AUTOFAGIA INSTITUCIONAL

AUTOFAGIA INSTITUCIONAL

André Luís Luengo[1]

1 INTRODUÇÃO

Homo homini lupus

Thomas Hobbes

O significado da expressão autofagia é para alguns ainda desconhecido.

Para outros é sinônimo de autodevorar-se, ou seja, o fato do animal se alimentar do seu próprio corpo. E assim, a biologia a entende como um processo essencial para o funcionamento da célula, pois é a nutrição do corpo pela sua própria substância.

Deste modo e valendo-se desse paradigma, como pensar que esse processo autofágico possa ser salutar a uma instituição, pois o grande e crucial problema dos organismos politicamente constituídos repousa na maledicência interna corporis.

Não estamos ou pretendemos aqui discutir as pessoas ou os servidores, mas queremos tomá-las como exemplo do assunto proposto.

2 MALEDICÊNCIA

A maledicência é o ato de falar mal das pessoas. Muitas das vezes é pior do que a agressão física, pois não causa lesão corpórea, mas sim ofende a dignidade e macula toda uma história de vida.

É uma perigosa arma que está disponível a qualquer um. Para o seu uso, faz-se apenas necessário uma pitada de maldade, pois não há compromisso para quem a utiliza.

O maledicente nunca assume os seus atos, pois alega estar apenas vendendo o que comprou.

O seu alvo quase sempre são aqueles que se destacam na vida social e profissional, pois para ele é importante ofuscar o sucesso do seu semelhante, que lhe causa sombra e incomoda.

Não há sociedade ou instituição imune a maledicência.

No livro que contem a palavra de Deus, o apóstolo Pedro[2] ilustra que nós necessitamos buscar o crescimento e precisamos tirar da nossa vida alguns impedimentos:

Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual, para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação.” (1Pe. 2.1-2.)

Para tanto, deixar a maledicência é uma questão de caráter, pois há pessoas que chegam a falar mal de si mesmos.

Esse caráter não pode ser negociável ou questionável.

Ainda no livro das Leis, embora não se fale muito sobre a história de José, pai de Jesus, fica claro que a sua escolha teve como motivo preponderante, o fato dele ser uma pessoa com virtudes e de caráter inquestionável.

Imaginemos José ao receber a notícia de que Maria, sua noiva, sem ter sido por ele desposada, estava grávida e o fruto do seu ventre era obra do Espírito Santo.

Até aquela época, jamais se tinha ouvido falar em ter sido alguém concebido do Espírito Santo.

Segundo Mateus[3], os esclarecimentos foram prestados a José, por um anjo mensageiro que Deus lhe enviou:

Estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles. (Mt. 1.18-21.)

Antes que José recebesse o anjo do Senhor explicando o que estava acontecendo, ele poderia ter cedido ao espírito vingativo, ao rancor, ao ciúme.

Mas não, José tinha caráter e era um homem justo.

Indubitavelmente a maioria de nós não perderia uma chance semelhante para acabar com a outra pessoa. Isto porque, o atraso moral do ser aristotélico nutre a maledicência.

Em que pese os avanços tecnológicos e o dinamismo das sociedades, moralmente somos subdesenvolvidos.

Modernamente, ao invés de usarmos os utensílios dos habitantes das cavernas, usamos a língua para praticar algumas agressões. Utilizamo-la inclusive para propósitos de auto-afirmação, revides ou simplesmente pelo prazer gratuito de falar mal.

Por isso que o prazer em criticar a vida alheia, essa maledicência é um ato de autofagia. Trata-se da autofagia moral.

Para o grande explorador da alma e pai da psicanálise, Sigmund Freud[4], nós temos duas pulsões internas, denominando-as de impulso de vida e impulso de morte.

No primeiro impulso, ele apresenta tudo o que é pró-vida, virtudes e alegrias e no impulso de morte, aquilo que é pulsão para os vícios, depressão, inimizade e calúnia.

O maledicente, que tem o impulso de morte, passa a sofrer um desajuste íntimo, perdendo a força psíquica e se autodestrói moralmente, envenenando-se com a sua própria maldade.

São pessoas inquietas e infelizes, preocupadas não consigo mesmo, mas perturbadas com as quietudes e felicidades alheias. Deixam de viverem as suas vidas para sobreviverem às margens das vidas alheias.

A ciência que estuda o comportamento e os processos mentais esclarece que nós identificamos mais facilmente nos semelhantes aquilo que temos em abundância. Enfatizando os defeitos alheios ou até os criando, tentamos esconder as próprias imperfeições.

No ambiente profissional quase todos passamos por situações parecidas.

3 AMBIENTE INSTITUCIONAL

Na vida, o ser humano nasce e vive, mas sem saber o porquê de tudo isso.

Alimenta-se pelo processo natural da necessidade, procurando esclarecimentos sobre a obscuridade da vida.

No aprendizado da vida há inter-relações com outras pessoas, além do aprendizado normal das escolas e dos familiares.

Os pais nos ensinam e auxiliam na formação e postura como homens retos e probos. As escolas completam os ensinamentos, nos direcionando para uma profissão.

A vida profissional, movida pela competição e o orgulho, abastecida pela inveja e ganância, também acaba, a seu modo e forma, nos lapidando o caráter.

Esse estado político do ser humano é defendido por Hobbes[5] como um acidente. Para ele o homem não possui instinto social, pois é sociável não por força da natureza, mas por um acidente.

A justificativa para tanto, o filósofo encontra quando passa a compreender como o homem cria a instituição artificial do Governo. Ele descreve que no estado natural o homem ultrapassa todos os seus semelhantes, mas não apenas para buscar as suas necessidades naturais, mas sim por pura vaidade, para simplesmente mostrar que é superior.

Infelizmente há pessoas cujas bases construídas pela família não foram suficientes para forjar o seu caráter e quando ingressa na vida competitiva, isto acaba eclodindo e é descortinado.

Quando a pessoa passa a agir por conta própria, descobrindo as verdades, algumas deixam os seus ensinamentos de lado ou até porque a família não lhes tinha transmitido e retornam as suas fases instintivas de seres das cavernas.

Impregnados com todas as maledicências que obstaculizam a sua evolução, passam a destilar os conhecimentos falsos acumulados e infelizmente as vezes até conseguem alguns asseclas, que movidos pelo orgulho e vaidade, unem-se na empreitada do martírio e do autoflagelo.

A falta ou falha na formação dessas pessoas também proporciona dificuldades em aceitar críticas e competir.

Isto lhe deturpa todo o entendimento do que seja a vida e passa apenas a enxergar o seu fracasso como o resultado mais imediato, pois é movido pela arrogância, prepotência, medo e a inveja.

São as pessoas conhecidas como desconformadas. Mesmo que tenham conquistado algo, nada está bom. Tem medo de enfrentar a vida, pois não se conhecem internamente e estão enclausuradas dentro do seu corpo.

No mercado de trabalho já encontramos ou iremos encontrar pessoas assim.

Elas se incomodam sobremaneira com os colegas de profissões. Passam então a exercitar suas habilidades mundanas visando a menoscabar os companheiros potencialmente mais capacitados.

Assim agindo, pensam que os neutralizando, terão espaço para galgar, sem a necessária competência, alguns cargos ou posições de destaque.

Passam num movimento frenético e descontrolado a verbalizarem inverdades pelos quatro cantos da instituição a que pertencem e também para fora do ambiente de trabalho.

Ledo engano.

Há situações que não se ganham, mas se conquistam.

As suas bocas servem apenas para a sua própria condenação: “A boca do tolo é a sua própria destruição, e os seus lábios um laço para a sua alma”. [6]

Mas, mesmo assim, imaginemos o que pensa uma pessoa da sociedade que ouve em alto e bom som um profissional falando mal de um colega de trabalho.

Comentários desse viés geram ainda mais o descrédito à Instituição.

Por isso que os estudiosos apregoam que a maledicência é fonte para a autofagia institucional.

4 CONCLUSÃO

A busca do sucesso profissional para alguns se transforma numa verdadeira caçada. Para tanto vilipendiam a própria Instituição a que pertence, maculando-a como uma víbora quando ataca as suas vítimas.

O ser humano há que refletir sobre seu estado da natureza para poder viver efetivamente na paz e felicidade buscada por todos.

A competitividade é ferramenta importante de lapidação humana como também institucional, mas há que ser dosada com instrumento aferidos pelos sentimentos da verdade, justiça, probidade e da competência. E o mais importante é que na e para a análise o seu realizador haja com a razão e não se deixe levar pelo que ouve.

O maledicente que não busca a sua correção está fadado a autofagia moral e acaba abalando a sua Instituição.

Disto decorre que, embora para a biologia humana a autofagia seja um importante e essencial processo ao funcionamento da célula, nutrindo o corpo pela sua própria substância, em termos sociais e institucionais esse processo autofágico é perverso e contraproducente.


[1] O autor é Delegado de Polícia, Titular da DIG de Dracena. Professor Universitário na Faculdade de Direito do CESD de Dracena. Especialista em Direito Penal e Direito Processual Penal. Mestre em Direito pela UNIVEM, em Teoria do Direito e Teoria do Estado. Contato: luengo.garra@hotmail.com

[2] Bíblia sagrada. Edição luxo. Antigo e novo testamento. Trad. Pe Antonio Pereira de Figueiredo. Editora: DCL, p. 1174.

[3] Idem, p. 948.

[4] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1969.

[5] HOBBES, Thomas. Do cidadão. São Paulo: Martin Claret, 2004. Cap. V, 10 e 11.

______. O leviatã. Tradução João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fonte, 2003.

[6] Idem. P. 573.