Educação S/A

Universidades Abrem o Capital e Abrem um Debate

Uma empresa de educação, com capital aberto e ações em bolsa, se iguala e se diferencia das demais empresas. Mas como pode a um só tempo um só ser ser igual e ser diferente dos demais que o cercam? Eis o mistério deste artigo…

Universidades abriram o capital e captaram milhões na Bovespa. Uma luta por aquisições de faculdades (e alunos) foi travada no território nacional: por toda parte a cada dia uma aquisição nova, uma notícia nova fazia mudar os nomes, as marcas… a batalha das cervejas foi substituída pela batalha das faculdades.

Quem compra quem? Quem compra mais?

No território paulista duas gigantes se enfrentaram: a Anhanguera e a carioca Estácio de Sá travaram combate palmo a palmo e ambas elegeram o crescimento por aquisições como forma de ganhar massa crítica e devolver as expectativas do público investidor que compareceu ao IPO e comparece a cada dia nos pregões da BOVESPA.

Quanto vale um aluno?

Aluno com “nota boa” vale tanto quanto aluno com “nota ruim”? Aluno que freqüenta vale tanto quanto aluno pouco assíduo? Um estranho mercado se formou e nele os negócios se operaram: presente, vi, vivo e vivi. Tornou-se comum receber uma estranha pergunta formulada de todas as partes do Brasil: quanto vale um aluno? Participei de inúmeras negociações entre as mais diversas instituições e uma pergunta ética se manifestou:

Uma escola é uma empresa como as outras?

O que diferencia uma Universidade de capital aberto, de uma outra empresa qualquer de capital aberto?

E, no sentido oposto, o que é que faz uma Universidade de capital aberto semelhante a uma empresa de capital aberto?

Em que aspectos são diferentes e em que aspectos são iguais?

Aprendi que o limite, a fronteira que iguala e diferencia uma empresa das outras chama-se “SOBERANIA DE GESTÃO”.

Em cada empresa, a Administração exerce a sua SOBERANIA DE GESTÃO, observando a regra: a geral (a lei) e a individual (o estatuto). Entre um e outro, uma terceira regra não escrita rege toda e qualquer empresa: a regra ética. É a regra ética que faz a empresa ser o que precisa ser e fazer o que precisa ser feito, ainda que o ser e o fazer não sejam comandos vindos das regras legais ou estatutárias, porque as empresas são comandadas por forças invisíveis e poderosas, as regras éticas.

O triangulo tem três pontas: lei, estatuto e ética.

A soberania de gestão é então exercida dentro deste triângulo.

Neste sentido uma empresa de educação é igual a uma empresa de compra e venda de feijão.

E é esta arquitetura (igual em qualquer empresa) que faz a empresa de educação diferente: o vértice ético desta difere, pois esperamos de uma empresa que planta cultura e educação uma colheita diferente daquela que planta feijão.

Isso significa que uma Universidade ao exercitar a sua SOBERANIA DE GESTÃO deve se lembrar que o marco ético desta administração é diferente do marco ético de uma administração de uma locadora de vídeo, de uma loja de departamento.

Não se trata de eleger valor, um marco ético superior a outro, trata-se de dizer: é diferente, nem melhor nem pior, diferente.

Soberania de Gestão X Marco Ético

E aqui, justamente neste ponto é que identifico o fracasso das políticas das Universidades de crescerem via aquisições.

Veja o caso da Estácio de Sá em sua caminhada bandeirante. Fincou sua bandeira em São Paulo (onde opera como IREP, uma empresa de capital fechado) com a aquisição da Uni Radial (que de universidade só tinha o “UNI”, vez que de um centro universitário se tratava).

Alugou um imóvel no Marajoara que foi construído para ser um Shooping, mas que como shooping nunca vingou. Fez reformas para transformar o prédio em escola, mas derrapou ao buscar licenças na prefeitura (detalhes como estacionamento para os alunos, aumento do tráfego na região, ou coisa do gênero): e o aluguel correndo.

Em dado momento o prédio que era shopping virou escola, mas não conseguia operar como escola e para voltar a ser shooping ficava também muito complicado: e o aluguel correndo.

Até mesmo Luciano Huck foi mobilizado para a conquista de mercado. O Luciano Huck é um garoto-propaganda de inegável valor, mas sua figura pública guarda alguma relação com o triângulo no qual as escolas se inserem?

Uma das Faculdades adquiridas, a Montessori, mantinha um curso de extremado valor cultural: ARTES VISUAIS. O curso de graduação existia como um presente da Selma Ligeiro Rein para a cidade de São Paulo. Existia para gerar valor para sociedade, a sociedade paulistana, a sociedade brasileira. O compromisso era com os artistas, com a cultura: o curso foi eliminado dos quadros após a aquisição da faculdade pela Estácio.

Porque?  Por SOBERANIA DE GESTÃO, o que significa que não nos cabe discutir. A princípio, não é da nossa conta.

IPO – GP INVESTMENTS – IMBRA: Preço das Ações X Valor da Instituição

Após o IPO da Universidade Estácio de Sá o mercado reclamava e os preços das ações….

Para mudar para melhor a Universidade Estácio de Sá contra-atacou: o GP Investments assumiu o comando, os investidores receberam uma sinalização de que o mito de midas do GP alteraria os resultados…

Pensei comigo: mas o GP reestrutura operações submetidas a outro triangulo… a administração de uma escola ao exercer a SOBERANIA DE GESTÃO observa um triangulo diferente daquele no qual o GP opera. O que será que vai acontecer?

Bom, o que se verificou e o que se verifica é que escola não é como a IMBRA, a empresa sorridente que o GP comprou e, 20 meses depois (em junho de 2010), vendeu por US$ 1,00.

Um FUNDO ABUTRE (nomenclatura adotada pelo ESTADÃO de 7/10/2010) em menos de 4 meses – após comprar do GP pelos famosos US$ 1,00 – pediu a auto-falência da IMBRA, e a história segue a crônica judicial disponivel no Google para os cerca de 25.000 consumidores que não acharam graça nenhuma na cirurgia.

25.000 consumidores irão concordar comigo que o tradicional dentista garante um sorriso mais saudável do que um FUNDO ABUTRE, porque escola e saúde são diferentes de uma locadora de vídeo, de uma loja de departamentos. Em essência todas são empresas, a diferença esta no triangulo de cada uma.

ARTES VISUAIS FICAM INVISÍVEIS

Assim, se o triangulo da escola apresenta um marco ético diferente será que a decisão de fechar um curso de graduacao de ARTES, pioneira e meritória, encaixa-se perfeitamente no campo da SOBERANIA DE GESTÃO.

O curso de ARTES VISUAIS da Faculdade Montessori fechado pela Universidade Estácio de Sá, após a sua aquisição, existia a 10 anos e chegou a ter quase 750 alunos matriculados simultaneamente: uma explosão na agenda cultural da cidade.

Outro curso que também foi eliminado era o vanguardista Curso de Ciências Holísticas, uma pós-graduação reconhecida pelo MEC que inovava ao ministrar cursos de cosmetologia (segmento que respeita a vocação da biodiversidade brasileira), auricultura e outros que atraiam alunos inclusive dos demais estados, criando cultura, gerando valor, mas foi eliminado por conta da SOBERANIA DE GESTÃO, a frase mágica que nos diz que o assunto não nos diz respeito.

A cada dia o comando da Estácio de Sá muda em São Paulo. E os resultados mudam? Executivos, ótimos gestores em outros segmentos entram em campo e… não se trata de um campo quadrado… é o tal do triangulo que na educação é diferente, este é o problema. Quem opera no quadrado precisa de um compasso no triangulo.

FIM S/A

Esta mistura toda tem um outro problema: a questão da empresa de capital aberto e os negócios com partes relacionadas de capital fechado, um baita problema que enfrentaremos em outro artigo quando voltaremos a este caso.

*O Autor possui 27 livros publicados e prepara o lançamento de JBNDES – Ainda Não Proibido  http://www.adequcacao.com.br/blog