LIVRO VELHO DO TOMBO DO MOSTEIRO DE SÃO BENTO DA BAHIA (SALVADOR, 1582): EDIÇÃO SEMIDIPLOMÁTICA*

*texto de um painel apresentado no V Encontro de Estudos Medievais promovido pela ABREM em 2007

Jaqueline Carvalho Martins de Oliveira (UFBA)

Orientador: Profa. Dra. Alícia Duhá Lose

(Faculdade São Bento da Bahia/UFBA)

INTRODUÇÃO

A Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia – uma das três únicas bibliotecas brasileiras tombadas pelo Patrimônio Histórico da UNESCO – abriga em seu Acervo de Obras Raras valiosos e reveladores documentos, cuja contribuição tem sido inestimável e, com certeza, o será no porvir, uma vez que a instituição vem proporcionando, não só restauração dos suportes, como também diversas pesquisas, conservando parte da história brasileira e fomentando estudos nas diversas áreas.

Dentre os escritos do seu acervo, há uma coleção de 11 volumes de registros reunidos que atestam e precisam a tradição medieval de doação de bens para a Igreja por parte das famílias locais. Pretende-se expor neste trabalho resultados parciais da edição semidiplomática do primeiro volume da dita coleção, assim chamado de Livro Velho do Tombo.

OBJETIVOS

Oferecer ao público em geral acesso a documentos que retratam a história da fundação da “Cidade da Bahia”, primeira capital do Brasil, em uma edição criteriosa e fidedigna às características lingüísticas da época. Pretende-se, ainda, contribuir para preservação deste material através do uso dos recursos tecnológicos de digitalização das imagens.

METODOLOGIA

Em 1945, o Livro Velho foi editado diplomaticamente pelos monges beneditinos, e publicado em tiragem pequena da qual restam pouquíssimos exemplares com formação não filológica que, naturalmente, se caracteriza pela falta de sistematização de critérios e conseqüente comprometimento dos resultados.

Levando-se em conta o estado do suporte do original, optou-se por a) digitalizar a edição diplomática de 1945; b) converter as imagens em formato txt, através do programa OCR (etapa sendo concluída por dois pesquisadores com a correção de falhas deixadas pelo programa conversor); c) digitalização de todos os fólios do documento original e d) cotejo da edição de 1945 com o documento original (na medida do possível, devido ao estado “delicado” em que este se encontra).

A edição completa constituir-se-á de descrição geral do volume do Livro Velho do Tombo, dos critérios de transcrição do texto, da análise filológica, da análise de abreviaturas presentes no documento (trabalho realizado por outra pesquisadora) e da transcrição semidiplomática do texto.

RESULTADOS

DESCRIÇÃO EXTRÍNSECA

O volume encontra-se em estado de conservação que inspira cuidados, pois a tinta ferro-gálica corroeu e escureceu bastante o papel. O documento apresenta-se encadernado em couro de porco marrom (410mm × 260mm) com o símbolo da ordem e a data de fundação do Mosteiro pintados à tinta na capa; a lombada, que apresenta 5 relevos, derivados da maneira de encadernação (costura dupla com cordão arredondado), mostra a inscrição “Livro Velho do Tombo” distribuída em cada um dos espaços entre os relevos, antecedida e sucedida por vinhetas. O desenho e os escritos da capa e da lombada foram feitos por um monge beneditino.

O corpo do volume, em papel poroso, tem 215 fólios numerados (contudo, apenas 193 estão escritos no recto e no verso). Notam-se, pelo menos, 3 scriptas diferentes, em letras cursivas. O suporte não parece ter sofrido a ação de insetos e demonstra ter passado por um processo antigo de restauração, no qual se colava sobre os fólios mais danificados uma folha de papel de seda com cola comum, sendo que, neste volume, quase todos os fólios passaram por este processo. Apresenta abreviaturas, reclamos e anotações marginais. Como trata-se de documento original, a grafia apresenta características da época.

Tem-se registrados documentos relativos ao início do séc. XVI, tais como testamentos, doações, registros, petições, reconhecimentos, autos de posse e cartas de Sesmarias, a exemplo da sesmaria concedida, em 1536, a Diogo Álvares, o testamento de Gabriel Soares e o de Catarina Álvares Caramuru (a Paraguaçu), de 1586. O volume apresenta diversas autenticações feitas no séc. XX, marcadas com carimbos e assinaturas. O que significa que as informações contidas neste material são válidas e legalmente aceitas até os dias atuais.


DIGITALIZAÇÃO, CONVERSÃO E CORREÇÃO

A digitalização dos documentos foi feita através de fotografia digital com a máquina Kodak EasyShare P880, com resolução de 8Mb e o uso de uma mesa especial para fixação da máquina. Através do programa OCR (Optical Character Recognition) foram convertidas em texto as imagens digitais feitas da edição de 1945; tal programa permite reconhecer caracteres de texto em imagens, transformando-os em texto editável.

O programa, no entanto, não reconhece determinados caracteres bastante peculiares deste tipo de texto: os caracteres acentuados, as abreviaturas por letras sobrescritas e sinais tipográficos como esperluetes, por exemplo. Isso ocasiona uma série de erros que devem ser corrigidos manualmente. Portanto, a primeira etapa deste trabalho, a qual se finalizou no momento, constituiu-se da digitalização da edição de 1945, da conversão das imagens através do citado programa e da correção das falhas deixadas pelo conversor através do cotejo do texto em formato digital com as imagens originais da edição.

CONCLUSÃO

Tornar as informações “contheudas” nos escritos acessíveis, não só aos especialistas, mas ao público em geral, é de grandiosa relevância por diversos motivos: o fato de serem escassos os documentos do primeiro século do Brasil e por serem, juntos, um verdadeiro prospecto de crescimento e povoação da cidade do Salvador e regiões circunvizinhas são apenas alguns deles. Trata-se, enfim, de um valioso acréscimo ao conhecimento geográfico, social, político-econômico, histórico de todo o povo brasileiro, partindo de seu embrião, a “Cidade da Bahia”.

REFERÊNCIAS

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