Narcisismo, Vaidade, Orgulho e Outras Neuroses

” NARCISISMO,VAIDADE,ORGULHO E OUTROS DISTÚRBIOS”

O termo Narcisismo, segundo especifica o dicionário, refere-se ao amor de uma pessoa a si mesma. Isto é; uma auto- adoração; um interesse exagerado e doentio do indivíduo, voltado para ele mesmo. É o apaixonado pelo próprio corpo. Nas palavras freudianas, o Narcisismo é fruto da “fixação” da “libido” no próprio “Ego” do indivíduo. Traduzindo esta linguagem psicanalítica, temos que libido é conceito que se refere a “energia instintiva e autoconservadora da vida”, cujo sinônimo é “Eros”, em oposição a “Thanatos”, instinto de morte (ver o Artigo:” Instinto de Morte e Instinto de Vida”, deste autor). Embora popularmente libido tenha conotação de prazer erótico e instinto sexual, este termo é bem mais amplo e genérico, abrangendo os diversos níveis das exigências instintivas, para a homeostase (equilíbrio psicossomático) humana. Fixação ;é a persistência na idade adulta, de desejos inconscientes de gratificação infantil que dificultam o estabelecimento de relações normais e sadias com o Mundo. E, Ego, no conceito freudiano, é o componente estrutural da personalidade que intermedia as energias mentais entre o Consciente e o Inconsciente, regulando as ações entre o indivíduo e o seu meio ambiente. Se a fixação libidinal perdurar durante as fases da evolução mental, podemos dizer que há uma regressão psicossexual, gerando a personalidade narcisista. O Narcisismo, segundo ainda a interpretação psicanalítica, tem origem em recursos utilizados na infância, com a finalidade de enfrentar a frustração.

Quando tais recursos (que são mecanismos inconscientes de defesa) voltam a ser usados com alguma freqüência na idade adulta, cristaliza-se a condição neurótica em questão. Assim, o “narciso” (como chamo uma pessoa narcisista) não se desenvolveu mentalmente, como se espera de um cérebro normal. É um imaturo que não atingiu a maturidade emocional e, naturalmente, a sexual. O narcisista ( ou, o “narciso) tem como objeto da sua libido uma pessoa do mesmo sexo: ela mesma ! Daí a sua auto-atração, gerando dificuldades de relacionamentos pessoais e sociais. O mito que gerou o quadro psicopatológico do Narcisismo é o da lenda grega em que “Eco” (uma Ninfa), apaixona-se pelo belo e jovem Narciso, sendo,entretanto, rejeitada por ele. A Ninfa, ao sentir-se repelida,pede a Afrodite(deusa do Amor) que a vingue, infligindo a Narciso uma punição por tê-la rejeitada. Afrodite atende a Eco, fazendo o jovem Narciso confundir o reflexo da sua própria imagem refletida na água, com a de uma Ninfa (símbolo da formosura física). Narciso se apaixona perdidamente pela imagem que viu na água ( a sua própria) e tenta alcançá-la. A cada vez que tenta abraçar a sua imagem refletida e não consegue; Narciso se angustia e, a sua angústia , reflete-se em seu rosto espectral, tornando-o mais e mais apreensivo por ver a face angustiada da “sua amada”. Ao rever tantas vezes a imagem daquela que julgava ser a sua paixão, acentuou-se em Narciso o desespero e desejo de tentar resgatar o “objeto” de seu desejo (ele mesmo). De súbito, não se contendo com tanta ansiedade, Narciso se atira às águas e, debatendo-se,morre afogado na busca de sua paixão ( a sua imagem refletida). A deusa do amor, Afrodite, transformou-o na flor que guarda o seu nome; uma planta ornamental da família das Amarilidáceas.

Neste presente Trabalho, vamos expor a condição da pessoa narcisista, em seu contexto social e a sua implicação pessoal e com todos aqueles que tem a má-sorte de com ela se relacionar. Procuremos analisar o narcisista e o seu comportamento à luz da Psicobiologia ou Neuropsicologia, ao explicar as motivações comportamentais dele, pelos mecanismos neurofisiológicos. Mas, pode o leitor menos avisados e pouco conhecedor desses mecanismos conscientes e inconscientes do complexo cérebro-mente, indagar o porquê do nosso interesse pelo narcisismo e o comportamento do “narciso”(pessoa narcisista). Por vários motivos o autor é levado a focalizar, estudar e escrever sobre este assunto. Primeiro; por se tratar de um estudo patológico da mente, que está dentro do seu ramo. Segundo; pela enorme maioria de pessoas narcisistas que habitam o planeta e; terceiro, porque o narcisismo está associado e acompanhado de outros distúrbios mentais, como: a vaidade, o orgulho, a ganância, a dominação, o egoísmo e alguns outros sentimentos negativos e nocivos, não só ao narciso, como também a toda sociedade humana ou desumana.

É bem verdade que a grande difusão desses conflitos da mente e os males que a todos maltratam, advém de décadas de condicionamentos negativos e perniciosos impostos pelos pais,pelos educadores e pelos meios de comunicação, principalmente pela televisão que, com os seus péssimos exemplos de exaltação à beleza física e aos bens materiais; com os seus programas e novelas condicionadores da prostituição física,moral e espiritual dos mais ignorantes culturais e dos imaturos de todas as idades. Como estamos em clima de Carnaval, nada melhor para se analisar e mostrar a composição e decomposição dos milhares de narcisos ( e seus coadjuvantes mentais) explícitos e implícitos que desfilam nas passarelas escancaradas do exibicionismo eufórico e histérico de muitos “famosos” e outros sem fama, em busca do renome,aplausos,notoriedade e fome estética e fisiológica. O narcisismo, assim como em qualquer outro distúrbio do comportamento é gerado por conflitos cerebrais que interferem na ação da mente, que é a condutora e adequadora da vida de qualquer pessoa.

Nos outros animais, a mente se restringe à ação do cérebro inconsciente que os motiva apenas à procriação, alimentação e defesa. Por tal razão, eles não têm e não necessitam da mente consciente que poderia lhes habilitar a concorrer com os humanos nas diversas áreas do saber, como nas pesquisas médicas, jurídicas, etc.; muito embora, alguns símios mais evoluídos sejam mais evoluídos e úteis que muitos humanos que conhecemos e ouvimos falar, que andam tocando fogo em pobres mendigos e índios desamparados e que chutam,batem e esfolam animais indefesos e outros seres humanos esquecidos por todos e desprotegidos da sorte e dessa necrosada Sociedade Moderna Mundial. Voltemos aos mecanismos neuropsicológicos causadores do narcisismo e seus anexos (a vaidade, o orgulho, o egoísmo, etc.).

No momento atual do conhecimento do cérebro e, naturalmente, da mente, quando as Ciências Psicobiológicas cada vez mais desvendam os mistérios da interação cérebro-mente, tornam-se conhecidas, gradativamente, essas interferências cerebrais na atividade mental, bem como, os estados psicopatológicos resultantes das reações entre as funções conscientes e inconscientes das diversas estruturas neuronais. Qualquer alteração de conduta, ao se tornar crônica, provoca uma conseqüente alteração na fisiologia cerebral, mesmo que a nível imperceptível molecular. E, o contrário, também é verdadeiro! As alterações neurônicas, mesmo que a níveis moleculares, provocam alterações mentais e comportamentais do mesmo modo (vide: “Disfunções Mínimas Cerebrais”,Carleial,Belo Horizonte,1983). Por esta razão é que não se encontra ou se nota alterações visíveis em muitos cérebros de portadores de distúrbios mentais de origem funcional, como na maioria das neuroses. No narcisismo, tais alterações provavelmente se situam em estruturas relacionadas diretamente com as emoções, de forma mais direta, como o sistema límbico; proposto e vastamente pesquisado por J.Papez, P. Mac Lean, J.Olds, P. Milner e outros neurocientistas.

No sistema límbico, notadamente o hipotálamo é onde se localizam os centros reguladores e integradores, por excelência, das emoções, estruturas nucleares da vida de relação. Não pretendemos nos estender em particularidades sobre o cérebro, embora sejam importantes em qualquer estudo do comportamento; pois, antes de sermos seres sociais, somos Neuronais. Voltando ao foco principal deste nosso trabalho, o Narcisismo, assim como qualquer distúrbio mental, somente se caracteriza como um estado patológico, quando provoca em seu portador e às demais pessoas, freqüentes prejuízos psíquicos biológicos e materiais. Não é, pois, apenas por se preocupar com a sua aparência física ou estética que uma pessoa possa ser considerada narcisista. É natural, normal e sadio que uma pessoa se preocupe com o seu aspecto físico e orgânico. O que caracteriza o quadro psicopatológico do “narciso” é a dificuldade de adaptação e adequação à vida, proveniente do exagero de tal ou qual comportamento. Por exemplos, a tristeza, abatimento ou mesmo a depressão, quando por motivos reais,claros e conscientes; são apenas manifestações reativas, frente a certos acontecimentos frustrantes com que nos deparamos na vida, como as doenças, morte, desastres e alguns outros traumas psíquicos ou físicos. Entretanto, se uma pessoa permanece por longo tempo ou repetidamente passando por esses estágios; aí sim, fica caracterizado o transtorno patológico. Se a preocupação da pessoa se centraliza MUITO em seu próprio corpo, na sua aparência externa, achando-se a mais bela,sedutora ou ,a mais sábia das criaturas; então podemos suspeitar de seu narcisismo.

Neste caso, esse comportamento doentio vai lhe causar inúmeros transtornos de saúde, econômicos e social. Há pessoas que conhecemos e outras que tratamos que apresentam conflitos típicos dessa natureza, sofrendo por não terem um viver adequado às exigências da vida em sociedade. Sofrem demais com depressão e outras calamidades psicossomáticas, quando os anos, traumas e doenças as atingirem. Como o narcisista se “alimenta” de elogios e bajulações, quanto mais é elogiado, mais se “incha” de vaidade e orgulho, “explodindo” o Ego, tal como na fábula do sapo que se explodiu de tanto exibir a grandeza que não tinha. Da mesma forma explodirá o narcisista, quando lhe faltarem a beleza física, os bens materiais e …os falsos elogios. Antes, tais distúrbios só vinham causar os sintomas existenciais negativos e prejudiciais, quando os doentes atingiam a idade adulta. Hoje, com os bilhões de estímulos nocivos e condicionadores que nos atingem pelos meios de comunicação, em particular, da televisão, principalmente às mentes infantis e imaturas; cada vez mais precocemente as crianças são induzidas e permitidas por pais imaturos, inconseqüentes e mentalmente enfermos a exibirem, publicamente, os seus corpos
“bonitos” e maquiados aos olhares e desejos de bilhões de degenerados de toda espécie, na passarela global do Narcisismo,Vaidade,Orgulho,Pretensão e Egocentrismo.

Não poderíamos deixar de falar um pouco sobre os transtornos individuais e sociais provocados,também, pelos distúrbios mentais e comportamentais que sempre estão ao lado do “narciso” (pessoa narcisista). Como já aludimos anteriormente e, no próprio título deste Trabalho, o Narcisismo está associado e bem ao lado da Vaidade,do Orgulho, da Dominação e do Sentimento de Superioridade. Vejamos a análise desses conflitos colaterais ao Narcisismo. A pessoa narcisista é vaidosa porque se sente superior aos demais, seja pela beleza física ( o mais comum) ou pelo sentimento de grandeza cultural e/ou material; é o próprio “Ser Imortal”; tal como o “super-homem”, o” Homem Aranha” e todos os “Super- Heróis” americanos. O narcisista,julgando-se imortal,acredita que somente os outros morrem, adoecem,envelhecem e sofrem acidentes; julgando-se imortal, o narciso vê a todos como súditos,cativos e seus dominados. O curioso é que o narcisismo da mulher é voltado mais para o seu corpo e sua beleza exterior; dando-lhe maior capacidade de sedução. Muitas delas se julgam verdadeiras “Imperatrizes Ocidentais” e “Cleópatras” ressuscitadas, muito embora, na vida real, estejam bem distante, em tudo, dessas majestades fantasiadas. Já no homem, além da auto-admiração, o narciso se fixa mais em bens materiais vistosos, que atraem a atenção dos demais sobre a sua pobre e vazia pessoa. Daí, a sua notória ostentação através de carros,motos,iates,roupas,etc.; tudo muito bonito e caro.

O “narciso” sendo vaidoso necessita da aceitação e aplausos dos outros, porque nos neurônios do seu inconsciente se encontram diversas gravações(eletroquímicas) de fatos e fatores negativos da sua nulidade cultural e do seu vazio existencial. Por isso, o seu Inconsciente exige que o seu Consciente busque lá fora os aplausos e a aceitação dos outros, para neutralizar a ansiedade latente dessas gravações (antigas ou recentes) contidas nas células nervosas da sua mente Inconsciente. Porém, o narciso para receber e continuar atraindo a atenção,aplausos,aceitação,elogios e bajulação de terceiros para a sua fragilizada personalidade ( que o mantém vivo), ele necessita manter-se sempre atraente e belo para todos; a fim de receber esses aplausos e essa aceitação que o alimentam. É, aí, que o narcisismo se associa com a vaidade, que lhe custa muito e o onera com gastos extravagantes; como: roupas,sapatos,perfumes,enfeites,adornos, penteados,cosméticos e mil outros atrativos para ser notado,olhado,invejado e aplaudido.

Tratei e conheço muitos (principalmente mulheres) narcisistas que gastavam e gastam mais do que ganham, para atender à sua demanda estética e física. Alguns chegam a se endividar para comprar objetos caros e melhor chamar a atenção dos outros e, assim, ser o alvo dos aplausos de que tanto precisa. O narcisista não para de comprar coisas que possam a vir adornar mais ainda o seu corpo; chegando a exorbitar a própria patologia que sofre. Em um caso que tratei, a paciente tinha cerca de 90 pares de sapatos, 80 a 90 peças íntimas e inúmeros outros objetos para perfumar e acentuar as formas do corpo. Além disso, o narcisista procura, também, chamar atenção através do desnudamento público do seu corpo. Daí, o endeusamento de si mesmo e o desgaste material e econômico que lhe traz problemas financeiros, psicológicos e de saúde. Conhecemos pessoas que não dispunha de dinheiro nem para se alimentar a contento; mas, não saía sem uma roupa,bolsa,colares e sapatos novos, diariamente. Todo esse gasto à custa do empobrecimento material, psicológico e da saúde. Desta forma, o narcisista (ou narciso) envolve, também, problemas social, econômico e de saúde. Vê-se que a ligação do narcisismo com outras patologias é muito estreita, como: vaidade, egoísmo, dominação e sentimento de superioridade. O vaidoso crê-se imortal e superior aos demais; daí o perigo para si ;quando a idade,uma doença ou um acidente lhe destruir a beleza física; quando poderá ser agressivo e violento com os demais. Quando a sua frustração for demais, em decorrência da intensa concorrência dos demais narcisos mais ricos, “bonitos” e novos; poderá se tornar, também, agressivo; neste caso, a frustração, que é a origem de toda violência, o tornará violento.

Finalizando, lembramos que Frustração é o sentimento inconsciente e/ou consciente por não ter a pessoa o que gostaria de ter; e, o que o indivíduo gostaria de ser e não é ! Daí, percebermos, como exemplo, que um advogado que não foi aprovado em concurso para juiz; falar mal e criticar os juízes; o juiz que não foi promovido a desembargador, depreciar os desembargadores e, finalmente, o desembargador que gostaria de ser ministro do STJ ou do STF, não apreciar muito esses seus superiores ministeriais. A gênese do narcisismo e de todos os seus coadjuvantes patológicos se origina da base educacional da criança. Se, a família, os amigos, parentes e conhecidos da criança a elogiarem com adjetivos qualificativos de beleza exterior e outros termos supérfluos; se, não cultivarem na criança a honradez, a honestidade, o humanismo, a cultura e as demais belezas interiores; bem como, se os pais a deixarem entregue à visão dos programas chulos,vazios,burros e aviltantes da televisão; podem se preparar, pois logo terão criado,cultivado e aperfeiçoado mais um narciso,um vaidoso, um egoísta e muitos outros defeitos morais e mentais.

Nota: Este trabalho foi, originariamente, pesquisado e escrito no outono de 1988, quando foi publicado em Jornais,Revista e em Livro, na época. Agora, a pedido, o autor o reformulou um pouco, a fim de atender aos dias presentes. Entretanto, a sua base científica Psicobiológica, não sofreu nenhuma alteração, apesar do transcurso de algumas décadas.

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Carleial. Bernardino Mendonça.

Belo Horizonte, outono de 1988;
São Paulo, verão de 2011.

Carleial é Psicólogo-Clínico pela Universidade Católica de Minas Gerais;
Estudante de Direito da universidade Estácio de Sá, em Belo Horizonte;
Escritor e Pesquisador nas áreas da psicobiologia e do Direito.