foi o de uma sala de aula localizada em uma escola do interior paulista e que totalizam sete alunos com surdez.

Os sete alunos com surdez conhecem Libras e se comunicam por meio dessa língua. Têm entre 16 e 22 anos de idade, de ambos os sexos, que freqüentaram a Educação de Jovens e Adultos (EJA), no período noturno, muitos deles estudavam à noite e trabalhavam.

Para garantir o sigilo dos participantes, os mesmos serão denominados pela letra – S (Surdo), seguido da numeração em algarismo arábico, de acordo com a sequência em que foram entrevistados. (S1, S2, S3, S4, S5, S6 e S7) As características dos surdos entrevistados estão assim distribuídas:

Tabela 1. Características dos participantes entrevistados por idade, curso, escola onde estão incluídos, sexo, perda auditiva e modalidade de comunicação.

Entrevistados Idade Curso Escola Sexo Perda auditiva Modalidade de comunicação
S1 18 EJA Estadual Feminino Moderada/ Severa Oralizado
S2 19 EJA Estadual Masculino Profunda Libras
S3 16 EJA Estadual Masculino Moderada/ Severa Oralizado
S4 16 EJA Estadual Feminino Moderada/ Severa Oralizado
S5 22 EJA Estadual Masculino Profunda/ Moderada Oralizado
S6 16 EJA Estadual Masculino Profunda Moderada Oralizado
S7 18 EJA Estadual Feminino Profunda Libras

A instituição

A escola onde foi desenvolvido este trabalho de pesquisa é uma unidade escolar tradicional da cidade, localizada na região central, com mais de 50 professores das disciplinas da grade curricular da Secretaria de educação do Estado de São Paulo (SEE).  Esta escola conta com 1.500 alunos ao todo, sendo que a escola oferece à comunidade os seguintes cursos: o Ensino Fundamental diurno que corresponde à Escola de Tempo Integral (ETI), onde os alunos ficam, praticamente, o dia inteiro na instituição, saindo às 16h10min h.

A entrevista

A entrevista realizada neste trabalho de pesquisa foi a semi-estruturada. As perguntas da entrevista foram filmadas em DVD e depois foram transcritas, garantindo-se assim, que fosse possível registrar os relatos dos entrevistados, por meio do uso da Libras.

Para a realização dessa pesquisa, foram elaboradas 10 perguntas abertas, aplicadas pela pesquisadora, por meio da língua de sinais. Os entrevistados também responderam às perguntas por meio da língua de sinais.

As perguntas abertas usadas na entrevista foram as seguintes:

1- Você está estudando aqui na escola comum, como você se sente na escola comum. Por quê?

2. Você compreende o que o professor explica em sala de aula? (Se não, como você faz?)

3. O que você tem aprendido na escola comum?

4. Como você se relaciona com os seus colegas na escola comum? (Explicar)

5. Você tem amigos na escola comum? (explicar)

6. O que mais você sente dentro da escola comum? Por quê?

7. Você tem amigos ouvintes?

8. Onde sua família quer que você estude?

9. Por que você está estudando?

10. O que você pretende com o estudo?

Procedimento de coleta de dados

Os alunos surdos S1, S2, S3, S4, S5 S6 e S7 foram designados dessa forma para sigilo de suas identidades. Depois de filmadas, a entrevista foi transcrita com a ajuda de um instrutor surdo adulto e as respostas das perguntas foram anotadas em um caderno de campo.

Procedimento de análise de dados

De posse das respostas das perguntas, as mesmas foram classificadas por categorias assim distribuídas: a) o processo de inclusão; b) a relação surdo  – ouvinte; c) as expectativas para o futuro, e d) a família do surdo

RESULTADOS

A partir das transcrições obtidas com a ajuda do educador surdo oriundas das entrevistas, podem-se destacar as categorias apresentadas a seguir.

O processo de inclusão

Alguns depoimentos de alunos estão dispostos em seguida.

Ficou surdo com seis anos, e desde então começou estudar em escola de surdos.  Desde 2007, freqüenta a escola de ouvintes, mas tem muitas dificuldades, porque a professora só fala, fala, fala e ele não entende nada. Não tem intérprete na sua sala de aula, fica muito difícil entender as palavras. (S2).

A aluna conta que não entende as explicações do professor porque tem muitas conversas paralelas dos amigos na sala de aula de ouvintes, e precisa pedir várias vezes para o professor explicar (S4).

Por esses depoimentos observou-se que os alunos surdos que foram incluídos na sala de aula de escola comum precisam da presença de um intérprete de língua de sinais para poderem entender o que está sendo estudado, e mais, que a escola regular precisa que seus professores saibam se comunicar na língua do surdo, pois só assim a vida do surdo poderá ter os resultados  esperados.

A relação aluno surdo-ouvinte

A aluna diz ter muitos amigos ouvintes, mas se sente melhor com os amigos surdos.

Tal como nos depoimentos:

“Com os surdos eu brinco, conto piada e me sinto muito bem perto de outro surdo” (S1).

“Agora, quando não entendo peço ajuda para meus amigos, que mostram a resposta e eu copio” (S5).

De acordo com os relatos dos alunos surdos, a relação surdo –  surdo é a que traz mais satisfação, pois favorece a socialização dos saberes, valores e comportamentos da cultura surda. Pelos relatos, compartilhar uma língua é o principal caminho para a constituição da subjetividade do indivíduo surdo. É pela língua de sinais que o surdo constrói sua identidade, como considera Souza (1998).

As expectativas para o futuro

Eis alguns depoimentos:

“No futuro quero fazer faculdade de Letras/Libras para poder ajudar os surdos e continuar convivendo com eles” (S1).

“Não pretendo fazer faculdade, acho muito difícil as palavras, sinto dificuldades. Penso terminar o ensino médio e trabalhar” (S2).

“Para meu futuro quero aprender computação, informática e trabalhar, não pretendo fazer faculdade” (S4).

Os relatos indicam que os surdos têm vontade de prosseguir seus estudos e de se tornarem pessoas competentes para o mercado de trabalho. Para tanto, estão conscientes das dificuldades e das barreiras sociais que irão enfrentar para atingir seus objetivos. Por isso, alguns alunos mostram-se com baixas expectativas futuras, como S2 e S4.

A família do surdo

Sobre a família, alguns alunos assim se referem:

“Na minha casa ninguém sabe Libras. Eu fico quieto não converso

prefiro não conversar” (S2).

“Minha mãe quer que eu continue os estudos na escola de  surdos e na escola de ouvintes para aprender mais” (S7).

“Meus pais antes não sabiam Libras, agora eles estão aprendendo eu estou feliz” (S1).

“Não costumo sair de casa à noite, minha mãe tem medo, fica muito preocupada comigo, então fico em casa” (S6).

Pelos relatos dos alunos surdos, muitas das dificuldades e das alegrias nos seus relacionamentos com seus familiares são lingüísticas ou decorrentes do descrédito na pessoa com surdez, como o medo do filho enfrentar situações do cotidiano. Moura (2000) já apontava que a comunicação entre a família e o surdo sempre foram os maiores desafios, dos quais decorre uma trajetória de frustrações, de dores na vida dessa pessoa.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e dá outras providências.

MOURA, M. C. O surdo – caminhos para uma nova identidade. Rio de Janeiro: Revinter, 2000.

QUADROS, R.M. Situando as diferenças implicadas na educação de surdos: inclusão/exclusão. Ponto de Vista, Florianópolis, nº 5, p. 81 – 112, 2003.

SKLIAR, C. Os estudos surdos em educação: problematizando a normalidade. In Skliar, C. (Org). A surdez: um olhar sobre as diferenças, Porto Alegre: Mediação, 1999.

SOUZA, R. M. de Que palavra que te falta? Linguística e educação: considerações epistemológicas a partir da surdez, São Paulo: Martins Fontes, 1998.