O Casamento Está no Fim: Incompatibilidade de Gênios?

Ainda que sejamos leigos em questões jurídicas, parece-nos evidente que a “incompatibilidade de gênios” seja o argumento mais utilizado para justificar o fracasso de um número cada vez maior de casamentos desfeitos.

Se por um lado, a rotina forense reconhece essa premissa como verdadeira; por outro lado, a prática nos revela que há algo mais intenso numa relação a dois, capaz de transformar qualquer intenção de resgate: impossível, uma vez que favorece toda e qualquer incompatibilidade a adquirir proporções gigantescas, por menor que essas possam ser, como é o caso da “perda da sintonia sexual” que, em geral, acontece quando o casal já não se ajusta, porque um já não conhece mais o próprio desejo e, portanto, ignora o desejo do outro. Com o passar do tempo, surgem as mágoas, ressentimentos e até o rancor e, a indiferença se instala.

À medida que os sentimentos vão sendo reprimidos, o casal passa a saber, cada vez menos, um do outro. Nessa dinâmica é possível que um dos dois sinta-se rejeitado enquanto o outro reclama estar sendo cobrado (embora não esteja), por algo que não tem para dar.

Não há a menor clareza com o que está acontecendo entre eles. Na falta decisiva do diálogo, o silêncio se instala e, cada vez menos, um tem o que dizer ao outro.

Não é raro que a ausência do desejo na vida do casal estimule o interêsse, algumas vezes compulsivo, por atividades domésticas como arrumação da casa, dotes culinários, dedicação excessiva ao filhos ou convites para satisfazer os desejos gastronômicos.

É muito frequente nesses relacionamentos que, enquanto um deseja estar enroscado nos lençóis, o outro convida para testar a receita da sobremesa que trouxe do escritório; enquanto esse deseja trocar carícias no sofá, aquele deseja fazer experimentos com o novo molho branco para a macarronada. E, cada vez mais, essa visão diferenciada, irá criando graus elevados de insatisfação por conta da “perda da sintonia sexual”. Esse olhar para o parceiro, destituído de calor e sensualidade é que faz, via de regra, enxergar no dia a dia, ainda que inconscientemente, oportunidades várias para um contato cordial, um cafuné platônico ou um beijo fraternal.

A presença da libido tende a hierarquizar a importância das coisas do cotidiano e, uma vez que o desejo já não é reconhecido na vida do casal, é compreensível que esse clima de desencontros, silêncio e insatisfações, gere mau-humor, discórdia e ressentimentos mútuos, tornando incompatível todo e qualquer interêsse comum que um dia transformou esse homem e essa mulher, num casal.

ANGELA CORRÊA/RJ
Psicóloga-CRP:05/10053

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