Especialista brasileiro analisa o primeiro transplante total de face no mundo

O primeiro semestre deste ano se destaca pelo inédito transplante total de face, ocorrido em Barcelona (Espanha), no paciente Oscar, no Hospital Vall d’Hebron. Um marco na história da medicina, pela alta complexidade do procedimento que exigiu uma equipe multidisciplinar para a realização do transplante de toda a pele e músculos do rosto, pálpebras, nariz, lábios, maxilar superior, dentes, ossos dos pômulos e da mandíbula, no qual foram utilizadas técnicas de cirurgia plástica e microcirurgia reparadora vasculonervosa.

O cirurgião plástico Fábio Busnardo (CRM-SP 81566), responsável pelo Grupo de Cirurgia Plástica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e responsável pelo Serviço de Câncer de Pele da Divisão de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas, analisa o caso e as perspectivas para a medicina, além de indicar os diferenciais desse procedimento comparado com outros casos internacionais. Confira!

A indicação

Esta cirurgia foi o primeiro transplante de face total com sucesso realizado no mundo. Houve um caso anterior, registrado na França, no qual o paciente morreu no pós-operatório por complicações infecciosas e relacionadas ao uso de drogas para evitar a rejeição. O paciente Oscar apresentava sequela gravíssima de um trauma ocorrido há cinco anos, causado por acidente com arma de fogo. Apesar de ter passado por inúmeras cirurgias reparadoras, o resultado era incompatível com uma vida normal”.

Os resultados

“O transplante foi indicado como única opção para o reestabelecimento funcional e estético da face, para permitir ao paciente a realização dos movimentos de mastigação, deglutição, respiração pelo nariz e uso satisfatório das pálpebras. Entretanto, o retorno destas funções não é imediato, porque depende da reinervação dos músculos, que pode levar até um ano e meio para alcançar seu ponto máximo. A ausência de movimentos leva a este aspecto pouco natural que é observado nas fotos e filmes do paciente Oscar. Experiências com os transplantes parciais já realizados na Europa, EUA e China demonstram o retorno da motricidade dos músculos da face dentro desse período. Por isso, o restabelecimento desta função tornará o resultado funcional e estético muito aceitável a longo prazo”.

A cirurgia

Trata-se de um procedimento cirúrgico de altíssima complexidade, com a participação de equipes médicas multidisciplinares. O planejamento cirúrgico (determinação do segmento a ser transplantado) e a execução das cirurgias do doador e do receptor da face envolvem equipes de cirurgiões plásticos especializados em microcirurgia e em cirurgia craniofacial. O paciente transplantado exige cuidados de terapia intensiva em seu pós-operatório imediato. Além disso, clínicos especializados em transplantes de outros órgãos e infectologistas participam no controle do uso de medicamentos para evitar a rejeição. No longo prazo, o paciente deverá manter tratamento fisioterápico até o restabelecimento completo da motricidade da face e para treinamento das funções de deglutição, mastigação e do uso das pálpebras, que resultarão em movimentos mais naturais”.
Perfil

Fábio Busnardo (CRM-SP 81566), cirurgião plástico

Formado pela Faculdade de Medicina da USP é Responsável pelo Grupo de Cirurgia Plástica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), Responsável pelo Serviço de Câncer de Pele da Divisão de Cirurgia Plástica do Hospital das Clínicas e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SCP).