Linguagem e Ação

MARCILENE BATISTA COSTA

MARIA JOSÉ LINDOLFO DA SILVA

MARIA DAS GRAÇAS DE O. FRANCO DA SILVA

LINGUAGEM E AÇÃO

João Pessoa

05/02/2011

MARCILENE BATISTA COSTA

MARIA JOSÉ LINDOLFO DA SILVA

MARIA DAS GRAÇAS DE O. FRANCO DA SILVA

LINGUAGEM E AÇÃO

Trabalho apresentado a UVA – Universidade Vale do Acaraú como instrumento de avaliação da disciplina Lingüística Textual do Curso de Especialização em Metodologia da Língua Portuguesa.

Orientadora: Profª .Ms. Talita Chystina Nóbrega

João Pessoa

05/02/2011

SUMÁRIO

  1. Introdução…………………………………………………………………………….   4
  2. Teoria da Anunciação……………………………………………………………   9
  3. Teoria dos Atos da Fala………………………………………………………… 13
  4. Teoria da Atividade Verbal……………………………………………………..12
  5. Os Postulados Convencionais de Grice………………………………….14
  6. Conclusão……………………………………………………………………………..15
  7. Referências Biográficas………………………………………………………….16

João Pessoa

05/02/2011

1 – INTRODUÇÃO

A visão da linguagem com ação intersubjetiva deriva de dois grandes pólos: Teoria da Enunciação; Teoria dos atos da fala. Lingüistas dos países europeus, por exemplo, (França, Alemanha, Inglaterra) passaram a voltar sua atenção para a linguagem enquanto atividade, para as relações entre a língua e seus usuários e, contudo, para a ação que se realiza na e pela linguagem. Daí então, o surgimento da lingüística do discurso, isto é, o discurso constitui-se por um conjunto de frases logicamente ordenadas, de forma a comunicar um sentido. Nesta acepção, a frase é considerada, hoje, uma unidade do discurso e é passível de ser analisada na forma como se harmoniza com outras frases para constituir um discurso. Essas manifestações podem, sem dúvida, consistir de uma só palavra, de uma seqüência de duas ou mais palavras ou de uma frase mais ou menos longa. O que se visa, então, é descrever e explicar a inter-ação humana por meio da linguagem, a capacidade que tem o ser humano de interagir socialmente por meio de uma língua.

A partir do século XX passamos a entender que a linguagem é ação e tem o poder de transformação e que gera realidades. A mais nova concepção da linguagem,  hoje,  é vista como forma de ação inter-individual, possibilitando aos membros de uma sociedade a prática dos mais diferentes tipos de atos, tendo por objetivo a “comunicação.”.

É disso que tratará o presente trabalho.

A especialista da Unicamp, aos 73 anos, é uma das maiores especialistas em lingüística textual. Escreveu 14 livros e até gramática. Alvinha, franzina, determinada, circula o país para ensinar professores. É militante do idioma. Acha que deve dar sua parte para reverter cenários como o da Prova Brasil, do Inep, que em 2006 mostrou que os alunos da 8ª série não entendem a intenção de um autor de HQ nem identificam a tese de textos argumentativos. Enquanto os da 4ª não entendem mais de uma informação por parágrafo nem digerem artigos longos”.

2 – TEORIA DA ENUNCIAÇÃO

A lingüística do discurso tem reservado o termo frase (= sentença) para a unidade formal da língua, estruturada conforme os princípios da gramática e o termo enunciado para a manifestação concreta de uma frase em situação de interlocução.

A linguagem se manifesta através de um diálogo contínuo entre duas pessoas e abrangente toda uma situação de interlocução e nela cada elemento tem importância na determinação dos sentidos que se desenvolvem. Os interlocutores envolvidos não apenas comunicam informações uns aos outros, mas assumem papéis sociais procurando elaborar seus textos de acordo com esses papéis. As palavras são usadas, estrategicamente, para alcançar determinados fins como: persuadir, informar, expor, fazer agir, fazer comprar, etc..

A Teoria da Anunciação tem por postulado básico levar em conta, simultaneamente, a enunciação – ou, seja, o evento único e jamais repetido de produção do enunciado, porque as condições de produção (tempo, lugar, papéis representados pelos interlocutores, imagens recíprocas, relações sociais, objetivos visados na interlocução) são constitutivas do sentido do enunciado.

“A Teoria da Enunciação, concebida extensivamente, segundo Kerbrat-Orecchioni (1997), procura descrever as relações que ocorrem entre o enunciado e os diferentes elementos do quadro enunciativo, ou seja, os protagonistas do discurso e a situação de comunicação (circunstâncias espaços-temporais e condições gerais de produção). Ao considerar a interlocução num dado contexto, essa teoria evidencia em suas análises a importância do enfoque pragmático por ter como objeto de pesquisa a ação humana realizada pela linguagem, indicando suas condições e seu alcance. (Cabral, 2000)”,

“Um passarinho no meio de um enorme prado verdejante que pensa ele? O Dia está bonito, é de primavera. À sua volta apenas erva verde e belas flores brancas e rosa”.

Exemplo: “O dia está bonito”. Em diversas situações pode tratar-se de:

  • uma asserção (uma simples constatação),
  • uma pergunta (o dia está bonito?),
  • uma demonstração de surpresa (O dia está bonito!) etc.

A enunciação deixa marcas no enunciado que indicam (mostram) a que título o enunciado é proferido.

A Teoria da Enunciação teve como precursor o pensador russo M. Bakhtin, ganhando impulso na Franca com a obra do linguista Émile  Benveniste que se propôs  estudar a subjetividade na língua, ”o aparelho  formal da enunciação” ao descrever os sistemas pronominais e verbais do francês. Ao descrever o sistema pronominal Benveniste distingue os pronomes da pessoa (1ª e 2ª ) dos pronomes da não-pessoa (3ª). Os primeiros designam os interlocutores, os sujeitos envolvidos na interlocução (em português: (eu , tu , você ,nós , vós  vocês); os últimos designam os referentes (seres do mundo extralinguístico de que se fala ), não devem ser colocados na classe dos primeiros. Quanto ao sistema verbal, Benveniste faz observações  relevantes:

1- Existem dois planos de enunciação: o discurso e a história com características diferentes.

Na história, tem-se um relato de eventos passados, sem envolvimento do locutor é “como se os fatos se narrassem a si mesmos”.

Características da história:

1.      O  pretérito perfeito simples;

2.      Os pronomes da não-pessoa;

3.      O imperfeito; mais-que-perfeito e o futuro do pretérito do indicativo.

O discurso  é de ordem diversa num determinado  momento, em determinado lugar, um individuo se “apropria” da língua, instaurando  se com “eu” e concomitantemente, instaurando o outro como “tu”: è uma enunciação  que pressupõe um locutor e um ouvinte e, primeiro, a intenção de influenciar o outro de alguma maneira.

Características do discurso:

1.      Presente;

2.      Pretérito perfeito composto;

3.       Futuro do Presente.

4.      Imperfeito e o mais-que-perfeito – são comuns aos dois planos.

Benveniste  comprova sua tese da subjetividade na linguagem e através dos seus trabalhos ganha impulso  a Teoria da Enunciação tendo grande aceitação na França, onde diversos linguísticas  passaram a estudar  outras marcas da presença do enunciador nos enunciados por ele produzidos.

Exemplo:

  • Os indicadores  de modalidade;
  • Atitude do falante;
  • Os índices de avaliação;
  • Os distanciamentos ou adesão do locutor  ao seu discurso, enfim, todos  os tipos de “modalizadores” ou marcas linguísticas da enunciação.

3 – A TEORIA DOS ATOS DA FALA

No ato da fala, pode-se observar o emissor: aquele que diz algo a alguém; o “receptor” aquele com quem o emissor se comunica, a “mensagem”; tudo o que é transmitido do emissor para o receptor “o código”; a convenção que permite ao receptor compreender a mensagem.

Ex: A. Rosa! Amanhã começa a apresentação dos seminários.

B. Quem é o primeiro grupo a se apresentar?

A Teoria dos Atos de Fala surgiu no interior da Filosofia da Linguagem, no início dos anos 60, tendo sido, posteriormente apropriada pela Pragmática. Filósofos da Escola Analítica de Oxford, tendo como pioneiro o inglês John Langshaw Austin (1911-1960), seguido por Searle e outros, entendiam a linguagem como uma forma de ação (“todo dizer é um fazer”). Passaram, então, a refletir sobre os diversos tipos de ações humanas que se realizam através da linguagem: os atos da fala, atos de discurso ou atos de linguagem.

Austin faz distinção entre três tipos de atos:

1.      O ato locucionário – emite um conjunto de sons organizados conforme as regras da língua. De acordo com Searle o ato locucionário é formado de um ato de referência e um ato de predicação atribuindo certa propriedade, característica, estado ou comportamento.

a.      Por exemplo: João é estudioso.

2.      O ato ilocucionário  – atribui  a esse conjunto (proposições ou conteúdos proporcionais uma determinada força de:

a.      Pergunta – João continua casado?

b.      asserção – João continua solteiro.

c.      ordem – João continue solteiro!

d.      uma vontade – Tomara que João continue solteiro.

Os atos ilocucionários estão relacionados ao ato realizado quando proferi o enunciado, está ligado à força ilocucionária contida no enunciado (referente à G. Frege). Os atos ilocucionários são expressos por enunciados afirmativos: “Seu carro está pegando fogo”; interrogativos: “Onde é a sua casa?”; e exclamativos: “Como é frio nesse lugar!”. Os atos ilocucionários representam a força (a intensidade do pedido e da resposta) com que proferimos o enunciado.

Searles propôs uma formúla para o ato da fala: f (p)

p = conteúdo proporcional

f = força ilocucionária

“Ato Perlocucionário… proferido por “Marta Suplicy”

Ato perlocucionário destina-se a exercer certos efeitos sobre o Interlocutor: convencê-lo, assustá-lo, agradá-lo, etc., efeitos que podem realizar-se ou não. A diferença entre atos ilocucionário e perlocucionário deve ser explicada por meio de um performativo. Portanto, devemos observar que todo ato da fala é, o mesmo tempo: locucionário. Ilocucionário e perlocucionário.

Contudo, contrariamente ao que em geral se afirmava no interior da Teoria dos Atos da fala, a força ilocucionária nem sempre pode ser determinada pelo recurso a um performativo:

  • primeiro, muitas vezes a força ilocucionária é ambígua: quando digo “Saia”, pode tratar-se de uma ordem, de um pedido, de uma conselho, ou até de uma súplica.
  • Segundo, porque nem sempre existe na língua um performativo adequado à explicação da força ilocucionária.

Se todo ato da fala realiza uma ação (“todo dizer é uma fazer”).

Ato de fala é direto, quando realizado por meio de formas lingüísticas especializadas, isto é, típicas daquele tipo de ato. Há, por exemplo, uma entonação típica para perguntas; as formas imperativas são tipicamente usadas para dar ordens ou fazer pedido; expressões como: por favor, por gentileza, etc. são tipicamente usadas para fazer pedidos ou solicitações, etc.

l      Por exemplo:

  1. Que dia é hoje? (ato da pergunta)
  2. Deixe-me só!
  3. Por favor, traga-me um café. (Ato de solicitação)
  4. Não levantarás falvo testemunho (atos de ordens)

Ato de fala é indireto (ou derivado), quando realizado indiretamente, isto é, por meio de formas lingüísticas típicas de outro tipo de ato. Nesse sentido, “dizer é fazer uma coisa sob a aparência de outra”.

Eis alguns exemplos:

a. Você tem um cigarro? (pedido com aparência de pergunta) Quem enuncia essa frase não está perguntando se o alocutário tem ou não um cigarro, mas sim pedindo-lhe que ceda um cigarro.

b. Como está abafada esta sala! (pedido com aparência de constatação) Normalmente, quem enuncia essa frase não está simplesmente fazendo uma constatação sobre a temperatura no interior do recinto, mas sim pedindo que o alocutário faça algo para amenizar o calor, como abrir as janelas, ligar o ventilador, o ar-condicionado,etc.

c. Você pode fechar a porta? (pedido com aparência de pergunta) Quem enuncia essa frase não está perguntando sobre a (in)capacidade fisica do alocutário de fechar a porta, mas sim pedindo-lhe que feche a porta. Seria estranho se o alocutário pensasse que a pergunta é mera curiosidade e respondesse simplesmente sim ou não.

Nesses casos, Searle (1982) denomina de “secundários” os atos de perguntar, constatar, etc. e de “primário” o ato de pedir. No entanto, do ponto de vista da interpretação, pode-se dizer que o valor de pergunta e constatação é “literal”, e o valor de pedido, “derivado”.

4 – TEORIA DA ATIVIDADE VERBAL

Os psicólogos e psicolinguistas soviéticos (Leontev e Luria)  baseados nas ideias de Vigotsky, desenvolveram  nos países da antiga URSS, a Teoria da Atividade Verbal. De acordo com Vigotsky  ela parte do princípio de que linguagem atividade social realizada para determinados fins. Mediante essa afirmação “toda atividade lingüística é composta por: um enunciado, produzido com dada intenção (propósito), sob certas condições necessárias para o atingimento do objetivo visado e as conseqüências decorrentes da realização do objetivo”.

Portanto, o locutor é responsável por levar ao interlocutor a compreensão do objetivo ou da informação que: o locutor deve realizar atividades lingüístico-cognitivas tanto para garantir a compreensão (tais como repetir, parafrasear, completar, corrigir, resumir, exemplificar, enfatizar, etc.), como para estimular facilitar ou causar a aceitação (fundamentar, justificar, “preparar o terreno”, etc.).

Entre as atividades realizadas pela Teoria da Atividade Verbal, está a produção de inferências, porque “nenhum texto apresenta de forma explícita toda a informação necessária à sua compreensão”, há sempre elementos implícitos a ser recuperados pelo ouvinte/locutor. Assim, as inferências desempenham um importante papel na interlocução, permitindo ao leitor estabelecer relações com o que se encontra implícito no texto e a partir do seu conhecimento de mundo e do conhecimento partilhado, obter a informação necessária para a compreensão total da mensagem.

Exemplo:

  • João entrou no restaurante, comeu uma feijoada e voltou correndo para o escritório.
  • A. Você trouxe as coisas que pedi?

B. As que estavam lá em cima?

A. Não, as que deixei no quintal.

A. Ah, vou buscá-las.

5. OS POSTULADOS CONVENCIONAIS DE GRICE

Segundo o filósofo americano Grice , o pricípio básico que rege a comunicação humana é o Princípio da Cooperação, onde as pessoas vão cooperar para que haja uma interlocução de maneira adequada.

Esse princípio é formado por quatro “máximas”:

a.      Máxima da Quantidade – “não diga nem mais e nem menos do que o necessário”.

b.      Máxima da Qualidade – “só diga coisas para as quais tem evidências adequada; não diga o que não sabe ser verdadeiro”.

c.      Máxima da Relação – “ diga somente o que é relevante”.

d.      Máxima do Modo – “seja claro e conciso; evite a obstacularidade, a prolixidade, etc.”.

Implicatura convencional – o que é isso? É quando o interlocutor infringe intencionalmente uma das máximas, havendo a necessidade de fazer cálculos para descobrir o motivo da desobediência e tentar interpretar aquele texto.

6. CONCLUSÃO

Para Ingedore a linguagem, como ação intersubjetiva, é derivada da Teoria da Anunciação e da Teoria dos Atos da Fala.  Na Teoria da Enunciação, de um modo geral, a frase (=sentença) é estruturada com os princípios básico da gramática para a unidade formal do sistema da língua; o termo enunciado para a realização concreta de uma frase, em situações de interlocuções. Portanto, o princípio básico da Teoria da Anunciação não é o lingüista preocupar-se, apenas, com a descrição do enunciado dos falantes de uma língua, mas levar em consideração a enunciação. A Teoria da Anunciação teve como precursor Bakhtin, que estudou a subjetividade na língua, o “aparelho formal da enunciação” tomando como base os sistemas: pronominais e verbal francês.

Austin que foi pioneiro em descrever a Teoria dos Atos da Fala e entendeu a linguagem como forma de ação passando a analisar as ações humanas realizadas através da linguagem, ou seja, atos da fala, atos do discurso ou atos de linguagem: Ato locucionário (sons organizados conforme as regras da língua); ato ilocucionário (imputa a esse ato uma determinada força de promessa, pergunta, asserção); ato perlocucionário (influencia o interlocutor a efeitos que pode m realizar-se ou não). Todo ato da fala e, ao mesmo tempo, locucionário, ilocucionário e perlocucionário, caso contrário não seria ato de fala.

A Teoria da Atividade Verbal desenvolvida por Leontev e Luria baseou-se nas ideias de Vigotsky  que define a linguagem como uma atividade  social que tem como objetivo determinados fins. Daí então, toda atividade lingüística seria composta por um enunciado com um propósito; condições para atingir o objetivo visado e as conseqüências dos objetivos concretizados, assegurando ao interlocutor condições para reconhecer (intenção); compreender (objetivo visado); aceitar (objetivo pretendido). Para a realização desses atos é preciso  haver a garantia  através da compreensão(repetindo, parafraseando, completando, corrigindo, exemplificando, enfatizando, etc.) “preparar o terreno).

De acordo com o filósofo americano Grice o princípio básico que rege a comunicação humana é o Princípio da Cooperação na qual duas ou mais pessoas se propõem a interagir verbalmente cooperando para que essa interlocução ocorra de maneira adequada.

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUSTIN, J.L. How to do things with words. New York: Oxford University Press, 1965.

BAKTHIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. brasileira. 2 ed. São Paulo: Hucitec,

1981. (Original russo: 1929)

KOCH, I. V. A inter-ação pela linguagem. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2006.

SEARLE, John R. Expression and meaning. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.

Sites

/www.filologia.org.br/viiifelin/41.htm – janeiro/2011

http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/37/EL_V37N2_07.pdf – janeiro/2011

http://www.uniblog.com.br/prosil/ – fevereiro/2011