A Cibernética e a Contemporaneidade

Mônica Flor Ramos[1]

Resumo: O avanço tecnológico apresenta alterações constantes nas relações que se estabelecem socialmente e com suas características. A produção feita derivada do meio eletrônico hoje nos remete a questionamentos sobre essa influência da cibernética no contexto pós-moderno. O presente trabalho visa estabelecer relações entre o avanço tecnológico através da internet e com as alterações sociais que se estabelecem através dessa nova forma de se relacionar, escrever, interagir e de enxergar o mundo.

INTRODUÇÃO

O avanço tecnológico é algo que toma cada vez mais espaço em nossas ações cotidianas influenciando constantemente em alterações no modo social de se relacionar, agir e interagir tornando o abstrato em concreto, palpável e inteligível.

A Internet, como motor propulsor do processo de massificação e acessibilidade cultural global, traz inúmeras ferramentas para publicação de textos formando diversas linguagens cibernéticas[2]. Fato que provoca e incita ao homem à produção de mensagens, afim de que sejam lidas pelo maior número de pessoas possíveis e desenvolvendo perfis fictícios ou parciais sobre si.

Nossa sociedade dá muito valor aos que bem se comunicam, pois estas pessoas juntam em torno de si um grupo, uma tribo. Nela haverá afinidades e cumplicidades que reforçam laços de amizade e suprem a necessidade psicológica de aceitação pelos demais através desse desenvolvimento tecnológico e a inserção da internet como forma de velocidade no cotidiano informacional ou de relacionamentos.

O processo de “tribalização”[3], fruto desta necessidade de aceitação, e um paradoxo entre a proximidade e a distância através da internet, alcançou um campo, até então, pouco influenciado por motivações deste tipo.

ASPECTOS SOBRE A PRODUÇÃO CULTURAL

A definição para o que venha ser cultura se mostra, ao mesmo tempo que enredada, ambígua. Em um contexto contemporâneo, a cultura se enquadra no que se pode definir como o modo de vida de determinado “povo, comunidade, nação ou grupo social, nos direcionando, amplamente, à ciência social” (HALL 1997, p.2). Para que haja produção cultural, fazem-se necessários os “significados partilhados” (HALL, 1997:1). Um mesmo povo, comunidade, nação ou grupo social vive interagindo diretamente e, conseqüentemente, trocando entre si concepções, opiniões e pensamentos. Isso é o que diferencia cada povo: sua cultura. Idéias diferentes constroem cidadãos diferentes. Um grupo de indivíduos que compartilham de uma mesma cultura tem de estar de comum ajuste ao que lhes é passado. Nesse sentido pode ser considerada, então, um amplo conjunto de conceitos, valores, símbolos e atitudes que modelam a sociedade. O indivíduo que não compreende o que lhe é passado, em determinada cultura, não pode a pertencer. O meio para que se faça esse intercâmbio é a linguagem através dos símbolos.

“[…]As funções da linguagem correspondem às diversas finalidades que caracterizam um enunciado lingüístico. A linguagem desempenha a sua função de acordo com a ênfase que o emissor dá à mensagem. Conforme o foco se volte ao emissor, ao receptor, ao contexto, ao código, ao contato ou à mensagem[…]” (Rocha,1996, p.667)

O homem produz cultura, absorve-a, transforma-a e reinventa-a conforme seus instintos e necessidades. Estes mesmos instintos e necessidades que o motivam e, praticamente, o ordenam a viver em sociedade e a buscar grupos sociais, seja por questões de sobrevivência, para satisfazer suas necessidades físicas, psicológicas e pessoais ou mesmo para suprir uma necessidade que está presente no cotidiano.

A produção cultural atual é um reflexo do mais efervescente momento de toda nossa história, desde a invenção da escrita cuneiforme pelos Sumérios, fato que transformou o homem em dissipador de conhecimento escrito.

ACESSO À INFORMAÇÃO E INTERNET

A altíssima exposição comunicacional, às quais as pessoas têm acesso na sociedade pós-moderna, não implica necessariamente em evolução, evocando o sentido puro da palavra. Usam-na por uma necessidade cada vez mais latente de comunicação social – sejam emissores ou receptores – calcada nos princípios da “rapidez mais facilidade” de obtenção das informações.

Isto é o fascínio desta moderna comunicação globalizada, tanto que causa espanto sabermos que o tempo que leva para uma sociedade globalizada, a qual vivemos, demora segundos para uma notícia se propagar pelo mundo através da internet.

A Internet e os avanços tecnológicos são as raízes desta árvore cultural globalizada e mutante que rende frutos, às vezes, desconhecidos e plurais (no sentido multicultural) para nós, consumidores de conhecimento. Esta multiplicidade é fruto – localizado bem na ponta do galho, se imaginarmos a árvore descrita acima – da facilidade instantânea de qualquer internauta elevar-se ao patamar de fonte, produtor e divulgador de suas próprias visões, opiniões e atitudes sociais sem a necessidade de um revisor e, tão pouco, de um editor para que, antes de publicar, tenha uma segunda ou terceira opinião, ou seja, o contraponto saudável que existe aos de postura aberta e íntegra – desejável para qualquer autor.

Apesar dos bytes também serem, ao receptor, som e imagem, mais do que nunca, a escrita assumiu papel decisivo no mecanismo cultural cibernético. Basta olharmos tecnicamente para a explosão de blogs[4], de fotologs[5], do MSN[6], de páginas pessoais[7] e do orkut[8].

“Na ‘ágora eletrônica’, indivíduos isolados, anônimos, mas presumivelmente bem informados podem reunir-se sem o risco de violência ou infecção, engajando-se em debates, trocas de informação ou meramente não fazendo nada.”(IANNI, p.154)

O princípio de funcionamento do orkut é baseado na busca pela ampliação de nossos laços sociais a partir de um meio, primordialmente, letrado. Torna-se celeiro de novas maneiras de contarmos nossa história, bem como, de acharmos grupos que abundem em leitores para nossa mensagem.

Neste enorme labirinto de grupos e comunidades – não só do orkut – foco e o código que é usado, para o entendimento da mensagem, é específico para cada cultura, algumas semelhantes, mas todas com um diferencial. Através da “linguagem o significado é produzido” (HALL, 1997, p.1). Esse, significado, se faz essencial para que haja a interação e a cultura. Esta vem a ser algo que identifica um povo, comunidade, nação ou grupo social e é o que lhes fornece a identidade. Talvez, por isso, tenhamos a definição de cultura como algo amplo e rico. A cultura é o que define todas as formas de envolvimento. É o que define os caminhos da história de um grupo, podendo ser envolvida e influenciada. Mas necessita ser “representada” (HALL, 1997, p.1) e o que fornece tal representação é a linguagem, fornecendo o significado ao que se deseja passar e o que acaba compensando os inferiores dotes corporais do homem é seu cérebro que lhe permite desenvolver sua própria cultura através da linguagem.

A questão social está diretamente relacionada à linguagem e suas possíveis transformações e influências. A intervenção social que se mostra inevitável em nosso mundo contemporâneo globalizado vem ocasionando diversas mudanças nas culturas e conseqüentemente nas linguagens sejam elas regionais ou não. No entanto, a cultura “se modifica conforme mudam as normas e entendimentos” (Braidwood, 1985, p.41).

A tecnologia e as identidades

As tecnologias massivas cibernéticas desenvolvem a agilidade na informação e nas relações que se estabelecem através dessas ferramentas criadas como forma de facilitar a vida cotidiana. Segundo Ianni são desenvolvidas tecnologias eletrônicas, informáticas e cibernéticas que acabam por intensificar, agilizar e generalizar articulações, integrações, fragmentações, mudanças sócio-culturais entre outros fatores que representam socialmente o individuo por todas as partes do mundo.

As identidades estão formando no contexto atual a linha de recuperação das mesmas por desenvolver-se cada vez mais fragmentadas e desarticuladas.

“[…] As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado […]” (HALL, 2001:7).

Estes sujeitos desenvolvem-se mais individualistas e perdendo a coesão e as referencias. Perante a constante mutação nas identidades e a formação de novas. “a vida parece perder coesão (…) os seres humanos tornam-se cada vez mais manejáveis e maleáveis. Tudo parece mais transitório e temporário: a realidade exterior parece mais fluida que sólida, o ser humano mais sintético que autêntico.”(BRZEZINSKI, p.40)

A relação entre o indivíduo e a rede cibernética torna a proximidade com o passar do tempo cada vez maior e desenvolvendo uma nova forma de pensar, interagir e relacionar-se através desse meio. Ao mesmo tempo em que se fala com 10 pessoas sobre determinados assuntos em um meio instantâneo e adquiri-se maior “conhecimento” sobre determinadas áreas observamos a relação que este meio nos proporciona: a rápida interação e a fragilidade nas relações até então conhecidas.

A novidade na individualização da comunicação e nas imagens exibidas na rede da internet apresenta o que cada um gosta de definir sobre si e sobre o que gostaria de expor sobre sua personalidade e conhecimento. Aqui observamos a formação de um individuo construído e determinado por diversos fatores que o influenciam primordialmente tendo como referencia as fontes midiáticas para esta construção e aceitação de seu perfil em um meio social cada vez mais distanciado da relação física e observado e recriado por uma ferramenta da internet.

Considerações Finais

Há, para aqueles que não se enquadram nesta nova forma de expressão, exclusão desta imposta nova cultura. Embora isto seja realidade, ainda, para uma minoria no Brasil, poderíamos nos referir como uma cultura do senso comum[9].

A disseminação desta nova linguagem cibernética toma proporções exorbitantes e não causa nenhuma estranheza para as novas gerações. Tornou-se parte do cotidiano das pessoas e recente desafio para os pesquisadores. A compreensão das relações que se estabelecem e a análise destas torna-se mais difícil de analisar devido a serem tão voláteis e velozes quanto os avanços que estas redes nos trazem. Se o problema da questão social nos assola há tanto tempo e revela uma carência educacional e de acesso à informações e de leituras, emerge uma nova forma de representação de linguagem que causará, como uma questão natural de “desenvolvimento”, uma nova mudança na linguagem e um acesso ainda mais restrito.

Esta nova linguagem nada mais é do que o fruto do automatismo das sociedades contemporâneas na qual não há o questionamento do porquê de estarmos usando este tipo de linguagem, mas sim usá-la para ser inserido nesta nova cultura pela diferença do status[10] ou por uma razão instrumental[11] que nos remeterá, talvez futuramente, em um novo período comunicacional.

Apesar de a produção textual aumentar e a leitura também, aparentemente, os grupos se tornam cada vez mais restritos, formando suas tribos. Pessoas com a mesma capacidade de produção textual e entendimento se fecham e se relacionam dentro deste muro invisível. Aqui começa o grande problema: algo que está cotidianamente na vida das pessoas e que facilita o acesso às diversas informações, não será excluída, mas sim cada vez mais incorporada. Basta aceitarmos que muito de nossa sociabilidade gira em torno da internet e da informática e, aos que não têm acesso resta a tentativa de inserção.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUDRILLARD, Jean. Para uma critica da Economia política do signo. Lisboa: Martins fontes, s/d.

BRAIWOOD, Robert. Homens Pré-Históricos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986.

CHILDE, Gordon. A Evolução Cultural do Homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia: História e Grandes Temas. São Paulo: Editora Saraiva, 2001.

DACANAL, José Hildebrando. Linguagem, poder e ensino da língua. 2. ed. Porto Alegre, RS: Mercado Aberto, 1987.

HALL, Stuart. The work of representation. In:Hall, Stuart.(Org.) representation. Cultural Representations and signifying practices. Sage Open University: London/Thousand Oaks/New Delhi1997.

IANNI, Octavio. Enigmas da modernidade-mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

ROCHA, Ruth. Dicionário. São Paulo: Scipione, 1996.

SANTOS, Lília Abreu. O chat educacional: o professor diante desse gênero emergente. Livro de MACHADO, Ana Rachel; Bezerra, Maria Auxiliadora; Pinto, Abuêndia Padilha (Org). Gêneros textuais & Ensino.Rio de Janeiro, 2002.


[1] Acadêmica do Centro Universitário Feevale cursando o 7º semestre do curso de História

[2] A expressão “linguagens cibernéticas” é utilizada neste trabalho como forma de representar as diversas inovações que esta rede intitulada internet proporciona aos indivíduos inseridos nesta trazendo inovações e influenciando em mudanças culturais.

[3] Busca por grupos nos quais o indivíduo se identifique.

[4] Diários virtuais nos quais o autor expõe fotos e textos abertos a comentários.

[5] Diários Virtuais nos quais o autor publica fotos com pequenos textos abertos a comentários.

[6] Comunicador instantâneo na Internet.

[7] Páginas nas quais o autor coloca o assunto e os links que quiser, como, por exemplo, um site sobre desenhos animados.

[8] Orkut é uma ferramenta de reencontros e potencializador de novas “amizades”. Esta é dominada por brasileiros que totalizam mais de 70% dos cadastros ativos, apesar desta empresa ser americana. E, neste universo paralelo virtual, a escrita é o meio oficial de comunicação.

[9] Concepções aceitas pela concordância da maioria de um grupo como verdadeiras em determinado meio social (COTRIM, p.46: 2001).

[10] O sentimento que a pessoa ao qual tem acesso a algo que a grande maioria não tem. O prazer na impossibilidade de que todos consumam (BAUDRILLARD, p. 38: s/d).

[11] Expressão criada por filósofos da Escola de Frankfurt, notadamente Theodor Adorno e Max Horkheimer. Desenvolve-se em sociedades marcadas pela alienação e por ideologias. Razão que se torna um simples instrumento para atingir algum fim. Está voltada para ser um instrumento de poder e dominação.