Negritude, na literatura e na vida.

Texto Base: A trajetória do negro na literatura brasileira

Autor: Domício Proença Filho

Negro três vezes negro

Negro mau conduta

Negro sempre negro

Negro filho da puta

Popular: autor desconhecido

O negro quer ser branco. Negros bem sucedidos casam com mulheres brancas. O inverso é minoria. Então, por essa ótica, o negro busca a nobreza branca. Como disse o Spike Lee: a derradeira conquista do negro é a mulher do branco. O que, em termos de raça ( acho etnia muito falso ), é um tiro no pé. È o tão propalado branqueamento, mas e daí?

Podemos também deduzir disso que se a sociedade impõe ( ou é imposta por grupamentos de indivíduos ) um determinado padrão para a beleza feminina ( objeto de desejo ), padrão este em que a característica branca predomina ( vide playboys, sexis, bigbrothers e afins ), o negro, perfeitamente integrado aos anseios da civilização branca, como qualquer cidadão ( pós-moderno ), tem este sonho de consumo.

Já o negro vítima é uma evidência histórica, política e cultural, cujo processo de reparação é feito com ações tímidas, mas importantes, como a criação de cotas em universidades e concursos públicos.

Este negro, sem alternativas, torna-se de novo o negro demônio, que não respeita as regras, comete crimes e acaba preso. Os presídios estão cheios de negros, pobres e sem escolarização. Aqui no Rio Grande do Sul, pela intensa imigração italiana e alemã é comum a existência de famílias brancas nas favelas.

No tocante a resignação de sua condição inferior e infeliz ( esqueçamos o negro, por instantes ), pode-se dizer o mesmo de milhares de habitantes das favelas ( e outros bolsões de miséria ) brasileiras. São e serão, por certo, sempre os objetos de idealização, especialmente do discurso político, passando, sem distinção, por descamisados e bolsas isto ou aquilo.

O movimento de reação ou de revolta, porém não surge, a não ser em atos individuais e/ou marginais, nunca em posicionamentos coletivos, isto tudo numa época em que se diz ouvir as minorias.

Quanto ao infantilizado, serviçal e subalterno, se olharmos para nós, veremos que temos em nossas famílias, rua, bairro, etc; aquele tipo simples, ingênuo, peculiar ( negro ), mas especificamente de confiança: tanto no auxílio de trabalhos domésticos como em atividades de manutenção e reforma civil.

O negro erotizado, sensualíssimo, bem dotado, objeto sexual é uma presença constante na internet e filmes pornô, como o recente filme da Bruna Surfistinha. É também, de domínio público, a frieza sexual de mulheres de descendência européia, contrastando com o apetite sexual da mulher afro-descentente.

A bodarrada branca e elitizada se apresenta nos crimes ditos do colarinho branco. Situação em que, pasmem, prestem atenção, a etnia branca se faz bem mais presente. E que motivos há para esta distinção racial: pobres na cadeia e ricos em processos? È simples: minoria no poder. Negros e pobres são em maior número, porém congressos, senados e instâncias menores como cargos do segundo, terceiro, quarto e sei lá que outros níveis de escala possamos definir, são, usualmente, ocupados por brancos.

Quantos professores negros temos na Universidade? Quantos de nós tem um chefe negro?

Assim, podemos ler a vida na arte, e a vida continua a mesma.

A velha literatura, a vida contemporânea, passa o tempo, muito se cria, muito se destrói e nada se transforma..