História da África: uma introdução

LOPES, Ana Mónica. ARNAUT, Luís. História da África: uma introdução. Belo Horizonte: Crisálida, 2005.

José Alexandre da Silva

Publicado originalmente na Revista Árica e Africanidades

Desde 2003 quando o Presidente Lula sancionou a Lei 10.639 têm surgido no mercado editorial brasileiro vários títulos dedicados à história afro-brasileira e africana. Um destes é “História da África: uma introdução”. Da autoria de Ana Mónica Lopes, africana nascida em Lubango doutora em História das Culturas, e Luís Arnaut, professor de história da África na UFMG. Este livro com dimensões modestas visa introduzir o leitor ao conhecimento acerca da história da África. Ainda assim, cumpre seu papel construindo um panorama do continente amparado em pesquisadores brasileiros e africanos e, seu principal mérito, traz as principais concepções historiográficas acerca do continente africano.

A conquista dos movimentos negros que representa esta lei, a nosso ver, passa por alguns dilemas. Embora, algumas unidades da federação organizadas com suas Secretarias de Educação oficialmente possuam um discurso no sentido de efetivar a lei, é uma outra história afirmar que esta seja de fato levada até seu objetivo final, a sala de aula. Quando se fala de história africana, logo nossas lembranças escolares nos remetem à história da escravidão com as imagens de negros em ambiente de trabalho ou sendo açoitados. Pensando na História da África o conteúdo escolar mais recorrente é o das navegações do século XVI quando portugueses e holandeses contornam o continente africano. Esta visão repousa na representação do dominador, civilizado e possuidor de um aparato tecnológico mais sofisticado, o europeu. Em contrapartida, temos a representação do africano submisso, colonizado e destituído de objetos que remetem a ideia de tecnologia. Assim, a visão mais difundida deste continente torna-se um obstáculo.

Estes elementos ao longo do tempo, nos materiais escolares e nas salas de aulas, se cristalizaram em nosso imaginário. Romper com a narrativa do negro vitimizado vindo de um lugar desconhecido pode ser um passo essencial para que os afro-descendentes se assumam como tal. Entretanto, também é importante lembrar que construir uma narrativa na qual os africanos e os afro-brasileiros figurem de forma digna não significa fomentar ódio racial ou um país cindido entre brancos e negros. Nosso país é composto por várias etnias e que cada uma tenha sua história não implica em animosidade entre estas.

Já na introdução da obra os autores justificam a necessidade de seu livro com a questão de como os professores vão ensinar a seus alunos algo que não aprenderam nos bancos da universidade, considerando que nos cursos de licenciatura o continente aparece como secundário e marginal à alguns processos históricos. No primeiro capítulo, são abordadas as várias construções acerca da idéia de África, em fontes como os textos de Heródoto, Plínio e a cartografia Medieval, desde o período da Antiguidade, passando pela Idade Média e Moderna. No geral, prevalece a noção de “território de monstros”, continente associado ao “Bestiário” e região de “clima inóspito”.

O segundo capítulo questiona este termo que, utilizado de forma genérica, como identidade estabelecida pelo europeu, para todos os habitantes do continente não permite uma matização de suas diferenças físicas, culturais e sociais tendo sido utilizado como sinônimo de atraso. Os autores pontuam que os habitantes da África devem ser pensados como civilizações e culturas que realizaram migrações, trocas culturais com outras civilizações e com padrões de sociabilidade que tornam inadequadas sua caracterização pela ótica ocidental. Há que se destacar a importância da reflexão empreendida pelos autores sobre os conceitos de raça, etnia e formação humana.

No capítulo três, Religiões, Lopes e Arnaut traçam um perfil do continente africano no que tange à esta questão. A introdução das religiões monoteístas, como cristianismo e islamismo, é analisada de forma atenta pelos autores os quais destacam que esta última religião se encontra na melhor posição para se tornar a religião do continente, devido ao ritmo de seu crescimento. No que se refere às religiões nativas consideramos importante citar: “(…) tentam responder às mesmas indagações que as demais religiões. Apresentam um deus superior que criou o universo e, em algumas, verificamos a presença de entidades menores (…) Outro elemento importante é a ligação com os ancestrais (…)”.

O quarto capítulo trabalha a questão de como as diferentes tradições intelectuais se posicionaram diante do continente africano. A concepção hegeliana de negação de história para a África prevaleceu favorecida pela noção, superada, de se considerar o que é histórico vinculado ao surgimento da escrita. No dias de hoje, acredita-se que a humanidade está vinculada ao princípio da ereção corporal que possibilitou pensar outros registros, iconográficos e artísticos, como fontes de pesquisa. Os autores também mencionam a importância de alguns centros de pesquisa, que mesmo estando vinculados ao colonialismo europeu, deram uma contribuição importante para aspectos da história e geografia africana, e a realização da História Geral da África na década de 1960.

O quinto capítulo versa sobre as organizações políticas. Neste, os autores trabalham com categorias de império e reinos e classifica a organização política dos povos africanos em três fases distintas até o período da colonização. Uma se estende até o século VI da era cristã, marcada pela constituição de grandes culturas na faixa mediterrânea e na extensão do Nilo. Uma segunda até o século XV que é marcada pela presença islâmica. A terceira fase vai até 1880 marcada pela presença européia no continente.

O capítulo seis é referente ao fenômeno que chamamos também de neocolonialismo. Até o final do século XIX o contato dos europeus com o continente africano estava mais restrito ao litoral. Com as independências das nações latino-americanas, os europeus voltaram sua atenção para continente que até então funcionava principalmente como repositório de escravos, o partilhando entre si. As explicações mais comuns para este fenômeno são realizadas a partir da perspectiva europeia, com a concentração de capital e formação de monopólios nestes países.

Este texto traz uma perspectiva diferente, amparada na teoria da dimensão africana. Segundo esta, uma expansão do capital privado desencadeou uma ocupação militar no continente africano frente a ação de resistência dos africanos à colonização . Os europeus de fato tiveram motivos de ordem econômica para esta expansão, mas os povos do continente africano também estavam passando por transformações antes da presença europeia e a resistência das populações africanas ao domínio comercial desencadeou o domínio militar. Esta resistência é categorizada pelos autores em: primária, primária retardada e intermediária.

O domínio colonial é tema do capítulo 7. Lopes e Arnaut explicam o êxito do domínio militar dos europeus com 5 razões: superioridade militar e logística, maior estabilidade, maiores recursos materiais e financeiros, maior conhecimento do continente e o avanço da medicina tropical. As primeiras e principais preocupações dos europeus foram no sentido coagir mão de obra para abastecer os portos com produtos nativos e expropriação da propriedade da terra em favor dos colonos.

A violência, o extermínio biológico e cultural é apenas uma das facetas da colonização européia na África. Lopes e Arnaut destacam outros elementos que necessitam ser considerados ao se analisar este processo histórico. A colonização européia trouxe transformações significativas para os africanos tais como: a urbanização, propagação da educação formal e formação de uma nova identidade. Este último elemento foi fundamental no processo de luta pela independência dos paises africanos. Esta última é tema do capítulo oito onde os autores problematizam a forma como esta temática é apontada nos livros didáticos. O termo independência é apresentado como forma de pensar o processo de fim de domínio de nações europeias sobre o continente africano. Em contraposição ao termo descolonização, designação utilizada por professores de História em sala de aula este elimina vestígios da luta africana nesse processo e fortalece uma visão etnocêntrica deste processo histórico.

A obra, ora resenhada, cumpre bem seu papel de introduzir ao conhecimento de história da África. Pode ser bastante útil tanto a professores do Ensino Fundamental e Médio, bem como a acadêmicos das ciências humanas e ao público em geral. Trata-se de um trabalho introdutório que oferece ao leitor um panorama historiográfico e não meramente informativo do tema abordado, África, o que pode ser destacado como ponto forte da obra. Outro elemento que merece atenção nesta obra diz respeito à forma como os autores abordam o impacto da colonização européia no continente vista não de forma maniqueísta, colonizador versus colonizado, mas como elementos que integram um processo histórico que cotidianamente desafiam os africanos na busca de novos rumos para este continente.