A GEOPOLÍTICA DOS BIOCOMBUSTÍVEIS E A CRISE DOS ALIMENTOS DE 2008

“Não é preciso nenhuma teoria conspiratória para ver a ligação entre o exponencial e meteórico aumento dos preços do petróleo e os interesses no etanol e no biocombustível.”

Carlos Walter Porto Gonçalves

Ao pensar numa geopolítica dos biocombustíveis relacionando à atual crise dos alimentos que estamos vivendo, vemos como o delineamento do mundo, mas principalmente do que se chama de Terceiro Mundo, e a incômoda e irreparável divisão da humanidade entre “os que têm” ou “os que comem” e os que “não têm” ou “os que não dormem com medo dos que não comem”, tem uma configuração decisiva nestas interações fatais da política imperialista de dominações e ajustes econômicos.

A geopolítica mundial atualmente, centrada nos poderes técnicos, científicos, financeiro, agroindustrial e midiático vive momentos quentes. Tendo que responder ou apontar culpados com o assustador aumento dos preços dos alimentos e os diversos conflitos internos que “pipocam” em países como Haiti, Camarões, Níger, Indonésia, México, Mauritânia e etc.

A FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, destaca cinco motivos para a atual crise e encarecimento dos alimentos:

  • Impacto de mudanças climáticas, com seca na Austrália e no Cazaquistão, inundações na Índia, em Bangladesh e no sul da África, frio rigoroso no interior da China, furacões na América Central e Caribe.”
  • Custo dos insumos agrícolas, como sementes, fertilizantes e adubos, setor dominado por um oligopólio mundial de empresas e que recebe impacto do aumento do Barril do Petróleo.”
  • Consumo maior de alimentos em países em desenvolvimento, como China e Índia, onde a dieta tradicional de grãos e cereais foi acrescentada de carne e leite.”
  • Uso de grãos, como o milho, na produção de biocombustíveis. No ano passado 100milhões de toneladas de grãos foram usadas para biocombustíveis, com subsídios em alguns países.”
  • A especulação financeira em Bolsas de mercados futuros, onde são definidos os preços das commodities agrícolas. Os fundos especulativos existem, mas estão lucrando com a oportunidade. Se não houvesse essa oportunidade, os fundos especulativos não ganhariam o que estão tendo agora.”

Sabemos que o aumento dos alimentos não tem uma causa única, porém, mesmo com a “fumaça” que “embaça” o cenário da crise, enxergamos que a mesma não consiste na falta de comida em si. A FAO nos aponta os “culpados” da crise. As mudanças climáticas apenas, não seria capaz de esgotar o estoque mundial de alimentos a ponto da crise alimentar ser de uma escala mundial. Os Insumos agrícolas, de fato tiveram significativo aumento, cerca de 50%, como “reflexo” do poder técnico da atual geopolítica, que concentra na mão de empresas técnicas e recursos, que ao contrário do que se esperava com a badalada Revolução Verde da década de 60, como vemos, não vêm contribuindo de fato com a crise e muito menos com a Fome. O aumento do consumo de alimentos se justifica em dados, realmente maior número de pessoas, principalmente chineses e indianos estão se alimentando melhor, porém o número de famintos no mundo ainda são 860 milhões, e tal componente não se justifica quando no outro hemisfério, a briga das populações que lá vivem é contra o colesterol e a obesidade e pior, utilizam alimento como fonte geradora de biocombustível, como o caso do milho nos EUA, além de grande parte da produção mundial de grãos ser destinada à ração animal.

Concomitante ao desenrolar da crise, vemos um “desenrolar” também muito comentado e, assim como a Revolução Verde da década de 60, muito promissor, o crescente setor dos agrocombustíveis. Pelo poder midiático entitulado de Bioenergia, e caracterizado como “energia limpa”, a fim de “convencer” o quão importante o é para a sociedade como fonte que irá substituir o petróleo e assim poder manter nosso “confortável e agradável” modo de vida, o setor sucroalcooleiro vem despontando no território brasileiro com novos personagens e extensas áreas a seu favor. Os novos investidores, em nada se assemelham aos antigos usineiros, são acostumados ao mercado especulativo mundial e estão dispostos a correr riscos para embolsar fortunas num futuro próximo. Os mesmos, utilizam de diversas estratégias, uns compram usinas a serem construídas, outros já prontas, como no caso da Infinity BioEnergy, empresa formada por 50 investidores estrangeiros, que demonstra um apetite invejável no setor, tanto que já investiu 600milhões de dólares na compra de 7 usinas em funcionamento no estado do ES e MG.

Como vemos, dois cenários distintos e sobrepostos se revelam no atual contexto de uma geopolítica mundial, que a meu ver, fica mais claro, quando observa-se uma migração de grandes capitais para o setor dos “biocombustíveis”. Parto do princípio de poder e domínio na geopolítica mundial. Sendo assim, tal migração dos investimentos, não se deve a razões ambientais na qual os investidores buscam uma transição energética para o bem do planeta e da humanidade, e sim uma transição devido a oportunidades, às “brechas” do momento, que prometem domínio e poder. O desenvolvimento dos Biocombustíveis está diretamente ligado à alta do preço do barril do petróleo. E vale destacar que, os mesmos que especulam o preço do petróleo, são os que apontam à solução do combustível verde e “riem” com a miséria alheia e conflitos internos em países do Terceiro Mundo. Assim, talvez se os poderes da geopolítica vigente não nos cegarem por completo, vejamos o quanto os donos do poder se movem estrategicamente para terem o controle e domínio da nova matriz energética, o verde (nem tão verde assim) etanol.