Caso Watergate – marco histórico para o jornalismo investigativo

Estados Unidos, 1972 , ano eleitoral. Madrugada do dia 17 de junho. Cinco homens vestidos de terno e gravata, calçando luvas cirúrgicas, carregam milhares de dólares nos bolsos. Eles foram surpreendidos arrombando o escritório do Comitê Nacional do Partido Democrata, localizado nos Estados Unidos. Os autores, identificados como apoiadores do Partido Republicano, pretendiam instalar escutas eletrônicas no local para terem acesso às informações importantes dos adversários políticos.

No dia seguinte, o jornal “The Washington Post” publica uma nota sobre o crime. Para dar continuidade à cobertura, dois jovens repórteres do jornal, Carl Bernstein e Bob Woodward foram escalados para apurarem o caso. Durante a cobertura, a principal fonte dos repórteres foi uma pessoa conhecida por Garganta profunda (Deep Throat). Mark Felt – nome verdadeiro da principal fonte – revelou que o presidente sabia das operações ilegais. Para fornecer as informações sigilosas aos repórteres, apenas confirmava ou desmentia as provas, o que levou os jornalistas para o caminho certo.

Segundo as matérias do “Post”, o presidente e candidato Richard Nixon fez um “caixa dois” de campanha, ou seja, fundos com dinheiro não declarado para financiar operações de espionagem aos democratas. Ele queria encontrar algo desfavorável aos adversários para ser usado como arma de campanha e garantir a vitória nas urnas.

A Casa Branca não comentava o assunto. Ao longo dos dois anos seguintes, Nixon negou qualquer envolvimento com os fatos e ao mesmo tempo, “por baixo dos panos”, montava um esquema para dificultar as investigações da polícia e difamar o jornal. As denúncias não impediram que Nixon fosse reeleito em novembro do mesmo ano, com mais de 60% dos votos válidos de vantagem.

No ano seguinte (1973), os acusados foram a julgamento e presos. Entretanto, um dos acusados relatou ao juiz John Sirica que o governo era responsável por uma operação para abafar o escândalo. Com proporções maiores, o Congresso abriu um processo de impeachment contra o presidente e exigiu uma cópia de todas as conversas gravadas do presidente que tinham relação com o caso.

O FBI (órgão correspondente ao Departamento de Polícia Federal brasileiro) continuou as investigações e, em abril daquele ano, quatro dos principais assessores do presidente foram demitidos por envolvimento no caso. Enquanto isso, o Senado formou uma comissão especial para acompanhar a apuração das denúncias envolvendo a Presidência da República.

Uma prova decisiva estava a caminho quando, em julho de 1973, um assessor da Casa Branca revelou a existência de conversas comprometedoras com o presidente gravadas no Salão Oval. Nixon fez de tudo para evitar que o material fosse divulgado. Mas foi tudo em vão.

O desfecho da história aconteceu em 24 de julho de 1974, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos ordenou a entrega das fitas cassetes à Justiça. Os áudios, que estavam parcialmente apagados, confirmaram que Nixon tentou, desde o início, impedir uma investigação profunda sobre o crime. Era a prova de que o presidente mentia sobre sua participação no escândalo.

Sob a ameaça de votação de um impeachmment, Nixon renunciou ao cargo em 8 de agosto de 1974 e admitiu seus erros. No dia seguinte, o vice-presidente, Gerald Ford, foi empossado, dando fim à crise. “Nosso longo pesadelo nacional terminou”, disse na ocasião. Um mês depois, ele concedeu a Nixon perdão para quaisquer crimes que tenha cometido, evitando assim que o ex-presidente fosse a julgamento.

Nos anos seguintes de sua vida, Nixon evitava comentar qualquer assunto relacionado ao seu patrimônio financeiro. E sempre que convidado a fazer algum discurso ou palestra, recusava o pagamento de cachê.

Richard Nixon passou seus últimos dias em Nova York, onde vivia uma rotina discreta alternada por caminhadas noturnas, visitas frequentes às bibliotecas e à produção de textos. Em abril de 1994, faleceu aos oitenta e um anos de idade, vítima de um derrame cerebral.

Depois de Watergate, a política americana não foi mais a mesma. A opinião pública norte-americana passou a ser mais crítica em relação ao governo. Para o mundo, o Caso Watergate se tornou sinônimo de corrupção política. No Brasil, por exemplo, ficou conhecido como “Collorgate”, as denúncias de irregularidades que levaram o ex-presidente Fernando Collor de Mello a ser o primeiro presidente brasileiro a sofrer processo de impeachmment, em setembro de 1992.

Para o jornalismo, as reportagens de Woodward e Bernstein são consideradas um marco do jornalismo investigativo e qualificaram a imprensa como o Quarto Poder. Eles publicaram em 1974 o livro “Todos os Homens do Presidente”, campeão de vendas nos Estados Unidos. Em 1976, a obra foi adaptada para o cinema em filme como mesmo título. Dirigido por Alan J. Pakula e estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman (nos papéis dos repórteres do “Post”), o filme ganhou quatro Oscars.