O Estudo Gramatical Como Reflexão

O ESTUDO GRAMATICAL COMO REFLEXÃO

AUTOR: OTACÍLIO DO CARMO DANTAS

 

Teóricos e lingüistas da Língua Portuguesa entendem que para que o falante da língua materna se torne um exímio usuário da gramática contextualizada há de se levar em consideração o fato dele já possuir essa gramática internalizada, a  medida que vai aumentando seu grau de escolaridade, vai também tendo conhecimento das novas variantes da língua. Há necessidade do profissional do ensino da língua materna em considerar em primazia essa capacidade lingüística do falante.

 

É perfeitamente possível aprender uma língua sem conhecer os termos técnicos com os quais ela é analisada. A maior prova disso que em muitos lugares do mundo se fala sem que haja gramáticas codificadas e ensinadas. […] não há sentido ensinar  nomenclaturas a quem  não chegou a dominar habilidades de utilização corrente e não traumática da língua escrita. Isso não significa que a escolar não refletirá sobre a língua, mesmo porque  esta é uma das atividades usuais e não há razão para reprimi-la.(POSSENTI apud GERALDI, 2007, P. 54)

 

Segundo o pensamento de Antunes, 2005, p 94.

 

O conhecimento que o falante tem das regras que especificam o uso de sua língua é um conhecimento intuitivo, implícito, ou seja, não requer, em princípio que saiba explicitá-lo ou explicá-lo. No entanto, esse saber implícito a cerca do uso da língua pode ser enriquecido e ampliado com o conhecimento explícito dessas mesmas regras.

 

A educação lingüística levanta a questão de ser respeitado o saber lingüístico pré-estabelecido de cada um, o saber adquirido nas sociedades extra-escolares, dando-lhe o direito à intercomunicação social, porém, não lhe abstrai o direito de adquirir, ampliar, enriquecer seu patrimônio lingüístico inicial através do conhecimento de outras variações da língua, “enquanto a posição populista perpetua a segregação lingüística das classes subalternas, a educação lingüística deverá ajudar a sua liberação. (RAFFAELE apud BECHARA, 2000,p.12).

 

De acordo com o pensamento de Travaglia,2007, p.54.

 

Adotando a postura de que a gramática é tudo que afeta a produção de sentidos  por meio de textos da língua, com que prepara o aluno a conquista de uma melhor qualidade de vida, já que, sendo um usuário completamente da língua que sabe usar de maneira adequada o maior  número possível  de  recursos  dessa língua, terá maior mobilidade dentro da sociedade e cultura a que esta língua está vinculada,  recebendo  delas sua forma e ao mesmo tempo dando forma a esta sociedade e cultura.

 

No que se refere ao ensino da gramática, em sala de aula, discute-se que seja abolida nas séries iniciais, mas logo se reporta a uma outra questão, as provas do vestibular e os concursos públicos.

As escolas demonstram, desde as séries de base, grande preocupação em ensinar a gramática, em moldes tradicionais, com regras, visando o bom desempenho de seus alunos vestibulares e em concursos que venham a fazer. No entanto, essa atitude da escola torna-se um paradoxo, quando quem elabora as provas de português são geralmente professores de português, conhecedores das novas propostas de ensino.

Falar em “gramatiquice” não significa propor que a escola só seja “prática”, não reflita sobre questões  da língua. Seria contraditório propor esta atitude, principalmente porque se sabe que refletir sobre a língua é uma das atitudes usuais dos falantes e não há razão para reprimí-la na escola. Trata-se  apenas de reorganizar a discussão de alterar prioridade (discuti os preconceitos é certamente mais importante do que fazer análise sintática – eu disse mais importante). Além do mais se quiser analisar fotos da língua já há condições de fazer segundo critérios  bem melhores do que muitos dos utilizados atualmente pelas gramáticas  e manuais  indicados nas escolas.(POSSENTI,2007P.56)

 

Marcuschi (2001,p.87), por outro lado,relatando algumas experiências, indica atividade de retextualização, a partir de um texto oral, passa-se a outros, num processo contínuo de reescrita, tentando sempre manter as informações básicas, mas modificando o original passo a passo.

Desta forma a gramática deve ser tida como reflexo lingüístico dominado pelo falante propondo ao mesmo a possibilidade de intercomunicação e exerça sua “liberdade de expressão” através da linguagem.

Em se tratando do ensino concreto, na sala de aula, é latente ainda, a visão de que aprender português é “manipular códigos”, reproduzir o conhecimento como algo acabado em preocupação em construí-lo.

Nesse sentido, deveria a escolar inserir o aluno num mundo de construção permanente de conhecimento, para que ao invés de impor convenções lingüísticas, discuta-as e assim façam real sentido nas práxis lingüísticas.

A artificialidade em que se dá a prática lingüística – além das dificuldades internas, à própria escola -, expropriando o aluno das diversas de ver/viver a linguagem, vai deixando-o cada vez   menos  capaz de lidar com o conflituoso, o heterogêneo, não só em matéria de uso lingüístico, mas também, em ternos do que a própria vida tem de  palpitante.(SUASSUNA,2006,P58)

 

Cercear a liberdade do conhecimento gramatical construído,  impondo o “padrão” talvez não seja a melhor alternativa para que se forme  bons conhecedores  da Língua Portuguesa.

A melhor saída seria “transformar o aluno num poliglota dentro da sua própria língua (BECHARA,2000PP.14) direcionado-o a refletir sobre a língua e seu funcionamento, a decodificar modalidade lingüísticas – quer sejam elas utilizadas por classes sociais mais superiores ou não – e conseguir distinguir “desvios” dessa técnica.

Segundo Geraldi,2007,p45.

 

Uma  coisa é saber a língua, isto é, dominar as habilidades de uso da língua  em situações concretas de interação, entendendo e produzindo enunciados, percebendo as diferenças entre uma forma de expressão e outra. Outra é saber analisar uma língua dominando conceitos e metalinguagens a partir dos quais se fala sobre a língua, se apresentam suas características estruturais e de uso.

 

Como  já foi dito anteriormente, os Parâmetros Curriculares Nacionais tomaram o texto como unidade básica para o ensino da língua, propondo conteúdos organizados em uso e reflexão dessa língua. No uso estão práticas de leituras e produção de textos orais e escritas; na reflexão está a pratica de refletir a língua, sua gramática não se atenta apenas as regras normativas.

 

Tal prática de reflexão metalingüística se dá concomitantemente às atividades de uso, não se trata como se pode concluir de modo óbvio, de estabelecer a sequência costumeira de leitura, interpretação de texto e estudo de gramática que tem regulado a construção dos livros didáticos que servem de apoio ao trabalho do professor. Trata-se de atividades que ocorrem ao longo de todo ano letivo ou  melhor, ao longo de toda vida escolar, no uso da língua em diferentes  situações, sempre atreladas ao gênero e aos textos estudados, sem transformar textos e gêneros em espaços exclusivos de ensino de normas e regras.(ROJO,2002,P.95)

 

De forma intuitiva o aluno já utiliza regras gramaticais quando combina palavras nos textos, ele já tem um saber lingüísticos. O professor de Língua Portuguesa precisa, então, explorar esse conhecimento já existente no alunado ampliando-o gradativamente.

[…] o passar do tempo é um fator importante de aprendizado    lingüístico, porque implica a interação social cada vez mais complexa para o aluno que vai crescendo. Se a escola tiver um projeto de leitura, isso pressupõe que ela terá cada vez mais contato com a língua escrita, na qual se usam as formas padrão que a escola quer que ele aprenda.(GERALDI,2007,P37)

 

As regras gramaticais de uma língua tem como primazia estabelecer padrões de uso e funcionamento dessa língua, o seu valor está na sua aplicabilidade e não nas simples distinção de classes gramaticais como é ensinado nas escolas.

[…] o objeto mais pertinente e importante do ensino da língua materna seria desenvolver a competência comunicativa desse falante ou seja, possibilitar que lhe seja capaz de utilizar, de modo adequado, variedades da língua em que ele não tem competência limitada, levando-o usar cada vez um maior  número  de recursos disponíveis na língua para a produção de efeitos de sentidos e, consequentemente para a comunicação competente.(TRAVAGLIA,2007P.96)

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

GERALDI, João Wanderley. (Org.) O texto na sala de aula. 4º Ed. São Paulo: Ática, 2007.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática: Ensino Plural. 3ª Ed. São Paulo: Cortez, 2003.

 

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. 3º Ed. São Paulo: Mercado das Letras 2007.

ROJO, Roxane. (Org.) A prática da linguagem em sala de aula – praticando os PCNs. 3ª Ed. São Pulo, 2005.

SUASSUNA, Lívia. Ensino de língua portuguesa. 8ª Ed. São Paulo: Ática, 2007.