LÍNGUA, FILOLOGIA E O (IN)CONSCIENTE LINGÜÍSTICO*


* comunicação apresentada por ocasião do II Seminário de Estudos Filológicos, e Feira de Santana Bahia

Jaqueline Carvalho Martins de Oliveira (UFBA/Mosteiro de São Bento da Bahia)

Orientador: Profa. Dra. Alícia Duhá Lose

(Faculdade São Bento da Bahia/Mosteiro de São Bento da Bahia/PPGLL/UFBA)


[…] nenhuma pesquisa filológica pode prescindir do conhecimento lingüístico, – uma vez que o estudo das línguas e dos dialetos faça parte da lingüística e a filologia, no sentido próprio da palavra, incida sobre na análise dos textos literários, – nenhuma pesquisa filológica é possível sem sólidas bases lingüísticas; por outra parte, os limites entre lingüística e filologia não são sempre bem nítidos.

(BLANCHE-BENEVISTE, 1998)


Ao conceber a Filologia como o ramo de estudo da linguagem e das obras de arte que são constituídas através dessa linguagem, pode-se contemplar duas vertentes de análise da línguagem com metodologias e objetivos distintos: a Lingüística e a Filologia propriamente dita. A proximidade entre ambas é, e faz-se necessário ser, uma constante, ou os objetivos propostos, por uma ou por outra, poderão não ter os resultados esperados. Tal como é uma receita: não se fazem pratos elaborados com um só ingrediente, mas a junção, o conjunto é que se espera, mesmo que haja um ingrediente principal. Assim se dá com o estudo da linguagem, e de outro modo não poderia se fazer, sendo o ser humano tão complexo, influenciado e influenciador, ao mesmo tempo, autônomo.

O Estruturalismo e a Sociolingüística, trazendo cada um suas contribuições, pareceram muito úteis para o estreitamento desses laços. Pretender-se-á, no presente trabalho, primum, pontuar a relevância, para o labor filológico, de disciplinas outras, que se ocupam do intra e do extralingüístico; e, secundo, chamar a atenção para a associação e dissociação de segmentos mórficos encontrados no modus scribendi do escrivão (denominado scriptor 2) do Livro II do Tombo – um dos volumes da coleção que se encontra no Arquivo do Mosteiro de São Bento da Bahia, cuja edição encontra-se em andamento – considerados a princípio, causuais, fatalísticos.

Neste volume, os termos de abertura e de encerramento datam de 1803, e o último lançamento contém uma informação relativa a 6 de fevereiro de 1724. Apesar de o termo de abertura datar de 1803, os registros são todos relativos ao início do século XVI, e constituem-se de traslados de testamentos, doações, registros, petições, reconhecimentos, autos de posse, cartas de Sesmarias, etc.

Desde a sua origem até fins do século XIX a Filologia caracterizou-se pelo interesse em relação aos textos, em geral literários, em sua diacronia: copiar as obras e tecer comentários sobre a língua e sobre os autores, e autores possíveis, já que essa noção não parece apropriada para documentos anteriores à difusão da imprensa. Junto com século XX, inovações diversas são difundidas, inclusive dentro da Filologia [até então, a mãe parturiente das ciências que vieram a se ocupar do estudo da lingua(gem) Ferdinand Saussure, propôs o rompimento com o historicismo, voltanto sua análise para o estado de língua, para a sincronia. Surge então a Lingüística, vestida com a necessidade de achar para ela um objeto; para Saussure “[…] uma das primeiras tarefas da lingüística consiste em delimitar-se e definir-se a si própria” (apud GARMADI, 1983); o conceito de língua como um sistema que só conhece a sua própria ordem trouxe autonomia e definição para o objeto de estudo necessários para que a lingüítica passasse a ser considerada uma ciência. Mas parece que o mestre de Genebra se aproximava de seus antecessores em pontos cruciais, tais como a crença numa perfeita homogeneidade de cada língua; em Saussure, a língua é um sistema unitário, invariável e independe de determinação social, mesmo sendo considerada um fato social, é exterior ao indivíduo, e este a aceita passivamente. Tais formulações remetem, como lembra Serafim da Silva Neto (1963), ao que ele chama de “raso materialismo” de alguns teóricos do século XIX, portanto anteriores ao pai da Lingüística, tais como Schleicher: “[…] as línguas são organismos naturais, independentes da vontade do homem, que nascem, crescem, evoluem e depois envelhecem e morrem de acordo com leis determinadas” (grifos do autor). Para Silva Neto, a língua “[…] é um produto social, é uma atividade do espírito humano. Não é, assim, independentes da vontade do homem, porque o homem não é uma folha seca ao sabor dos ventos veementes de uma fatalidade desconhecida e cega […]” e “Não está obrigada a prosseguir na sua trajetória, de acordo com leis determinadas, porque as línguas seguem o destino dos que a falam… […]” (grifos do autor).

A Sociolingüística, por exemplo, entende a língua de forma distinta da estruturalista: um sistema heterogêneo e plural, pois serve a uma comunidade heterogênea e plural, e desempenha suas funções justamente por conta dessa heterogeneidade. Ou seja, a Sociolingüística “[…] estuda os padrões de comportamento lingüístico de uma comunidade de fala e os formaliza analiticamente através de um sistema heterogêneo, constituído por unidades e regras variáveis […]” (LUCCHESI, 2004). Por isso, Dante Lucchesi, na mesma obra, sintetizou dizendo que “[…] os aspectos funcional e social da linguagem se interpenetram e que não se pode entender um sem o outro.”

Julia Garmadi (1983), em seu livro Introdução à Sócio-lingüística, faz a seguinte consideração:

O linguista, que conhece não só os meios propriamente lingüísticos que actuam no sistema mas também as forças que constituem a dinâmica interna desse mesmo sistema, estará sem dúvida entre os mais bem colocados para estabelecer ou avaliar a relação que um ou vários factos sociais possam manter com os usos e o sistema lingüísticos.

Faz-se imprescindível que o estudioso da língua, e de seus produtos, amplie sua visão, abra os horizontes para, assim garantir um trabalho o mais desprovido de pré-conceitos e de equívocos cujos reflexos aparecerão em trabalhos futuros que dele se valerão. Veja-se um exemplo: o que é considerado um lapso de escrita, restringindo-se agora ao labor filológico, um lapsus calamus, está diretamente relacionado a lapsos que podem ocorrer dentro do sistema de fala, os lapsus linguae. Em 1999, Ortega afirmou: “[…] ambos (lapsus calamus e lapsus linguae) están interrelacionados. El léxico mental se rige por una leyes comunes a ambos, pues los dos son manifestación de los procesos de adquisición y comprensión del lenguaje.” No entanto, pareceu que os níveis de estudo da língua mais beneficiados com tal inter-relação foram o semântico, o sintático e o fonético; no que tange ao nível morfológico, pouco se pôde encontrar.

Em sua tese de doutoramento, Coelho (2004), depois de situar o leitor com relação ao momento histórico que servia de palco para o português arcaico, afirmou: “[…] importa chamar a atenção para a inerente incorporação do passado no presente que todo o sistema lexical atesta, e que nenhuma análise sincrônica pode subestimar”. E ainda mais: “Os modelos de análise exclusivamente sincrônica […] não revelam adequação operatória suficiente para analisar convenientemente estes tipos de unidades morfolexicais [refere-se Coelho a vocábulos cujo processo de formação só é compreendido à luz da diacronia].”

Sendo o objetivo da Morfologia arrolar todas as unidades mínimas significativas existentes numa língua e indicar as normas que regem a composição destas unidades mínimas para formar palavras, faz-se necessária a ponderação da origem e da história das palavras que permitirão estabelecer os processos que foram envolvidos na formação vocabular. “Não só as palavras produzidas numa dada sincronia, palavras que tenham sido construídas em períodos recuados da história da língua, e que não são atualmente encaráveis como derivadas, porque deixaram de ser encaradas como tal, devem ter sua origem desvendada […]” (COELHO, 2004). Foi justamente esta ponte que se utilizou para análise da (in)consciente dissociação ocorrida entre afixos (gramemas) e raízes (lexemas) de vocábulos no Livro II do Tombo: a língua sem o falante inexiste e também no nível morfológico pode-se pensar num conhecimento de entidades significativas “protagonistas e coadjuvantes”; e esse conhecimento parece se manifestar (de forma cônscia ou não) no sistema de escrita do escrivão registrado no documento.

A língua que serve de base para o texto deve ser cuidadosamente preservada e observada pelo filólogo – ­restringindo ainda mais, pelo editor, que, de acordo com Blanche-Beneviste, “[…] debe tener en cuenta las eventuales faltas de los copistas, debe intentar identificarlas y explicarlas para restablecer el texto, de forma que resulte interesante para las interpretaciones futuras.” (BLANCHE-BENEVISTE, 1998). O trabalho se dirá finalizado quando o texto estiver restabelecido, i.e., acessível para outrem e com o maior grau de fidedignidade possível. Para tanto, crítérios que contemplem as peculiaridades do sistema de escrita são estabelecidos e já a partir desse momento se requer conhecimentos outros que garantirão maior respaldo para que venham as próximas etapas (geralmente transcrição, constituição de aparato crítico e análise de abreviaturas), como corroborra Manoel Sánches Mariana (1995):

La edición diplomática revestirá siempre un carácter más riguroso e imparcial, puesto que trata de reproducir exactamente lo que aparece en el manuscrito, sin que la opinión del filólogo cuente como en el caso de la edición crítica; el editor pondrá en juego toda su pericia paleográfica y su conocimiento de la historia del manuscrito, pero no añadirá nada nuevo al texto que no esté en el manuscrito que se edita.

Foi a partir da problemática do estabelecer um conjunto de critérios que uniformizasse, mas não apagasse, as características dos modi scribendi, que se deu o início para a presente reflexão. Há, sem dúvida, grande necessidade de que os grupos de estudos filológicos uniformizem seus critérios, mas este é um exemplo de que não é essa uma tarefa das mais fáceis, por ser cada texto constuído de língua e esta, como já se viu, ser heterogênea. Assim, seguindo-se o usual para a transcrição do Livro II do Tombo, teve-se como um dos critérios de transcrição a separação de palavras e união de seus fragmentos de modo que se possa garantir maior inteligibilidade ao texto editado. Após contato com o documento e identificação com uma possível lógica de escrita do scriptor 2, ao verificar que são tênues os limites vocabulares – a distinção entre “ligaduras ilusórias” e “ligaduras reais” não é tão fácil, eis uma característica marcante da letra semi-caligráfica – e que poderia haver algo de sistemático na dissociação vocabular, optou-se pela adaptação do quadro de critérios à essa possibilidade. A vantagem que se tem, adequando os critérios de transcrição ao texto, é o de permitir que estudiosos dos mais variados ramos tenham acesso a tais particularidades.

Pôde-se verificar, auxiliado pelos dados obtidos ao longo da transcrição do Livro II do Tombo, etapa ainda não finda, a provável consciência, por parte do scriptor, em relação aos processos de formação de palavras – sobretudo, o de prefixação e o de composição – i. e., a possibilidade de, quando há separação de morfemas, não ser aleatória, mesmo que não estivessem os scriptores cônscios da história da língua. Mostrar-se-ão alguns “comentários interpretativos” que poderiam remeter ao valor significativo dos elementos em língua latina de que se constituem algumas expressões:

prefixo ex apartado de ecuçaõ, sinalizando, talvez, a formação desta palavra por composição ainda no latim: a preposição ex (de dentro para fora) + o verbo depoente secutus sum (dirigir-se para, ou ainda, obedecer)

Ilustração 1: dois segmentos formam o termo “execuçaõ” (l. 9 do f. 77v).

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· união entre a conjunção e e o prefixo ex apartados de preça, remetendo, possivelmente, à formação da palavra por prefixação, ainda no latim: verbo expressare (expor, pronunciar), do prefixo ex (de dentro para fora) + verbo pressare (apertar);

Ilustração 2: dois segmentos formariam o vocábulo fonológico “eexpreça” (l. 10 do f. 77v).

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advérbio latino satis apartado de fizeraõ, podendo sinalizar a formação desta palavra por composição ainda no latim: verbo satisfacere (dar satisfação, dar reparo a um agravo), de satis (suficientemente, bastante) + verbo facere (fazer, produzir);

Ilustração 3: dois segmentos formam termo “satisfizeraõ” (l. 32 do f. 78r).

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prefixo com apartado de cluzos, sinalizando a formação desta palavra por prefixação ainda no latim: verbo concludere (fechar, encerrar) formado pela preposição com> cum (juntamente com, em companhia de) + o verbo cludere (trancar, cerrar);

Ilustração 4: dois segmentos formam o termo com cluzos (l. 39 do f. 78r).

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união entre a conjunção e e o prefixo com apartado de mi e de go, vestígios da formação desta palavra por 1) composição ainda no latim (clítico me + preposição com> go) e 2) outra composição na passagem para as línguas românicas (cum + mego < mecum);

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Ilustração 5: dois segmentos formam o termo “com cluzos” (l. 28 do f. 88r).

Sabe-se que a instituição de normas ortográficas são posteriores à data do documento. Sabe-se que as questões levantadas são apenas suposições. No entanto, a partir da leitura do manuscrito concebeu-se a possibilidade de um conhecimento intuitivo do falante ao qual ele recorre, mesmo que não viesse a ter acesso a compêndios gramaticais. Poder-se-ia, portanto, supor tratar-se de uma “bagagem”, também no nível morfológico, que o indivíduo possui da história de sua língua que é parte da sua própria história. Destarte, considerar tais situações de escrita casualidade, fatalismo gráfico não parecem dar conta dessa peculiaridade; de certo, há no recorte sincrônico características de estágios anteriores da língua, já que a sincronia tem por base a diacronia, que a influencia, conscientemente ou não, e faz-se verificável nas manifestações lingüísticas.

REFERÊNCIAS

BLANCHE-BENVENISTE, Claire. Estudios linguisticos sobre la relación entre oralidad y escritura. Barcelona: Gedisa, 1998.

COELHO, Juliana Soledade Barbosa. Semântica Morfolexical: contribuições para a descrição do paradigma sufixal do português arcaico. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2004.

GARMADI, Juliette. Introdução à Sócio-lingüística. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1983.

GRENIER, Albert. Étude sur la formation et l’emploi des composés nominaux dans le latim archaïque. Nancy: Imprimerie Berger-Levrault, 1912.

HECKLER, Evaldo; BACK, Sebald; MASSING, Egon A. O processo morfológico. In: ______. Estrutura das palavras: famílias, morfologia, análise e origem. São Leopoldo: Unisinos, 1994.

LUCCHESI, Dante. Norma lingüística e realidade social. In: BAGNO, Marcos (Org.). Lingüística da norma. São Paulo: Loyola, 2004.

LUCCHESI, Dante. Sistema, mudança e linguagem: um percurso na história da lingüística moderna. São Paulo: Parábola., 2004.

MADVIG, J. N. Da formação das palavras. In: ______. Grammatica latina para uso da escholas. Tradução Augusto Epiphanio da Silva Dias. Porto: Typographia de Manoel José Pereira, 1872.

MARIANA, Manuel Sánches. Edición Diplomática y Edición Crítica. In: ______. Introdución al libro manuscrito. [S.l.]: Arcos; Libros, 1995.