História do cinema: O início

O cinema, por fazer parte da indústria comercial, sempre se apoiou na novidade. Devido a este fato, o cinema atual pouco tem do seu começo, o cinema mudo e preto e branco. Seu passado foi sistematicamente descartado. Nos dias de hoje também é dificil encontrar semelhanças com o futuro imaginado pelos fundadores desta indústria. Tal esquecimento tem fonte tanto nas mudanças culturais e instituicionais, quanto na fragilidade do material. Podemos relacionar esta arte com o pensamento histórico de Walter Benjamin quando diz que este serve para “captar uma lembrança como ela fulgura num instante de perigo” (BENJAMIN, 1969 apud XAVIER, 1990).

O cinema sempre teve posições antagônicas, a de ser uma representação realista e, ao mesmo tempo, apresentar um sentido de irrealidade. Muitos também o relacionam ao esforço da Mágica Natural. Giambatista Porta, que teve sua “magiae naturalis sine de miraculis rerum naturalium” publicada em 1589, afirmava que o reino da mágica natural incluía, não só os poderes mágicos das imagens, pedras, plantas e influências celestiais, mas também experimentos químicos e óticos. Porta apresentava então um teatro ótico usando uma câmara escura para criar um entretenimento visual variado e móvel (THORNDIKE, 1941 apud XAVIER, 1996).

A primeira exibição pública de cinema aconteceu em 28 de dezembro de 1895, em Paris, e foi promovida pelos irmãos Lumiére. Foi neste dia que um homem de teatro que trabalhava com mágicas, Georges Méliès, foi falar com um dos irmãos querendo comprar um aparelho, ao passo que Lumiére o desencorajou dizendo que “o cinematógrafo não tinha o menor futuro como espetáculo, era um instrumento científico para reproduzir o movimento e só poderia servir para pesquisas” (BERNADET, 1980). O inventor afirmou que mesmo que o público se divertisse num primeiro momento, logo cansaria.

No início eram mostrados filmes curtos, em preto e branco, com a câmera parada e sem som, ainda assim esses filmes emocionavam a platéia, como um trem chegando à estação. Todos presentes já tinham visto e a maioria já tinha andado de trem, sabiam que aquela imagem não era verdadeira, principalmente por ser preta e branca e sem ruídos, porém a novidade estava em ver a ilusão como se fosse a verdade. Por exemplo, quando dormimos, enquanto sonhamos pensamos que é verdade, e só percebemos que era um sonho quando acordamos. Esta impressão da realidade confere veracidade às fantasias.

O mesmo Méliès, anos mais tarde, conseguiu comprar na Inglaterra a máquina que não conseguiu na França, foi quando filmando uma rua em Paris a máquina enguiçou, voltando a funcionar momentos depois. Na tela o que se viu foi uma rua cheia de gente, passa um ônibus que, à medida que se aproxima, se transforma em um carro fúnebre. Este foi o início da sobreposição de quadros que ajudaria a alcançar novas realidades.

Fotos e pinturas, apesar de serem representações da realidade, não possuem movimento. Foi este diferencial que fez o cinema ser uma nova e promissora arte. Durante o final do século XIX a burguesia acentua pesquisar a fim de dominar culturalmente, ideológicamente e estéticamente a sociedade. Esta então cria uma arte que se apoiava numa máquina (uma das musas da burguesia), tal arte juntava técnica e arte para reproduzir a realidade, e não tinha a intervenção direta do homem. Em um quadro existe a mão do pintor, porém no cinema é uma máquina que faz o papel de transcrição do cenário.

O nascimento de uma nova arte é difícil, apesar de diversas tentativas. Tomemos a imprensa como exemplo, apesar de ter exercido um grande efeito sobre a forma de escrita, não modificou a estrutura da prosa e da poesia.

O cinema surgiu de algum tempo de esforços, durante o século XVII o jesuíta Kirchner usava uma lanterna mágica com imagens fixas. No ano de 1832, Simon Ritter von Stampfer exibiu, em Viena, um objeto chamado estroboscópio. Um ano depois, o inglês William George Harnes construiu uma máquina que denominou dédalo.

Em 1861 foi a vez de Coleman Sellers patentear outro tipo de roda, esta chamada cinematoscópio. Todos os primeiros instrumentos era formados por um disco rotatório onde quadros separados mostravam uma sucessão de imagens e, ao girar o disco, temos a impressão que a imagem está em movimento. Os primeiros inventores montavam essas rodas utilizando desenhos, exceto o americano Sellers que utilizou fotografias no lugar (LAWSON, 1967). Esta técnica é encontrada até hoje, principalmente em livros infantis e nos chamados flipbooks, onde existem várias imagens que passamos rápido e temos a impressão de movimento.

Existem muitos relatos, tanto da lanterna mágica quanto do cinematógrafo de Lumiére, que demonstram reações negativas das experiências com estes objetos, como o relatado por Harriet Martineau em sua autobiografia onde diz que:

“Eu costumava vê-la [lanterna mágica] limpa durante o dia e mexer em todas as suas partes – entendendo toda sua estreutura; mas o meu terror diante do círculo na parede e dos slides em movimento era tal que, para falaar a verdade, a primeira aparição sempre me dava dor de barriga” (apud XAVIER).

E por Máximo Gorky, ao assistir a apresentação da novidade dos irmãos Lumiére no “Teatro-Concerto Parisiense”, em Moscou, afirmando que:
“Essa vida muda e cinza finalmente começa a perturbar você, deprimi-lo. É como se ela carregasse uma advertência, carregada de um vago mas sinistro significado que faz seu coração quase desfalecer. Você está esquecendo onde está. Estranhas visões invadem sua mente e sua consciência começa a diminuir e turvar-se” (apud XAVIER).

Com a invenção da fotografia, em 1839, surgiu a possibilidade da câmera realizar mais do que uma série de imagnes separadas. Em 1873, Pierre Janssen pesquisou uma “câmera-revólver” para registrar a passagem de Vênus pelo Sol. O inglês Muybridge montou, no final do século XIX, um complexo equipamento para analisar o galope de um cavalo, e o francês Marey criou um “fuzil fotográfico” capaz de tirar 12 fotos por segundo, o que ele utilizou para analisar o vôo de um pássaro.

Todos esses inventos surgiram em um momento em que os cientistas procuravam analisar movimentos rápidos que não podiam ser vistos a olho nu. Este mesmo Marey, no século XX, vai dispensar o cinema por não ver interesse em projetar na tela o que se vê melhor com nossos próprios olhos (BERNARDET, 1980).

Em 1887, Hanniball Willinston Goodwin patenteou a película de celulóide, e em 1889, o assistente de Thomas A. Edson, William Kennedy Dickson, realizou o processo de fazer passar uma película pelo interior de uma câmera. Sobre a invenção da câmera cinematográfica, esta é atribuída ao francês Marey e ao inglês William Freise-Greene simultaneamente. A possibilidade de multiplicação dos filmes possibilitou a implantação do cinema como arte dominante. O cinema era uma mercadoria barata e poderia ser utilizada como força de dominação ideológica e comercial.

Alguns inventores dos anos 1890 se desidacam ao problema da projeção. Em 1892, Émile Reynard exibiu uma série de “pantomimes lumineuses” no Musée Grivin de Paris. Já em 1893, Muybridhe expôs seu zooscópio na Feira Mundial de Chicago. Porém, neste período, Thomas A. Edson já havia exposto e patenteado seu cinetoscópio, pequena câmera inventada pelo seu assistente (LAWSON).

Quando o cinetoscópio começou a ser utilizado não era possível ajustá-lo para a tela grande e nem trabalhar com filmes longos. Woodville Latham resolveu este problema em 1985 ao inventar a Curva de Latham, que regulava o movimento da bobina conferindo-lhe a velocidade para que o olho humano pudesse captar a imagem. A partir deste momento se iniciou um grande progresso no campo da projeção e, a partir do momento que o valor econômico desta invenção foi provado, surgiram diversos esforços científicos dentro do campo cinematográfico.

No ano de 1986 estréia o filme “Coração de Czar Nicolau II” em Moscou, este é então considerado o pai da reportagem cinematográfica. A partir deste momento o cinema começa a contar histórias, passando a ser um herdeiro dos folhetins do século XIX. A linguagem cinematográfica foi se desenvolvendo então para dar aptidão ao cinema neste sentido, criando estruturas narrativas e relações com o espaço. D. W. Griffith então inova tal linguagem através da seleção e organização de imagens (BERNARDET).

Entre os anos de 1900 e 1905, existiu a escola de Brighton, onde um grupo estava preocupado com a narrativa cinematográfica. Foi nesta que se começou a utilizar a técnica de se aproximar do rosto, assim como os grandes planos dos fotógrafos e dos pintores. O rosto em plano grande passou a ser conhecida como grosse tête e é encontrado em filmes franceses da época. O cinema passou então a se distanciar das formas teatrais para passar a observar a realidade em torno de si. A partir de então, passou-se a utilizar histórias reais e argumentos tirados da “vida real”, principalmente tiradas de crônicas policiais. Tal técnica contribuiu para que os espectadores tivessem a sensação de estar participando de tal situação. (LAWSON)

Em seu famoso ensaio, Andre Bazin afirma que a invenção do cinema era a realização parcial do “mito do cinema total” que apareceu diversas vezes no século XIX, uma representação completa da realidade. Na década de 50, Bazin acreditava que tal desejo estava prestes a ser alcançado (XAVIER).

Durante as décadas de 1920 e 1930, quando o cinema começou a definir sua identidade estética, esta estava diretamente ligada ao teatro. Já na segunda metade do século XX, com a invenção da televisão, foi com esta que o cinema passou a se relacionar.

Xavier aponta que o cinema sempre esteve ligado ao jornalismo, divulgando novidade. Samuel Fuller era jornalista e diretor de cinema, chamando estes dois de “companheiros de cama”. Também destacou a semelhança de ambos, principalmente apontando os detalhes técnicos (tesoura, cola) e os mesmo gestos (copiar e colar), ou seja, fazer recortes da realidade para montar uma história completa. Tanto no cinema quanto no jornalismo também podemos notar a transparência de registro que assegura, ao jornal, sua objetividade e, para o cinema, a semelhança das imagens com a realidade. O jornalismo encontrou no cinema um companheiro também dedicado ao fiel registro da realidade.

Ainda de acordo com Xavier, o modelo narrativo amplamente utilizado no cinema se trata de personagens altamente individualizados e organizados em torno de uma ação. O crítico David Bordwell afirma que a característica dos filmes hollywoodanos são personagens psicologicamente definidas em luta para resolverem um problema ou atingirem um objetivo. A narrativa destaca a causalidade da personagem e a definição da ação, ao mesmo tempo que demonstra o restabelecimento de um estado inicial que foi violado.

Tal estrutura é também encontrada no jornalismo. Ainda que no “mundo real” os acontecimentos não sigam uma ordem previamente estabelecida, ao se estruturar a notícia utiliza-se esta ordem, que se inicia com a violação de um estado natural e a iminência de uma relação casual, culminando num restabelecimento. A notícia também expõe os fatos numa ordem decrescente de importância.

Até a época da Primeira Guerra Mundial, o cinema mais popular e poderoso do mundo estava ligado à Itália e França, porém, como após tal fato a economia européia estava arrasada, isto refletiu no cinema que começou a se destacar em Hollywood, atualmente o maior centro cinematográfico. As locações na costa oeste americana ajudavam também com o bom clima, muitos dias ensolarados e diferentes paisagens que poderiam ser utilizadas.

Foi nesta época que os mais importantes estúdios de cinema foram fundados (Fox, Universaç e Paramount). Tais estúdios eram controlados por judeus (Samuel Bonston, Samuel Goldwyn) que viam o cinema como um negócio. Durante esta competição muitas empresas se fundiram, nasceu então empresas como a 20th Century Fox (antiga Fox) e a Metro Gowldwyn Meyer (antigos estúdios de Samuel Goldwyn com Louis Meyer, e atual estúdio da Disney). Tais estúdios, ao encontrarem diretores e atores de sucesso fizeram nascer o sistema de promoção de estrelas.

Nas demais partes do mundo, após esta primeira guerra, surgiu o cinema vanguardista francês, também conhecido como avant guard, e o cinema expressionista alemão. Na Espanha surgiu o cinema surrealista, que tem como destaque Buñuel. E a foi partir deste momento começou a queda do cinema mudo.

Com a utilização do som o cinema passou a se diversificar mais, principalmente em musicais e comédias. Também foi neste momento que se iniciou uma grande produção de filmes históricos e bíblicos, que muitas vezes andavam juntos, destacando-se os filmes “Rei dos Reis” (1932) e Cleópatra (1934). Filmes de gângsters também eram muito populares nesta época, destacando-se o diretor Bogart. O cinema de ficção científica, que já era popular durante o cinema mudo, ganhou força extra com produções como “Drácula” e “Frankstein”, ambos de 1931.

Em 1945, com o “Neo-Realismo” italiano (fim do facismo, monarquia e guerra), desenvolve-se um cinema que vinha sendo preparado clandestinamente. Filmes voltados para a situação social, rural e urbana ma Itália. Os cineastas voltam-se então para o dia-a-dia de proletários, camponeses e a pequena classe média. Os estúdios são substituídos pela rua e ambientes naturais. Os atores nestas produções são pouco conhecidos ou não profissionais. Utiliza-se uma linguagem simplificada. As produções são executadas com um mínimo de recurso, devido à situação do país pós-guerra. À medida que as idéias do Neo-Realismo vão sendo divulgadas, eles passam a influenciar as demais cinematografias.

Atualmente o cinema está tão intrínseco ao nosso cotidiano que é estranho tratá-lo como arte e comparar com Beethoven ou Picasso o nosso divertimento de sábado a noite. Não devemos, contudo perder nosso entretenimento aplicando nele juízos estéticos. Porém, nem sempre o cinema teve o entretenimento como objetivo. Nos seus primeiros anos de vida preocupava-se em ser uma ajuda a pesquisas científicas, passando então a procura de uma apresentação da realidade e, somente no começo do século XX passa a mostrar sua face entretenedora.




Bibliografia:


BERNARDET, Jean-Claude. O que é Cinema. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.

LAWSON, John Howard. O Processo de criação no cinema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

XAVIER, Ismail (org). O cinema no século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HUSS, Roy; SILVERSTEIN, Norman. La experiencia cinematográfica. Buenos Aires: Ediciones Marymar, 1973.