Língua estrangeira e a realidade do ensíno de língua nas escolas brasileiras

LÍNGUA ESTRANGEIRA E A REALIDADE DO ENSINO LÍNGUA NAS ESCOLAS BRASILEIRAS

Autor: Otacílio do Carmo Dantas

Por trás dos PCN, existe a Constituição Federal de 1988, que impõe que a Educação é um direito de todos, visando “o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. A Constituição também diz que Educação é dever comum da União, Estados e Municípios. Além disso, a Lei de Diretrizes e Bases criou, para o ensino fundamental e médio, um núcleo comum obrigatório no âmbito nacional, que inclui o estudo de língua portuguesa, matemática, do mundo físico, da realidade política e social, da arte e educação física. Dentro desta proposta nacional comum, cada estado, município ou escola pode propor seu próprio currículo, contemplando “as peculiaridades locais e a especificidade dos planos dos estabelecimentos de ensino e as diferenças individuais dos alunos”. Na concepção vygotskiana, o desenvolvimento do ser humano ocorre por meio de uma interação de “fora para dentro” Piaget veria de uma forma inversa de dentro para fora, e suas dimensões culturais e interpessoais, do qual faz parte desde o seu nascimento a firma: (Vygotsky, 2008, pg. 256-257)

 

“Nesse processo, o indivíduo ao mesmo tempo em que internaliza as formas culturais, as  transforma e intervém em seu meio. É, portanto, na relação dialética com o mundo que o sujeito se constitui e se liberta”.  Partindo dessa premissa e transportando-a para a educação, Lopes Moita (2003) afirma que: Se a educação quer fazer pensar ou talvez pensar para transformar o mundo de modo a se poder agir politicamente, é crucial que todo professor ­ e, na verdade todo cidadão ­ entenda o mundo em que vive e, portanto, os processos sociais, políticos, econômicos, tecnológicos e culturais que estamos vivenciando’’.

 

Não se pode transformar o que não se entende. “Sem a compreensão do que se vive, não há vida política”. Assim, embasada na abordagem sócio-interacionista de Vygotsky, o ensino-aprendizagem de língua inglesa nas escolas privadas e públicas deve colaborar com esse princípio. É imperativo que se estabeleça uma pedagogia mais realista, com objetivos claros e possíveis de serem atingidos que, na opinião de Celani Magalhães (1997), devem estar atrelados à função social da língua estrangeira em relação aos alunos em questão, ou seja, ao papel dessa língua estrangeira na construção da cidadania e como parte integrante da formação global do indivíduo.

A educação contemporânea deve estar voltada para a formação de cidadãos capazes de participar na construção de uma sociedade melhor, conscientes de seus direitos e deveres e preparados para acompanhar as transformações do mercado de trabalho e do mundo. Com essa concepção de ensino, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Estrangeira fornecem um arcabouço teórico que sugere caminhos para que seja concretizada tal prática, uma vez que nas salas de aula de Língua Estrangeira imperam tensões e incertezas quanto a melhor forma de os professores desenvolverem seu trabalho. A importância dos Parâmetros Curriculares Nacionais para a educação básica no Brasil surgiu como uma provável resposta aos anseios do governo e da sociedade para uma educação de melhor qualidade em nosso país. A palavra “parâmetro” já sinaliza que as sugestões ali contidas levam em consideração variáveis diversas, muitas vezes difíceis de serem transpostas. O documento vislumbra melhorias nas formas de ensinar de várias matérias da grade curricular obrigatória, ao mesmo tempo em que pretende dar subsídios suficientes a professores, educadores, e a todos aqueles envolvidos nas áreas de educação para que possam promover uma revisão ampla em todo o processo de ensino-aprendizagem, buscando a satisfação de quem ensina e de quem aprende através de uma melhor integração com o mundo pelo estudo.

 

A partir da elaboração dos PCN-LE e sugestões para o estudo de línguas estrangeiras modernas nas escolas, o governo federal tenta preencher, de certa forma, o desejo da sociedade em dar uma educação melhor aos seus filhos e a ela mesma, pois até então somente os cursos livres de línguas se ocupavam da tarefa de ensinar de modo mais competente aqueles que suas dependências buscavam: A sociedade brasileira reconhece um valor educacional formativo na experiência de aprender outras línguas na escola. Reconhece esse bem cultural ao garantir de alguma forma a presença da disciplina Língua Estrangeira no currículo e mesmo quando duvida da eficácia do ensino escolar e leva seus filhos e a si mesma para aprender línguas em escolas e institutos particulares de idiomas. “O poder dos governantes e administradores, por outro lado, tem expressado mal nos meandros de suas decisões e atos, o valor de uma bem sucedida vivência educacional em outras línguas”. Apesar das aulas tradicionais de inglês nas escolas regulares parecerem não ter o mesmo apelo motivacional (depende muito do professor) que aquelas ministradas em cursos livres de língua inglesa (também depende do curso), acredita-se serem ainda mais eficazes quando a meta é o Vestibular e seus textos longos e cheios de conclusões e parâmetros.

 

“Muitas vezes e de maneira injustificada, como disciplina pouco relevante, elas adquirem, agora, a configuração de disciplina tão importante como qualquer outra do currículo, do ponto de vista da formação do indivíduo. Assim, integradas à área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, as Línguas Estrangeiras assumem a condição de ser parte indissolúvel do conjunto de conhecimentos essenciais que permitem ao estudante aproximar-se de várias culturas e, conseqüentemente, propiciam sua integração de um mundo globalizado”.

 

 

“O ensino é um conjunto de conhecimentos essenciais que permitem ao estudante aproximar-se de várias culturas e, conseqüentemente, propiciam sua integração num mundo globalizado”. Ensino aprendizagem de línguas estrangeiras nunca foi tratado com muito respeito em nosso país, pelo menos no papel. Os PCN e a LE surgem numa época em que o mundo se comunica com a velocidade da internet e do telefone celular, e onde o acesso aos mais diversos meios de comunicação se democratiza e faz com que pessoas das mais diversas regiões de nosso país, e das mais variadas camadas sociais, procurem se inteirar do que acontece ao redor. Conhecer o mundo à nossa volta nunca foi tão importante, e o Governo Federal atento a tais necessidades propõe um ensino de LE mais voltado à comunicação e contextualização de conteúdos, reconhecendo que as aulas até então ministradas nas escolas, tanto públicas quanto particulares, deixavam muito a desejar, pois eram monótonas, não capacitavam os alunos a falar, ler e escrever em novos idiomas, e tinham um caráter muito mais repetitivo do que comunicativo. Evidentemente, não se chegou a essa situação por acaso. Além da carência de docentes com formação adequada e o fato de que, salvo exceções, a língua estrangeira predominante no currículo ser o inglês, reduziu muito o interesse pela aprendizagem de outras línguas estrangeiras e a conseqüente formação de professores de outros idiomas. Portanto, mesmo quando a escola manifestava o desejo de incluir a oferta de outra língua estrangeira, esbarrava na grande dificuldade de não contar com profissionais qualificados. “Agravando esse quadro, o país vivenciou a escassez de materiais didáticos que, de fato, incentivassem o ensino e a aprendizagem de Línguas Estrangeiras; quando os havia, o custo os tornava inacessíveis à grande parte dos estudantes”.

Um ponto consideravelmente positivo do processo de ensino-aprendizagem em LE é que a liberdade em escolher materiais didáticos mais adequados, favoreceram, e muito, o trabalho dos profissionais envolvidos com questões que, até então, eram realidades somente em cursos livres de LE, onde podiam arbitrar sobre o conteúdo e forma de suas aulas. Entretanto, tais materiais ainda continuam inacessíveis, como reconhece o PCN-LE, mesmo às camadas com poder aquisitivo melhor, pois muitas das vezes são materiais importados, dependendo de oscilações de moedas estrangeiras e da ganância de algumas editoras que os trazem para vender em nosso país. O Governo Federal é muito otimista quando trata da função que as Línguas Estrangeiras Modernas (LEM) assumem dentro da área de Linguagens: A interação e socialização no mundo moderno e um melhor entendimento deste mundo através do domínio de uma língua estrangeira são idéias que se resumem em pretensão e desejo explicitados nos PCN: A aprendizagem da Língua Estrangeira Moderna qualifica a compreensão das possibilidades de visão de mundo e de diferentes culturas, além de permitir o acesso à informação e à comunicação internacional, necessárias para o desenvolvimento pleno do aluno na sociedade atual”. Antunes (2003), afirma não ser fácil responder à questão de quando trabalhar as relações interpessoais num contexto didático-pedagógico: “As relações que envolvem alunos, professores e pais e ainda muitos outros “atores” do universo escolar são marcadas pelo imprevisível e, como assim são, nem sempre é possível antecipar o uso de uma ação ou estratégia que atue como sensibilizadora das relações interpessoais”. Para que isto ocorra, é preciso levar em conta fatores motivacionais, emocionais e outros diversos que estão envolvidos neste tema. Motivacionais porque o professor precisa mostrar a seus alunos que as atividades em que possa ocorrer colaboração e ajuda são benéficas ao aprendizado. Emocionais porque devemos levar em conta fatores como a timidez, baixa auto-estima ou pouca confiança, a relação entre colegas e o próprio professor, além de outros como a idade do aprendiz, o ambiente pedagógico, a disponibilidade e vontade em ajudar os colegas, a afetividade, fatores sócio-culturais,. Tais temas são mencionados por Brown (2000 e 2001); Krashen (1985, 1988 e 1995); e Vygotsky (2002). Elogios devem ser tecidos às sugestões presentes nos PCN no que diz respeito à busca por interação social entre os alunos, buscando metas que só irão beneficiar o aprendizado através da interação. Para balizar tal assertiva, cita-se o trecho do documento que explicita o sentido de aprendizagem na área de LE no ensino fundamental: “Assim, é fundamental que desde o início o professor desenvolva, com os alunos, um trabalho que lhes possibilite confiar na própria capacidade de aprender, em torno de temas de interesse e interagir de forma cooperativa com os colegas. As atividades em grupo podem contribuir significativamente no desenvolvimento desse trabalho, à medida que, com a mediação do professor, os alunos apreenderão a compreender e respeitar atitudes, opiniões, conhecimentos e ritmos diferenciados de aprendizagem”. “Em última análise, o processo é caracterizado pela interação entre os significados ou conhecimento de mundo do parceiro mais competente (em sala de aula, o professor ou um colega) e os do aluno. Muitas dificuldades na aprendizagem são geradas, exatamente, por essas diferenças, que vão determinar expectativas e condições dos alunos.

Na concepção vygotskiana, o desenvolvimento humano ocorre por meio de uma interação dialética entre o indivíduo e o meio, mundo físico e social, e sua dimensão cultural e interpessoal, do qual faz parte desde o seu nascimento. “Nesse processo, o indivíduo ao mesmo tempo que internaliza as formas culturais, as transforma e intervém em seu meio.“ É, portanto na relação dialética com o mundo que o sujeito se constitui e se liberta”. Partindo dessa premissa e transportando-a para a educação, (Moita Lopes 2003) afirma que: “Se a educação quer fazer pensar ou talvez pensar para transformar o mundo de modo a se poder agir politicamente, é crucial que todo professor ­ e, na verdade todo cidadão ­ entenda o mundo em que vive e, portanto, os processos sociais, políticos, econômicos, tecnológicos e culturais que estamos vivenciando. Não se pode transformar o que não se entende. ’’Sem a compreensão do que se vive, não há vida política”. Assim, embasada na abordagem sócio-interacionista de Vygotsky, o ensino-aprendizagem de língua inglesa nas escolas privadas e públicas deve colaborar com esse princípio. É imperativo que se estabeleça uma pedagogia mais realista, com objetivos claros e possíveis de serem atingidos que, na opinião de (Celani Magalhães 2003), devem estar atrelados à função social da língua estrangeira em relação aos alunos em questão, ou seja, ao papel dessa língua estrangeira na construção da cidadania e como parte integrante da formação global do indivíduo. A educação contemporânea deve estar voltada para a formação de cidadãos capazes de participar na construção de uma sociedade melhor, conscientes de seus direitos e deveres e preparados para acompanhar as transformações do mercado de trabalho e do mundo. Consoante a essa concepção de ensino, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Estrangeira fornecem um arcabouço teórico que sugere caminhos para que seja concretizada tal prática, uma vez que nas salas de aula de Língua Estrangeira imperam tensões e incertezas quanto a melhor forma de os professores desenvolverem seu trabalho.

 

 

 

 

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental. Língua estrangeira. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília, 1998.

MOITA LOPES, Luis Paulo. A nova ordem mundial, os Parâmetros Curriculares Nacionais e o ensino de inglês no Brasil. (2003).