EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE ATUAL

EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE ATUAL

Maria das Graças Amaro Augusto de Carvalho[1]

RESUMO

O texto busca discutir a educação atualmente, dando visibilidade ao fenômeno da crescente importância comunicacional na sociedade atual, globalizada e tecnificada. A educação constitui-se num processo cada vez mais mediatizado pelas máquinas “inteligentes”. Tal processo exige um redimensionamento do papel dos educadores na sociedade do conhecimento. A presente discussão pretende contribuir para uma reflexão acerca da educação na sociedade capitalista. Tenta-se aqui delinear alguns pontos indispensáveis para uma melhor compreensão e melhoria da atual realidade da educação brasileira.

PALAVRAS-CHAVE: Educação, Sociedade, Tecnologia, Inovação Pedagógica.

INTRODUÇÃO

O mundo vive atualmente um momento histórico marcado por grandes transformações, sobretudo tecnológicas, com produção e transmissão de informações em velocidade impressionantes. Estamos vivenciando uma plena revolução tecnológica, na qual a realidade se faz cada vez mais veloz. Essa nova condição exige um redimensionamento dos universos do trabalho, da sociedade e da cultura, e conseqüentemente da educação, que é considerada um objeto priorizado no desenvolvimento das sociedades. O desenvolvimento de um país está atrelado à qualidade da sua educação. Segundo Severino (2000), “a educação é entendida como mediação básica na vida social de todas as comunidades humanas” e esta se encontra diretamente ligada às condições econômicas e socioculturais.

A sociedade do conhecimento (WEILER, 2006) vive um momento de plena revolução tecnológica, estando centrada atualmente na aprendizagem medida e mediatizada através dos múltiplos recursos existentes nos meios de comunicação em geral. Caracteriza-se, sobretudo, pela utilização de novas técnicas que trazem profundas transformações decorrentes do avanço tecnológico, nas diversas esferas de sua existência.

A educação tem sofrido reflexos dessas mudanças quanto ao processo didático pedagógico e metodológico de ensino. Tais mudanças têm exigido um redimensionamento do papel do educador na atualidade.

  1. A REALIDADE DA EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA ATUALMENTE

A educação brasileira é perpassada atualmente por um momento de ruptura e eliminação de fronteiras, valorização do privado e do lucro, com perfis assumidamente individualistas, produtivistas e consumistas. Segundo Octavio Ianni (1998, p.28),

O que está em causa é a busca de maior e crescente produtividade, competitividade e lucratividade, tendo em conta mercados nacionais, regionais e mundiais. Daí a impressão de que o mundo se transforma no território de uma vasta e complexa fábrica global e, ao mesmo tempo, ao shopping Center global e Disneylândia global.

Esta realidade tem acarretado uma série de conseqüências no mundo, principalmente para os países subdesenvolvidos. A América Latina, onde as marcas da exclusão são mais claras, passou e continua passando por este processo de adequação aos ditames da economia global a um preço muito alto, conferindo a maioria da sua população condições extremamente precárias de vida. No Brasil, as expressões das desigualdades são nítidas e cada vez mais agudizadas. Nas palavras de Severino (2000), “O retrato da existência real da população brasileira é o seguinte: 17% vivem na miséria, ou seja, 26 milhões de pessoas; 17.600.000 de pessoas morrem antes de atingir os 40 anos; 24.480.000 são analfabetos; 36.720.000 não contam com água potável; e 45.900.000 não dispõem de esgoto”.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no ano de 2009 revelam que o nível de pobreza da infância e adolescência no país ainda é elevado. A maioria das crianças e adolescentes de até 17 anos vivia, em 2008, em situação de pobreza (44,7%). O estudo destaca ainda, que a renda da família é fator determinante para a freqüência à escola. Na faixa dos 7 a 14 anos de idade o acesso à escola está praticamente universalizado em todos os níveis de rendimento. Entretanto, a freqüência escolar dos adolescentes de 15 a 17 anos, era de 78,4%, nas famílias mais pobres, e 93,7% nas famílias mais ricas. Outro fator marcante é que a escolaridade média das mulheres é superior a dos homens. Mas, mesmo com uma maior escolaridade, em todas as posições de ocupação, o rendimento médio dos homens é maior que das mulheres. A maior diferença é na posição de empregador. A menor diferença é na posição de empregado sem carteira assinada, resultado das condições precárias dos trabalhadores empregados sem carteira.

A educação está diretamente ligada às condições econômicas, sociais e culturais de um país. No Brasil, as conseqüências disto é um quadro extremamente caótico e deficitário. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1995, das crianças de 7 a 14 anos de idade, 3% só trabalham e 6,8% não trabalham, mas também não estudam; isto corresponde a cerca de 2.800.000 crianças fora de qualquer ambiente formal de estudo; e 10,5% estudam e trabalham simultaneamente, totalizando no ano de 1995 um percentual de 79,7% da população desta faixa apenas estudando, atendida pelos serviços da educação, ainda que de forma muitas vezes precária. Já de acordo com a PNAD de 2008, brasileiros maiores de 18 anos, em média, ainda não concluem o ensino fundamental; o trabalho infantil diminui em relação aos anos anteriores, mas ainda é realidade para 993 mil crianças de 5 a 13 anos, sendo normalmente agrícola, masculino e sem registro; e esta situação se torna ainda mais grave uma vez que mais de 60% das crianças de 5 a 13 anos ocupadas também faziam tarefas domésticas. Estabelecendo uma comparação, estes dados revelam que apesar do passar dos anos, mais de uma década depois, a situação de exploração infantil e de déficit educacional permanece alarmante. Somam-se a isto as condições em que se encontra o sistema de ensino brasileiro.

Apesar de algumas das principais políticas para a educação no país concentrarem esforços sobre a diminuição dos índices de evasão escolar, repetência, e nas diversas práticas de “aceleração”, os resultados reais dessas políticas tem sido bem diferentes do que os resultados avaliados estatisticamente. O que está em questão não são apenas dados numéricos, quantitativos, mas sim a qualidade real do ensino no Brasil. Temos índices aparentemente positivos, mas a qualidade da educação está longe de melhorar. Percebe-se que “o principal efeito das medidas de progressão automática era que a escola envolvia-se, antes de qualquer coisa, com a produção de um índice alto de sucesso e não com a produção do sucesso escolar propriamente” (CARVALHO, Marília. 2001).

A educação não pode ser vista como um processo mecânico de desenvolvimento de potencialidades, e muito menos automático. Ao contrário, é um processo de construção ao longo do tempo, de uma prática humana intencionalizada[2], orientada para o fim do saber. Mas, a qualidade da educação na América Latina e, sobretudo no Brasil, está longe de atingir patamares mínimos. Constitui-se atualmente como um grande desafio aos gestores e educadores. A educação urge por um olhar mais crítico e medidas enérgicas em relação a sua situação real. Portanto, falar em educação atualmente é falar de cautela, indispensável às perspectivas atuais da teoria e da prática pedagógica.

  1. O DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO

A educação é um fenômeno próprio dos seres humanos (SAVIANE, 2003, p. 11), e constitui-se como instrumento fundamental para o desenvolvimento e construção da cidadania, tornando-se, portanto, indispensável para a formação do homem como ser social. O acesso a informações atualmente tem crescido de maneira avassaladora, e as novas tecnologias da informação aparecem como uma nova maneira de sociabilidade, de pensar e de conviver.

Segundo Lèvy (1993) “as relações entre os homens, o trabalho e a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos”. Portanto, não há possibilidade de indiferença ou de manter-se alheio a este avanço, pois seus traços peculiares estão presentes em toda parte e no dia-a-dia de todos os indivíduos. As relações, a maneira de pensar e de agir, de exercer a sociabilidade e de interagir tem sido permeadas pelas mudanças decorrentes dos avanços tecnológicos.

De acordo com Kensky (1998, p. 61)

O estilo digital engendra, obrigatoriamente, não apenas o uso dos novos equipamentos para a produção e apreensão do conhecimento, mas também novos comportamentos de aprendizagem, novas racionalidades, novos estímulos perceptivos. Seu rápido alastramento e multiplicação, em novos produtos e em novas áreas, obriga-nos a não mais ignorar sua presença e importância.

O desenvolvimento tecnológico constitui um contexto novo, um novo momento da história da humanidade, rico de possibilidades, o momento da era da informática, na qual as crianças são fascinadas pelos seus muitos instrumentos atrativos, com cores chamativas, onde o espectador é ela própria. Essas são suas novas formas de brincar. As crianças substituíram a bola, o pião, o carrinho e as bonecas pelos celulares, laptops, computadores e jogos online e em 3D. O acesso a informação tornou-se um direito primeiro, fundamental, primordial.

As novas tecnologias, o amplo acesso às informações e a grande velocidade das comunicações criaram novos espaços do conhecimento, que oferecem ao educador facilidades. Entretanto, representam ao mesmo tempo um novo desafio. Segundo Gadotti (2000), estamos vivendo uma “Revolução da Informação”. Nessa nova Era o conhecimento é o grande capital da humanidade, ele é básico para a sobrevivência de todos. A informação está sempre e permanentemente presente em renovação constante, possibilitando ao indivíduo a liberdade de ser capaz de conhecer o mundo ao seu redor e a si mesmo.

  1. O REDIMENSIONAMENTO DO PAPEL DO EDUCADOR

Todas essas mudanças nesse novo contexto têm redimensionado o papel do educador e exigido novas metodologias de ensino. O professor deve exercer sua função como um incentivador do conhecimento, e não como um detentor absoluto dele. Esta realidade deve ser objeto de reflexão permanente e contínua por parte dos educadores quanto a sua prática pedagógica, com vistas a encontrar novas formas de desenvolver competências e a capacitação dos seus alunos para enfrentar novos desafios.

Com a inserção da tecnologia na prática pedagógica, torna-se cada vez menor a utilização do quadro negro, do giz, do livro-texto e do professor conteudista, dando lugar para a aplicação de novas tecnologias como novos recursos. O educador deve usar essas facilidades tecnológicas de maneira a aproveitar o seu potencial como recurso instrumental para sua prática didática, conhecendo suas possibilidades e limitações, e usando-as a seu favor. Ele precisa se apropriar da aparelhagem tecnológica para enfrentar novos desafios e reflexões sobre sua prática docente, assim como recurso no processo de construção do conhecimento por parte do aluno. O professor não deve temer e, sim, dominar a máquina e aproveitar o potencial tecnológico com vistas a um ensino e uma aprendizagem mais criativa, autônoma, colaborativa e interativa. A função do professor

[…] é a de organizar o ambiente de aprendizagem, escolher os recursos e softwares, realizar a intervenção pedagógica, quando necessária, reorganizar as atividades, ou seja, levar à auto-organização, interagindo, construindo, junto com os alunos, as situações e simulações”. (FARIA, 2004)

Por isso, não basta apenas adquirir e inserir recursos tecnológicos em atividades pedagógicas sem que estes provoquem uma mudança nas formas tradicionais de ensino. Como afirma Morais (2000, p.132),

Não é suficiente adquirir televisão, videocassetes, computadores, sem que haja uma mudança básica na postura do educador. É preciso mais. […] É necessário entender o educando como ser histórico, ativo e como tal, a atenção não pode centrar-se apenas no instrumento e na técnica […].

O educador deve ajudar a desenvolver uma consciência crítica dos alunos, com vistas à construção do seu conhecimento, estimulando e motivando-os a desenvolver sua capacidade criativa, intelectiva e de autonomia ao ponto de atingir seus próprios objetivos através da participação e colaboração, tornando a aprendizagem um processo interativo, criativo e crítico.

A relação professor-aluno aparece agora mediatizada pelo uso da tecnologia, sendo redimensionada para professor – computador – aluno. Observa-se com mais clareza esta nova relação ao analisar as novas modalidades de ensino, que revolucionaram a típica relação até então existente. Como bem afirma Weiler (2006),

A utilização das novas tecnologias tornou possível à troca de informações através da participação em listas de discussão, do correio eletrônico ou em chat, que permite a conversa pelo computador. Pode-se observar o desenvolvimento de programas no ensino a distância, online, em que, através dos computadores, ocorre a comunicação do professor com o aluno, resultando que as classes virtuais formam cada vez mais alunos no ensino não presencial.

Entretanto, o amplo acesso à informação constitui-se como arma de gumes contraditórios. Tanto pode contribuir para legitimar ideologicamente contradições, e por outro lado pode desmascarar e trazer à tona a consciência crítica dessas contradições.

Se, por um lado, a educação pode contribuir para disfarçar, legitimando ideologicamente, […] por outro, pode também desmascarar e aguçar a consciência dessas contradições, contribuindo para sua superação no plano da realidade objetiva. Se a educação pode ser […] um elemento fundamental na reprodução de determinado sistema social, ela pode ser também elemento gerador de novas formas de concepções de mundo capazes de se contraporem à concepção de mundo dominante em determinado contexto sociocultural. (SEVERINO, 1986:96).

A tecnologia facilita o processo de transmissão da informação e de aprendizado, mas o professor continua sendo fundamental na escolha e na correta utilização desta.

CONCLUSÃO

Diante de todas as transformações ocorridas no campo do social, cultural e econômico, onde a gama de informações e descobertas acontecem de maneira muito rápida, o processo de desenvolvimento da educação entra como um dos aspectos mais importantes a serem discutidos.

Entretanto, as perspectivas atuais da educação brasileira apontam para um futuro de grandes desafios para os gestores e educadores. O quadro da realidade mostra o quanto estamos distantes de atingir níveis mínimos de qualidade. As estatísticas apontadas como satisfatórias não passam de dados que não levam em consideração as condições reais do suposto desenvolvimento educacional no país. É grave o déficit que se apresenta em termos quantitativos e qualitativos.

A educação não é a alavanca da transformação social, mas ela está diretamente relacionada com as condições, sobretudo econômicas de um determinado país. O nível educacional é uma condição necessária para o crescimento econômico. Através da educação se pode construir um país desenvolvido, que proporcione aos seus cidadãos oportunidades de decisões a respeito da sua própria vida e da realidade em permanente mudança. A educação é essencial ao desenvolvimento humano.

Torna-se necessária uma avaliação mais crítica da realidade da sociedade brasileira e uma maior vigilância diante dos ditames globais neoliberais capitalistas, a fim de contribuir para desenvolvimento através dos novos recursos disponíveis na atualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CARVALHO, Marília P. Estatísticas de desempenho escolar: o lado avesso. In: Revista Educação & Sociedade. São Paulo, ano XXII, nº 77, Dezembro/2001 (p. 231 a 252).

FARIA, Elaine T. O professor e as novas tecnologias. In: ENRICONE, Délcia (Org.). Ser Professor. 4ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004 (p. 57-72).

GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. In: São Paulo em Perspectiva. Vol.14, nº 2. São Paulo: Apr./June 2000. Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/spp/v14n2/9782.pdf>. Acesso em: 26 de Maio de 2010. 09:40:56.

IBGE, 2003. Disponível em: < http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/datas/escola/dados.html>. Acesso em 03 de Junho de 2010, 18:42:52.

IBGE, 2008. Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1455&id_pagina=1>. Acesso em 04 de Junho de 2010, 09:22:32.

IBGE, 2009. Disponível em: http://www.ibge.com.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1476&id_pagina=1>. Acesso em 03 de Junho de 2010, 19:03:47.

SEVERINO, Antônio. Educação, trabalho e cidadania: a educação brasileira e o desafio da formação humana no atual cenário histórico. In: São Paulo em Perspectiva. Vol.14, nº2. São Paulo: Apr./June 2000. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392000000200010>. Acesso em: 26 de Maio de 2010. 09:59:37.

WEILER, Lara. A educação e a sociedade atual frente às novas tecnologias. Disponível em: <http://jararaca.ufsm.br/websites/l&c/download/Artigos/L&C_1S_06/LaraL&C2006.pd> Acesso em: 27 de Maio de 2010. 10:21:15


[1] Aluna do Curso de Especialização em Supervisão Escolar pela Universidade Estadual Vale do Acaraú – Universidade Aberta Vida UNAVIDA. Contato: graca.carvalho2@hotmail.com

[2] Intencionalizada aparece aqui como um processo pelo qual a “atividade técnica deixa de ser mecânica e passa a se dar em função de uma projetividade, o trabalho ganhando um sentido”. (SEVERINO, 2000).