A todos e a todas

Para abrir esta conversa com você vou utilizar um cumprimento que a Presidente Dilma Roussef faz aos brasileiros em seus discursos: “A todos e a todas…” Poderia falar a todos e a todas sobre vários assuntos, mas agora vou me referir ao estranho e inusitado território das relações entre todos e todas em pleno movimento de uma sociedade moderna com suas grandes conquistas científicas e tecnológicas e, ao mesmo tempo, com suas grandes frustrações no terreno das relações interpessoais… Entre todos e todas.
Hoje, temos comunicação instantânea com qualquer pessoa em qualquer parte do planeta e, por mais incrível que possa parecer, fora do planeta também: comunicamos-nos com astronautas!!! Mas não conseguimos nos relacionar plenamente com quem convivemos, conhecendo ou não. Por que a convivência de um ser humano com o outro está tão difícil? Por que empobrecemos nossa relação com nossos iguais, com nossos contemporâneos?
De que forma podemos observar claramente isso? De duas formas: pela escassez da educação que se aprende em casa e que nos torna seres amáveis e construtivos e pelo amortecimento dos valores que devem permear o desenvolvimento de uma sociedade que deveria ser igualmente amável e construtiva.
Para falarmos da primeira, a escassez da educação, devemos separar a educação da qualificação. Qualificação não traz, obrigatoriamente, educação e, em muitas vezes, pode até trazer certa prepotência. Já vi formados com mestrado e PHD sem educação e, infelizmente, isto é mais comum do que pensamos. Falamos da escassez daquela boa e acolhedora educação que não é só dizer “muito obrigado”, “com licença” e “me desculpe”! Para nós isso é uma boa educação! Muito falamos que os jovens estão pobres em educação e que respeitar parentes, amigos, colegas, professores e a todos e a todas é uma submissão que não estão dispostos a bancar, reis entronizados pela profusão de hormônios e necessidade de autoafirmação. Costumamos criticá-los afirmando que não têm educação e não conhecem limites.  Pretendemos e alardeamos isso aos quatro cantos, ou seja, que a educação seja direcionada aos jovens e que somente eles precisam dela, pois são o futuro da nação! Esquecemos que a educação deve ser exercida e que ninguém é tão íntimo de ninguém que não possa respeitar e ser gentil no convívio em casa ou nas ruas. Penso que nós, adultos, é que precisamos ter mais educação. Contundente? Desrespeitoso? Talvez, mas próprio! Andamos necessitando de educação em abundância, educação em torrente, educação fluente e aparente. Em consequência, um jovem bem educado e gentil aparecerá naturalmente. Nós, adultos, é que devemos bater na porta do quarto de nosso filho antes de entrar e depois ouvi-lo ou interpelá-lo com menos severidade e mais compreensão, aquela que nos torna de fato dignos de crédito. Com mais gentileza, pois, como disse o profeta, gentileza gera gentileza, que gera amor. Nós é que não devemos gastar todo o nosso tempo e nossa energia vital em frente a um computador, pois quando os malogros acontecem perdemos a gentileza e adotamos uma autoridade repressora, estranha e ineficaz. Nós é que devemos respeitar, de todas as formas, a todos e a todas dentro de nosso lar e no convívio social. Respeitar é viver de verdade, é viver positivamente, é conviver bem! Como podem nascer o respeito e o amor se não são recepcionados pela educação em nossas relações, pela gentileza? O que nos estressa tanto? Falo aqui de como nós, indivíduos intermediários entre nossos filhos e nossos pais, temos que prestar mais atenção à amabilidade e menos à portabilidade.
Como podemos, no convívio social, reclamarmos de nossa cidade barulhenta, quebrada e pichada se, lá em casa, no recôndito do lar, onde todos os gatos são pardos, não damos o exemplo? Não separamos o lixo, não moralizamos o uso da internet, não pedimos licença, não batemos nas portas dos quartos, não fechamos as torneiras ao escovarmos os dentes e não praticamos um consumo consciente de todas as coisas? Não observamos, não percebemos e não ouvimos! Como podemos pensar que educação é para os jovens se não os ensinamos a serem educados, construtivos? Isso porque aprender, para eles, obrigatoriamente se dá por intermédio de exemplos!
Assim como para fazermos nascer o amor e o respeito, precisamos da educação para recepcioná-los em nosso lar. Na sociedade atual, assistimos ao amortecimento dos valores construtivos por consequência quase que exclusiva da falta desse amor e desse respeito em casa!
Educação nas relações em sociedade, penso, deve ser um remédio emergencial e vital a ser administrado em nosso lar e em nossa sociedade. Como podemos, com nosso filho ao lado, jogarmos papeizinhos inofensivos pela janela do carro, lixo seco no container de lixo orgânico, buzinarmos como se a buzina não fosse um xingamento às costas de quem nem conhecemos ou como projéteis disparamos nas imediações de hospitais? Como podemos levar montões de faturas para um caixa eletrônico de banco e, com extremo descaso a todos e a todas, pagarmos todas de uma vez só enquanto empacamos em uma fila? Como podemos furar uma fila? Como podemos dar aquela voltinha maldosa pela contramão no buffet dos restaurantes? Fico estupefata quando vejo alguém destratar alguém que não conhece no supermercado, nas lojas e nas ruas da cidade. Como é que nos dirigimos tão acintosamente a alguém que nunca vimos? E quando estacionamos nas vagas para idosos e deficientes? Quando sentamos nos assentos preferenciais de ônibus e, percebendo a aproximação de seu verdadeiro usuário, um idoso, por exemplo, olhamos para a janela? Quando não respeitamos as regras de trânsito gerando mais mortos do que a mais sangrenta guerra?
Como podemos assistir, sem constrangimento algum, a campanhas públicas veiculadas nos meios de comunicação pelas quais os governos pagam milhões e que se prestam a nos ensinar o básico: lavar as mãos, separarmos o lixo seco do orgânico, utilizarmos camisinha, não violentarmos mulheres e crianças, respeitarmos as regras de trânsito e não consumirmos álcool quando dirigimos, tirarmos lixo de nossos quintais, doarmos sangue, medula e corações etc?
Corações, esses podemos doar sem morrer, e é extremamente urgente que aprendamos a fazer isto logo. Precisamos, como em um ato de favorecimento a nossa sobrevivência, desenvolvermos a consciência de que educarmos nossas relações interpessoais é um ato de amor construtivo que deve partir de cada um de nós e em qualquer lugar. Necessitamos perceber que pequenos gestos fazem a grande mudança social pela qual, tão urgentemente, nossa voz interna clama, mas, como um som qualquer lá na rua, ouvimos e não sabemos de onde vem! Vem de todos e de todas, com certeza. Quem não quer uma gentileza permanente em casa e na sociedade? Quem não quer a construção e não a destruição? Como nos sentimos bem quando recebemos uma gentileza de alguém. Nos sentimos acarinhados e valorizados. Por outro lado, como é higienizador para nosso corpo, nossa mente e nossos corações praticarmos uma gentileza. Como nos “limpa” de tudo o que é nocivo, principalmente quando recebemos um agradecimento e um sorriso de volta de quem nem sequer conhecemos, mas que, a partir daquele momento, passa a ser “nosso mais melhor amigo de infância”!!!
Se comecei esta conversa invocando um cumprimento da Presidente da República, e termino com a fala de outro Presidente que diz: “Sim! Nós Podemos!”

Alice Prati
Restauradora e autora do projeto e livro “SOS Monumento”
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