O Intelectual e a literatura medieval.

Do homem a Literatura medieval.

Quem eram estes escritores, quais as suas origens? Eles eram classificados de alguma maneira? Possuíam seu lugar bem definido dentro da sociedade medieval? Quem produzia este tipo de conhecimento?

Começaremos esboçando o perfil deste intelectual, no qual antes de assumir esta função dentro da sociedade medieval, do século XII em diante, passa por uma evolução, nos levando a pensar em como era a vida deste homem; ao falar sobre o modelo medieval de homem Jacques Le Goff afirma:

“(…) Numa época dominada e impregnada até às suas fibras mais intimas pela religião, esse modelo era, evidentemente, definido pela religião e, acima de tudo, pela mais alta expressão da ciência religiosa: a teologia. Se havia um tipo humano a se excluir do panorama do homem medieval era precisamente o do homem que não crê, o tipo que, mais tarde, se chamará libertino, livre pensador, ateu.”(LE GOFF, 1987,pg. 10)

Este é temente a Deus, antes do surgimento da universidade, os que possuíam educação a adquiriram no seio da igreja, quando possível. Na maioria das vezes, ele era totalmente iletrado, a não ser aqueles que se dedicavam a vida monástica e, assim, deveriam possuir certo nível de conhecimento que pudesse lhe oferecer maior facilidade para o aprendizado da teologia. Podemos perceber desta maneira, que o homem medieval era extremamente dependente de sua memória e que

“Muitos dos homens da idade média são analfabetos, como é o caso da grande maioria dos leigos até o século XIII. Nesse mundo de iletrados, a palavra tem uma força especial. Das pregações o homem medieval extrai noções, anedotas, instrução moral e religiosa. É certo que o texto escrito tem um grande prestigio baseado no prestigio das Sagradas Escrituras e dos clérigos, homens de escrita, (…) No entanto, o grande veículo de comunicação é a palavra.” (LE GOFF, pg. 27).

Desta forma, como podemos ver na citação acima, o homem medieval tem como ferramenta de conhecimento a palavra e sua memória, com essa oralidade ele aprende seus ofícios, transmite seus conhecimentos e conta suas histórias. Porém

“no início foram as cidades. O intelectual da Idade Média – no Ocidente – nasceu com elas. Foi com o desenvolvimento urbano ligado às funções comercial e industrial – digamos modestamente artesanal – que ele apareceu, como um desses homens de ofício que se instalavam nas cidades nas quais se impôs a divisão do trabalho.”(LE GOFF. 2003, pg. 29)

Este intelectual medieval, ligado ao renascimento das cidades no século XII, surge como uma nova classe, fugindo daquela concepção Adalbéron de Laon (aqueles que rezam, os clérigos; aqueles que protegem, os nobres; aqueles que trabalham, os servos) esta nova classificação ainda não acabaria com essa visão. Este intelectual, ainda segundo Le Goff (2003), mesmo que anuncie o intelectual dos séculos futuros, eles ainda não eram por eles próprios. Estes eram os que trabalhavam com a mente e a palavra. Homem, cujo ofício é escrever ou ensinar, e, preferencialmente, as duas coisas ao mesmo tempo. Este homem que, profissionalmente, tem uma atividade de professor e de erudito só aparecerá nas cidades dos séculos posteriores.

Considerado um Intelectual [1], isso significa algo que se avalia mais precioso e elevado do que o seu contrário; indica uma qualidade indiscutivelmente positiva, que assumindo o seu papel de pensador buscará na antiguidade Aristóteles, – considerado por muitos historiadores o filosofo da idade média – e ele será o filosofo escolhido para ser aquele que poderá responder as questões colocadas por eles. Este homem, no qual Aristóteles define como sendo um Homem racional, assume diversas características. O mestre (magister) exprime por diversas vezes uma qualidade de ascensão moral e dignidade indiscutível, já o termo professor implica em certa ironia, no qual ele teria a presunção e a arrogância de certas personagens que confiam elevadamente no seu saber (BROCCHIERI, 1987, pg.126).

Erudito e douto são termos mais neutros, pois estes indicam um tom mais imparcial, no qual são eles os que estudaram e acumularam conhecimento nos livros. Filosofo é menos significativo quando pensamos em relação aos anteriores, pois este termo nos leva a pensar em uma leve laicização de quem estuda, sendo que Filósofos são, sobretudo, os antigos; ainda que algumas personagens da época assumissem esta nomenclatura para si.

Letrados era a designação para a categoria mais vasta, e, essencialmente, a menos precisa. Já que eram letrados todos aqueles que sabiam ler e escrever e dominavam o universo das palavras. Já iletrados eram a maioria na sociedade, já que este termo era utilizado para aqueles que não sabiam ler ou escrever, ou ainda, para aqueles que não possuíam o domínio sobre o latim.

A partir do século XII será na cidade onde estes conflitos irão ser percebidos. Pois ela se torna um lugar de convergência, de encontro, e, sobretudo, de produtora de conhecimento. É na cidade que os intelectuais se sentem a vontade para exercer a sua função. As estruturas da vida citadina eram, agora, regidas por um trabalho especializado e subdividido. O ensino, que, a partir do concilio de Latrão (1179) estabelece que cada capítulo de catedral tem o dever de possuir uma escola (BROCCHIERI, pg.128).

A partir dessa decisão o mercador, o comerciante, o artesão, também podem ter acesso a educação, nestes casos, principalmente de seus filhos, estes estudantes não estão mais ligados diretamente com a igreja, tornando possível o surgimento daqueles que venderão seu trabalho intelectual.

São

“(…) Os intelectuais do século XII, nesse cenário urbano que se constrói, no qual tudo circula e muda, repõem em marcha a máquina da história e definem antes de tudo sua missão no tempo: Veritas, filia temporis (‘Verdade, filha do tempo’) (…). (LE GOFF,p 33)

Neste contexto veremos os intelectuais renascentistas aparecerem, e, dentre eles, François Rabelais terá uma grande contribuição, pois sua obra virá para satirizar todos os costumes desta sociedade que avança nessa “marcha”.

Passemos agora a pensar em como a literatura medieval se constituía. Dos séculos III a X, após a invasão dos bárbaros germânicos, a Europa se isola, e a Igreja Católica começa a controlar a produção cultural. O latim e a civilização latina são preservados pelos monges em seus mosteiros, que eram a maioria que sabia ler e escrever, mantendo uma cultura escrita. Faziam por excelência uma literatura hagiográfica narrando as mais diversas histórias dos santos. No período pós-caorlíngio, a escassa produção literária no domínio românico, assinala-se pelos relatos e cantos épicos dos povos nórdicos, em sua maioria eram as: Eddas poemas da Islândia a volta dos feito dos deuses do paganismo germânico, principalmente a Odin, Thor, Balder, Fulla, Idun e as Valquirias, poemas escáldicos, compostos pelos escaldos, em sua maioria islandeses, faziam derivar a primitiva temática divina dos eddas para o louvor das gestas dos reis e chefes guerreiros e sagas, narrativas em verso ou prosa, de interesse capital para a primitiva história dos povos nórdicos; surgem a partir do século X.(SPINA, 1997, pg.70).

Em 910 surge a ordem religiosa de Cluny que inicia a reforma do clero regular; com a expansão da ordem, verifica-se a expansão da arquitetura românica, cobrindo as igrejas do ocidente. A partir do século X começam a surgir poemas, principalmente narrando guerras e fatos de heroísmo.

No Século XI e XII surgem as Canções de Gesta e as Lendas Arturianas, narrativas anônimas, de tradição oral, que contam aventuras de guerra vividas nos séculos VIII e IX, período do Império Carolíngio. A mais conhecida é a Chanson de Roland (Canção de Rolando) surgida por volta de 1100. Quanto à prosa desenvolvida na Idade Média, destacam-se as novelas de cavalaria, como as que contam as aventuras em busca do Santo Graal e as lendas do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda. Neste período a cavalaria feudal, nascida no período carolíngio, acaba de cumprir seu papel contra os povos invasores, sua transformação torna-se quase que obrigatória e urgente. A humanização desta se baseia principalmente, na criação da “cavalaria cristã” pelos os monges da ordem de Cluny, sendo que, eram os cavaleiros guerreiros que iriam para as cruzadas, no qual é deste período que temos os primeiros relatos sobre estas cruzadas. Neste século ainda vemos florescer uma literatura piedosa (em latim), de fundo marial, à base de pequenos contos e lendas inspirados nas intervenções salvadoras da Virgem Maria (SPINA, pg. 89).

O século XII é denominado ainda como o segundo renascimento, o primeiro fora o Carolíngio. É deste período que existem os primeiros relatos dos regressos aos autores da antiguidade clássica, tendo como principal Ovídio enchendo este século e o seguinte com seus casos de amor (Heróides), e das narrações didático-épicas cheias de prodígios (Metamorfoses) (SPINA, pg. 77). É o período histórico do trovadorismo e das poesias líricas palacianas, onde Ovídio se fazia presente. O amor impossível e platônico transforma o trovador num vassalo da mulher amada, exemplo do amor cortês. Neste período, também foi comum o poema satírico, representado pelas cantigas de escárnio e de maldizer. Vemos surgir ainda as primeiras literaturas em língua vulgar.  Esta literatura se faz presente desde o final do século XII ao XIV.

No fim do século XIV e inicio do XV surge o humanismo, no qual o homem passa a ser mais valorizado. Período marcado por grandes pestes e um forte declínio de população, na literatura mantém-se as características religiosas, mas nela já se podem ver possibilidades que serão desenvolvidas no Renascimento, como a retomada de ideais da cultura greco-romana. Na Itália, podemos destacar: Dante Alighieri Comédia, Giovanni Bocaccio e Francesco Petrarca.

Neste contexto a

“ evolução de conjunto da literatura marca uma lenta emergência das representações do individuo. A poesia abre espaço à expressão de uma consciência solitária, a um lirismo mais ‘individualizado’ que parece perder as marcas dos topoi utilizados à vontade pelos trovadores e pelos troveiros. Quanto à literatura de testemunho, memórias e crônicas revelam a viva preocupação de colocar o autor em cena por meio de marcas de enunciação que pretendem afastar a neutralidade do discurso” (RÉGNIER-BOHLER, 1990, pg. 314).

Desta forma ao fazermos este levantamento histórico, podemos perceber como a evolução da literatura no medievo no levaria a um século XVI cheio de inovações técnicas, sendo que foi na idade média onde se começou a utilizar mais as fontes dos antigos. Veremos que François Rabelais se inspirou principalmente nas obras de Luciano. Entretanto, estamos falando de uma nova utilização dos antigos clássicos e “não-classicos”, mas que, aos olhos do homem da época é algo completamente novo, moderno. A partir do legado da tardia Antigüidade latina, a Idade Média adotou e transformou seus elementos, construindo uma imagem própria dos antigos.

Como uma breve conclusão deste levantamento sobre a literatura medieval, gostaríamos de lembrar que a

“literatura sabe dar vida: de um lugar ao outro, de um conflito às conciliações, a literatura preenche o que em aparência apagara. Sob a forma de roteiros fantasmáticos, ela sugere uma avaliação extremamente sensível das relações do indivíduo e do coletivo, é a matriz de suas oscilantes e utópicas fronteiras: do espaço coletivo, com efeito, o indivíduo pode ser excluído e banido; pode também dele excluir-se para arraigar-se, voluntariamente, em um espaço reservado; ele poderá – no próprio seio do espaço e dos valores comunitários – buscar verdades ‘privadas’. (RÉGNIER-BOHLER, pg. 313).

BIBLIOGRAFIA.

RÉGNIER-BOHLER, Danielle. “Exploração de uma Literatura”. In: História da Vida Privada. Da Europa Feudal a Renascença. Coleção dirigida por Philippe Áries e George Duby. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

BROCCHIERI, Mariateresa Fumagalli Beonio. “O intelectual”. In: O Homem Medieval. Direção de Jacques Le Goff. Lisboa: Editorial Presença, 1987.

LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

SPINA, Segismundo. A Cultura Literária Medieval. São Caetano do Sul: Ateliê Editorial, 1997

RABELAIS, François. Gargantua. Rio de Janeiro: Ediouro, 1989.

GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais. Sinais: raízes de um paradigma indiciário. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

FEBVRE, Lucien. Conferência realizada na faculdade de filosofia e ciências sociais na Universidade de São Paulo em 2 de setembro de 1949.


[1] Intelectual: esta palavra assume aqui a conotação que foi dada a ela na França do século XIX.

[2] FEBVRE, Lucien. Conferência realizada na faculdade de filosofia e ciências sociais na Universidade de São Paulo em 2 de setembro de 1949. Pg. 8.