A mentira que (quase) deu certo

Pode até parecer, admito. Mas não faço campanha anticristã. Sou francamente pró-história e defendo a idéia que esta disciplina deve isentar-se, o quanto antes, do favorecimento ideológico que lhe foi imposto há séculos. Considero o cristianismo um acontecimento importante demais para permanecer de forma tão apequenada como objeto de estudo. A sua verdadeira história interessa a todas as disciplinas e, em muito, pode colaborar com o alargamento do conhecimento humano em diversas áreas.

Que ninguém se impressione com PhDs e os “ólogos” pró-cristãos, normal. O Vaticano tem a sua academia de ciências. Quando se observa uma discussão ideológica ─ devo esclarecer que não defendo ideologia alguma, para mim é mudar de poleiro na mesma gaiola ─ há que se ter a atenção redobrada. A antiga questão entre a religião e a ciência é uma das mentiras institucionalizadas. Volto a lembrar que o cristianismo nunca foi uma religião, mas uma cultura religiosa. Na Antiguidade os templos abrigavam a religião e a ciência. Portanto, essa dificuldade veio surgir somente na Era Comum com esta cultura religiosa ao impor seus absurdos e a idéia de Deus. Por exemplo, quem inventou que a Terra era quadrada foi um monge cristão, grego alexandrino do século VI, chamado Kosmas Indikopleustes.

Na Antiguidade, os personagens principais das concepções religiosas, os deuses, se encontravam no tempo mítico ou primordial onde nada o antecedia. Esse tempo podia ser resgatado nas festas, quando o homem tornava-se periodicamente contemporâneo dos deuses. Assim a vida profana e religiosa se desenvolvia sem conflitos zelando pelos laços entre os homens e seus criadores (deuses), inclusive, com a ciência em paz. O tempo mítico ou primordial não é um tempo identificável no passado histórico, nenhum tempo poderia existir antes da aparição da realidade narrada pelo mito, na acepção de exemplo. A propósito, “teologia” significa: estudo das ciências dos deuses. Curioso, não?

O problema se inicia quando a nova cultura (cristianismo) resolveu inovar o tempo sagrado, criando o seu personagem principal no tempo cronológico ou histórico, ao afirmar a historicidade de Jesus Cristo. Ousadia demais para um simples ato de vontade. Uma necessidade muito forte levou os gregos a isso. Qual foi ela? O progresso do judaísmo com o proselitismo judeu. Tradicionalmente, para os gregos, religião era coisa de mulher e escravo. A cultura helênica não dispunha de nada para enfrentar o avanço cultural judeu. Assim sendo, a cultura helenística viu naquela contingência que a única saída era criar um antídoto, ou seja, um judaísmo grego. Um remédio amargo, mas não havia opção. Tão amargo que os talentos gregos desapareceram, nunca mais se ouviu falar de um grande pensador ou artista de tal origem.

O deus de Israel exigia dos seus eleitos uma vida santa. “Santo” significa: separado, por isso não se casavam com estrangeiros e nem participavam das festas gregas. No entanto, além de se recusarem ao ideal universal helenístico, ─ os gregos pretendiam unir a Humanidade num único povo. Daí o termo “agregar”, fazer como os gregos ─ os judeus estavam cativando os gregos menos favorecidos. Diferente do período clássico, no qual o mais pobre pouco diferia do mais abastado na sociedade grega, o período que se segue as conquistas alexandrinas ou o helenístico, revolucionou completamente aquele modo de vida austero de outrora. Riquezas imensas foram criadas e a distancia entre gregos ricos e pobres se alagou tremendamente. Os deuses das cidades nada faziam por eles. Ao contrário, o deus de Israel prometia prosperidade aos que cumprissem as suas leis (Antigo Testamento). Era um apelo tão forte como continua sendo hoje. Essa é uma das utilidades sociais dessa crença.

Deus é uma invenção grega do primeiro século da Era Comum. Antes, “Ele” não existia nem como um esboço do que se prega hoje. Essa idéia se inicia com um filósofo judeu neoplatônico, de Alexandria, chamado Filon. Este, não quis inventar Deus algum, simplesmente buscava uma forma de conter o ódio dos gregos pela comunidade judia daquela cidade. Assim sendo, como intelectual que era, procurou mostrar que o Antigo Testamento não destoava em sua essência da filosofia grega. O conteúdo era o mesmo, as formas é que variavam. De fato, variavam tanto no aspecto cultural que o sectarismo judeu era inaceitável ao ideal universal helenístico. Há muito sabemos que a utilidade de Deus é política e administrativa, entretanto, a maioria desconhece que foi esse o verdadeiro motivo da sua invenção.

Os primeiros séculos da Era Comum foram marcados por uma sangrenta disputa cultural entre gregos e judeus. Os gregos venceram e foram eles que contaram a história e orientaram o ensino e a educação. Tudo isso foi documentado, mas eles arrancaram estas páginas e colaram, muito mal colado por sinal, a história de Jesus Cristo como uma conquista de judeus humildes que passaram a desprezar o judaísmo histórico. Tomaram foi carona nos argumentos de Filon para darem continuidade de forma eufêmica ao ódio que alimentavam. O proselitismo judeu estava abrindo perigosas rachaduras na hegemonia cultural helênica. O mundo hoje poderia ser judeu e providências emergenciais deveriam ser tomadas.

Sem o Antigo Testamento o cristianismo jamais teria existido. Jesus Cristo foi só o pretexto e o avatar da filosofia grega. Este é um fato que merece mais estudos do que meras críticas. Em momento algum critiquei o conteúdo da bíblia, mesmo dizendo que ela é uma farsa, porque une um livro judeu a um livro grego como se fosse uma dádiva divina, sem dar maiores e necessárias explicações. Todavia, como um ateu não-ortodoxo, não ignoro que ninguém se converte senão recebe nada em troca. Portanto, como um método, o Antigo Testamento, está mais do que testado. Só não acredito que seja necessário continuar mentindo. A mentira persiste porque o capitalismo é um produto da cultura religiosa e ninguém quer problemas com ele.

Tirando a concepção de Einstein, que separa o Deus cultural da suposição de uma inteligência superior, uma coisa é certa: Deus não criou nada, foi criado.