Compondo uma música de sucesso

Música comercial. Este tema já deu o que falar. Alguns diziam (e dizem) “as rádios só tocam música comercial”.

Mas o que é “música comercial”? Música comercial é uma música vendável. É uma música que se anuncia e que o povo compra. Uma música que vende, que dá lucro.

E porque vende? E porque outros tipos de música não vendem?

É muito simples. Até mesmo o mais “cabeça” dos compositores pode entender facilmente isto.

Suponhamos que você resolva montar uma empresa, uma loja. Vamos simplificar: uma loja de roupas. Uma das primeiras coisas que você vai ter que decidir é o tipo de roupa que você vai vender.

Por algum motivo, você resolve ser “diferente”. Ao invés de vender aquelas marcas e estilos da moda, lota sua loja com roupas exóticas, super-coloridas, o escambau a quatro. Há clientes para sua loja? Há. Poucos clientes, bem poucos. Porque a maioria das pessoas quer usar aquelas roupas da moda, daquelas marcas consagradas, aquelas roupas que os personagens usam nas novelas, que são anunciadas na televisão! Ou seja: roupas comerciais.

O que aconteceu aí? Você trabalha com um produto que tem um mercado restrito, pequeno. Se quiser vender bastante, precisa trabalhar com as roupas “comerciais”. Pior ainda, após algum tempo funcionando e amargando pouquíssimas vendas, você não pode mais mudar. Aquela loja, naquele lugar, com aquele nome, já ganhou a fama de vender aquelas roupas que quase ninguém quer.

Acendeu aí alguma luz? Algo a ver com música “comercial” e música “não-comercial”? Tudo a ver. A música dita comercial, é a que o povo quer. Não importa o quanto alguns gritem que o povo é sem cultura, ignorante (o que não é verdade), que não entende de música e por aí afora. Muitos precisam entender o seguinte: o povo quer algo que possa compreender, que tenha alguma serventia, que seja simples, objetivo.

Quando você ouve uma música e pergunta: “o que será que ele (ou ela) quis dizer?”, é porque a música não tem pé nem cabeça. Vai do nada a lugar nenhum. A letra não diz nada. É um amontoado de palavras sem nexo. Ou seja, o compositor escreve um aberração deste naipe e chama o público de ignorante. E continua pela vida afora, sem vender seu peixe.

Voltando à analogia com a loja de roupas, será que o dono de uma loja daquelas poderia dizer que o povo é ignorante e não sabe vestir-se?

Tudo bem, alguns diriam: mas arte é arte. Sim, é claro. Se um artista plástico pinta um quadro daqueles que parece que o cara jogou trezentas e cinquenta latas de tinta na tela e depois pisoteou a coisa toda, e termina sem vender o quadro, arte é arte. Um outro pinta uma bela paisagem, ou pessoas, um lugar bonito e vende quadros e mais quadros, arte é arte.

A arte (incluindo a música) “cabeça”, tem o seu lugar. Se o sujeito fez lá uma música que nem marciano compreende, alguém há de gostar, curtir, até mesmo comprar. Mas não a massa, não a maioria do povo. Se o artista quer continuar a fazer sua música daquele jeito, não há problema algum. Mas deve compreender que seu mercado é restrito. Não vai vender milhões. Nem sequer milhares, dependendo do caso.

Por outro lado, é claro que o outro extremo também existe. Fazer uma música simples não é fazer uma música vulgar, banal. É usar palavras, melodias, acordes simples harmoniosamente, e com sentido. Muitas vezes ficamos procurando a beleza em acordes intrincados e letras rebuscadas, terminando por criar algo incompreensível. É muito mais produtivo usar acordes e linguagem simples. É claro que estamos falando de música popular. Comercial, se quiser. Uma música cuja letra não diz nada e que tem meia dúzia de acordes a serem tocados sobre uma simples palavra, não é popular. Nem comercial.

Faça você música popular (para o povo) ou música mais rebuscada, pode e deve utilizar o conceito da simplicidade, da objetividade. Uma música com acordes complicados e melodia intrincada, pode beneficiar-se bastante com um letra simples, compreensível. E também com uma estrutura mais popular, mais objetiva. O que o artista deve compreender também, é que a profusão de acordes dissonantes com sequencias mirabolantes, quase impossíveis de serem reproduzidas por outro músico, não confere qualidade à música. Nem faz vender mais. Pelo contrário. Você já viu uma pessoa simples (a grande maioria de nós) dizer, ao escutar uma música: “olha só esta diminuta!”. Nem viu, nem vai ver.

Sabe qual é o recado que um artista passa ao interpretar uma música complicadíssima, cheia de salamalaques, acordes mil, letra difícil de cantar, decorar e entender? Ele está dizendo: “vejam, simples mortais! Eu sou bom! Toco pra caramba, canto pra caramba, sou o bicho!”. O que ele não sabe, é que o mundo inteiro está defecando e caminhando para ele! Pode ser difícil de engolir, mas ninguém está interessado em você (a não ser Deus). Cada qual está interessado em seu próprio nariz. Faça música para os outros, não para si mesmo!

Portanto, você deve escolher onde quer estar. Se quer fazer música para músicos ouvirem, vá em frente. Coloque três mil acordes complicadíssimos em cada frase da música. Se quer fazer música para gente “cabeça”, vá em frente. Escreva letras que vão do nada a lugar nenhum. Mas se quer compor música para vender, para atingir o povo (música popular), escreva letras simples e objetivas, estruture a música corretamente e não se perca entre milhares de acordes. Mantenha a beleza com simplicidade.