O trânsito nosso de cada dia

O assunto tornou-se recorrente em nossos jornais, rádios e televisões. De repente, descobrimos veículos demais e ruas e avenidas de menos em nossa cidade. O problema se agrava no quadrilátero central de Ribeirão Preto, embora, em horas de pico, as avenidas, que deveriam escoar com facilidade os veículos, fiquem congestionadas. Surge, então, a busca de soluções heróicas: proibir a venda de veículos, impedir o trânsito ou instituir pedágio para adentrar ao centro, rodízio. Para começarmos a entender e a resolver o problema é preciso procurar a sua causa.

Nos últimos 16 anos, o Brasil passou por uma revolução, que rompeu círculos viciosos do passado. FHC ensinou-nos que é possível viver com inflação controlada, o pior dos confiscos, que prioriza os ricos em detrimento dos que têm menos. Com as políticas sociais do governo Lula, o emprego cresceu, a renda se alastrou e milhões de brasileiros ascenderam à classe imediatamente acima de onde estavam.

Restabelecida a confiança no futuro e baseada na oferta abundante de crédito a longo prazo, as vendas estouraram, dentre elas a de veículos, estas com oferta de crédito subsidiado pelos bancos das montadoras. E o automóvel, a moto, que permaneciam no sonho de milhões de brasileiros, passaram a ser possíveis. É preciso deixar claro que o automóvel e a moto de hoje não são mais símbolos de status, mas objetos de trabalho, como é o nosso telefone celular.

Nossa eficiência e produtividade dependem da nossa mobilidade. Muito se fala do transporte de massa, sem dúvida, a grande solução para os congestionamentos. Entretanto, nos anos de círculos viciosos, os governos nada fizeram para prever as suas necessidades, embora recolhessem gordos impostos, criados para solucionar ou minimizar o problema, condenando o transporte coletivo a ser alternativa somente para os que não têm condição econômica de adquirir um veículo.

Vejam, por exemplo, nossa cidade. A rede de transportes urbanos é, na sua maioria, constituída de linhas bairro/centro/bairro, não havendo linhas circulares convenientes. Os que compram veículos desejam se ver livres de tomar vários ônibus para atingir seu destino, permitindo mobilidade rápida e eficiente. Na nossa realidade, se o cidadão pula de classe ele procura se ver livre do transporte coletivo.

Não é assim em outras cidades, de outros países, onde o transporte coletivo, constituído de trens, metrôs, ônibus e veículos rápidos de superfície, colocam o usuário onde ele deseja ir, sem grandes complicações. Nestas, é mais fácil se deslocar por estes meios de transporte que com o veículo particular. Em Manhattan, por exemplo, formada por edifícios dos anos 1930, sem garagens, é caríssimo estacionar. É mais barato e rápido usar o transporte público, o que é feito por seus habitantes, que dificilmente possuem veículos próprios, alugando-os quando necessário. É mais barato. Mas o transporte público é eficiente. Isto se repete em Londres, Paris, Tóquio.

Mas, se estamos tão distantes do progresso destas cidades, não temos solução, senão aguentar nosso problema? Penso que temos de agir em dois tempos.

Um deles é começar, imediatamente, um planejamento sério das necessidades de nossa cidade para os próximos 25 anos, a fim de que os bairros que crescem velozmente possam prever ruas e avenidas muito mais largas, infraestrutura moderna e à frente de nosso tempo, novos modelos de convivência, onde houvesse setor residencial, comercial e de serviços desenvolvidos de maneira integrada, de tal sorte que se criassem bairros autossuficientes.

É necessário, imediatamente, contratar profissionais competentes e com vasta experiência, para não só ajudarem neste planejamento, mas para pensarem soluções de curto prazo. Jaime Lerner, por exemplo, ex-prefeito de Curitiba, leva sua expertise e competência para várias cidades de outros países. Por que não contratá-lo para fazer um estudo de nossa cidade? Além dele, há vários profissionais de urbanismo com a mesma seriedade e capacidade.

Mas planejamento requer tempo. O que fazer para a nossa realidade de hoje? De novo o assunto é para especialistas, que devem recolher e processar idéias e sugestões, trabalhá-las com sua experiência e vivência e apontar propostas a serem aprovadas pelo poder político, no caso nossa prefeita.

Tomo a liberdade de dar as minhas sugestões. Não sou especialista em trânsito, mas elas refletem o pensamento de quem enfrenta nossos problemas do dia a dia. Submeto-as à apreciação e à crítica dos entendidos.

A primeira delas: o nosso quadrilátero central é “imexível”, ou seja, não há – e muito dificilmente haverá – recursos para desapropriações que aumentem suas ruas. Seu formato de tabuleiro é um complicador. Além disto, permite-se o estacionamento dos dois lados em várias de suas ruas, “enfartando” a fluidez do trânsito.

Lembro-me de visita que fiz a Nüremberg, na Alemanha. A cidade foi praticamente destruída na 2ª Guerra Mundial, exceto o centro histórico, do tamanho do nosso quadrilátero. A prefeitura da cidade permitiu à iniciativa privada a construção de edifícios-garagens, em locais de fácil acesso e que não ficam há mais de 600m de qualquer ponto do centro. Inauguradas as garagens, a prefeitura proibiu o estacionamento em muitas das ruas centrais e impediu o tráfego em várias outras. Ir ao centro de Nüremberg, hoje, é fácil e agradável, sem demoras, problemas, congestionamentos, conflitos entre veículos e pedestres.

Em nossa cidade há várias praças no quadrilátero: Catedral, Bandeira, Tiradentes, Sete de Setembro, Camões, onde se poderiam construir garagens subterrâneas, o que permitiria proibir o estacionamento em outros locais. É obvio que haveria necessidade de prover as ruas com dispositivos que priorizassem o pedestre – há várias e modernas soluções para isto, eficientes e que embelezariam o centro.

Outra providência seria darmos um upgrade em nossos transportes coletivos, criando linhas que tenham traçado circular, ligando as nossas radiais. E como é preciso atrair mais usuários, oferecendo-lhes motivo para que usem o transporte público, por que não criar linhas especiais, com veículos com ar condicionado e roteiros diferenciados?

Também não podemos nos esquecer que está na hora de pensarmos no metrô de Ribeirão Preto, que pode muito bem ser de superfície (atenção: não deixem tirar os trilhos das regiões Norte e Oeste, que poderão ser usados neste transporte), em forma de trem ou de veículo leve sobre trilhos ou um misto dos dois. Há verbas federais para este tipo de solução.

Finalmente, há a possibilidade imediata de criarmos corredores de ônibus, o que facilitaria a vida de quem depende do transporte coletivo e selecionaria a movimentação dos enormes ônibus de nossa cidade. Outra vez, vale a experiência de Jaime Lerner em Curitiba.

Mas, acima de tudo, é preciso contratar urbanistas competentes, especialistas em trânsito de gabarito internacional, para a solução de nossos problemas. Nossa cidade, capital do agronegócio, destacando-se como metrópole regional, merece ter um planejamento à altura de suas necessidades. Sei que, politicamente, planejar para tão longe não é atraente. Mas os tempos mudaram e nossos administradores públicos serão julgados pelos atos imediatos e pelos preparativos que deixaram para tornar Ribeirão Preto uma cidade realmente de Primeiro Mundo. Infelizmente, estamos longe. Nossa atual prefeita tem visão para dar este passo.

Rui Flávio Chúfalo Guião, presidente da Acirp entre 1984 e 1986, é presidente do Grupo Santa Emília Automóveis.