A Associação Livre Das Idéias

CONSELHO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE

( I.N.N.G.)

A ASSOCIAÇÃO LIVRE DAS IDÉIAS

l — Por onde devemos começar?

Chegamos, finalmente, ao ponto em que podemos indicar como e com que material devemos iniciar o tratamento. Como vimos, não importa ao psicanalista a natureza do material que tem em seu poder para realizar a prática psicanalítica. É indiferente começar pela história do analisado, pelas suas recordações infantis, ou pela história da enfermidade. A Psicanálise não é, em absoluto, um interrogatório. Muito menos um diálogo que se trava entre o paciente e o analista. A Psicanálise visa apenas a sondar o inconsciente, para trazer à tona da consciência as ideias que aí se acham recalcadas e libertá-las através da compreensão. Para isso, então, devemos deixar falar o doente sobre si mesmo, escolhendo ele próprio o ponto de partida de sua conversação. Damos a ele plena liberdade e essa liberdade será tanto mais proveitosa, se lhe dissermos desde o início que ele não se preocupe em conduzir o seu pensamento e menos ainda raciocinar sobre aquilo que está dizendo. Ganhamos desse modo o “campo da associação livre das ideias”, que é o processo único e capaz de conseguir que as ideias soterradas venham à tona da consciência. A “associação livre das ideias” consiste, portanto, numa conversação entre o analista e o analisado, mas essa conversação difere, como é fácil concluir, de uma palestra comum. Normalmente, a pessoa com quem falamos procura não perder o elo da conversa, repelindo assim todas as ocorrências e ideias secundárias, que possam incorrer em divagações impertinentes. Já na conversa psicanalítica, o paciente terá que não se preocupar com o que está dizendo, pois terá que pensar em voz alta, isto é, traduzir, ou melhor, transmitir, através da palavra, todas as ideias que lhe forem surgindo, mesmo que estas sejam agressivas, vergonhosas e banais.

Não é fácil, de princípio, conseguirmos esse ideal. Em geral, uma numerosa classe de clientes apreendem mal o que entendemos por “associação livre de idéias” e advertem que não pensam nada no momento, ou que lhe atravessam a mente ideias sem a mínima importância e que portanto não podem interessar ao caso. É precisamente a esta altura que o psicanalista deve advertir o analisado de que não deve ceder, de nenhum modo, a tais críticas, pois para chegar ao fim, precisamos devassar todos os seus pensamentos, tenham eles ou não importância.

Tomemos de novo o exemplo de viagem de trem. Quando fazemos uma viagem de trem, pela primeira vez, vemos inúmeras paisagens se sucederem no pequeno ecrã da janela do vagão.

Muitas, certamente, são despidas de colorido. Outras, no entanto, despertam a nossa curiosidade e nos interessam. Mas se o passageiro não estiver olhando através da janela do trem, jamais contemplará os quadros interessantes da paisagem, sem ter visto primeiro os insípidos, que se cruzam diante seus olhos.

É justamente isto que devemos advertir aos nossos analisados: “Coloque-se você diante de mim, como um passageiro numa janela de trem, e vá narrando o que se passa na tela sua imaginação”.

2 — A Psicanálise é uma arte

Não podemos estabelecer aqui uma regra essencial capaz de dar àqueles que desejam ser analistas um meio seguro de excelente êxito nas suas pesquisas.

A Psicanálise é uma arte e, como tal, tudo depende das habilidades naturais do psicanalista. É fácil ensinar-se a técnica, mas o manejo desta depende de cada um. Um professor de Pintura ensina como se pinta um quadro, mas o aluno, de posse de regras, não realizará, na maioria dos casos, uma obra de arte.

São necessários o treino, a dedicação, a paciência e, sobretudo, a tendência, o gosto pela psicanálise para que se possa alcançar sucesso. O caminho, entretanto, de atingir a libertação das ideias recalcadas é o que indicamos aqui: a “associação livre das ideias”, rejeitando outro e qualquer processo que com o nome de Psicanálise praticam certamente outros psicoterapeutas.