Petróleo: energia beligerante

Vivemos o império do petróleo e do dinheiro – o resto é disfarce.
José Saramago

O planeta divide-se em países produtores e não produtores de petróleo, os que possuem e não têm meios de utilizá-lo em sua plenitude, os que têm força para obtê-lo e os que vivem sob pressão de fornecê-lo. O petróleo faz a pobreza e a miséria de nações africanas, a riqueza do mundo árabe e, paradoxalmente, representa o poderio e a extrema vulnerabilidade dos Estados Unidos. É o principal vilão do aquecimento global e da devastação ambiental que se abateu sobre o planeta no último século.

Por volta de 75% do petróleo mundial pertencem e são controlados por governos ou companhias nacionais de petróleo, e o restante é explorado em regime de concessão ou partilha. A indústria do petróleo e a indústria do transporte a motor andam historicamente de mãos dadas, e juntas formam o grande motor do desenvolvimento do mundo capitalista.

Um barril de petróleo contém 159 litros e energia equivalente a 20 mil horas de trabalho humano (dez anos de 250 dias de 8 horas de trabalho por dia), ou seja, é um produto com extraordinário e ímpar potencial energético. A indústria petrolífera, apesar de intensiva em uso de capital, cria poucos empregos para a população nos locais onde se explora o produto.

Apesar de o petróleo ser indispensável à economia global e de o tempo para substituí-lo ser completamente incerto, seu uso contínuo impõe custos e riscos inaceitáveis, expõe o mundo a diversas vulnerabilidades, com ameaça à segurança econômica, civil e climática. A participação do petróleo em matrizes energéticas só tem caído mediante choque de preços ou graves crises de recessão mundial, e a resposta mais imediata tem sido sempre a retomada de espaço pelo carvão, o que só prejudica o meio ambiente.

A descoberta dos combustíveis fósseis foi a mola propulsora de economias tão desenvolvidas e globalizadas. Por volta de 87% da energia consumida no mundo advém desses combustíveis, a saber: 41% do petróleo, 22% do carvão e 24% do gás natural. Dos restantes 13%, 8% são energias renováveis (biomassa, eólica, solar, geotérmica), e 7% energia nuclear.

O século XX deve ser denominado de século do petróleo, ou civilização do petróleo. Por entre toda uma teia de complexidade que envolve os negócios do petróleo, está a grande e insofismável verdade: petróleo significa hegemonia, e a busca de hegemonia exercida por homens, empresas e países retrata o símbolo do progresso humano. Petróleo significa concentração de poder e riqueza e gera força e hegemonia política, supremacia, superioridade e preponderância, nas privilegiadas mãos de seus poucos detentores. Porém, petróleo significa também ameaça à segurança global, porque é finito e ainda não se desenvolveu um sucessor efetivo, que possua o seu mesmo grau de eficiência.

Países e empresas buscam distorcer os números sobre o ouro negro, fundamentados em nomenclaturas como reservas ativas, inativas, possíveis, inferidas, não descobertas, pois petróleo é dinheiro em caixa, um banco no subsolo, impossível de sofrer auditagem. Projeções são utilizadas com fins comerciais e políticos.

A segurança energética é um dos mais importantes pilares do crescimento sustentável e da independência econômica de uma nação. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o petróleo é a principal fonte de energia primária da matriz energética do planeta e continuará a ser ainda por muitas décadas. Propiciou um dos maiores volumes de transferência de recursos financeiros entre nações em toda a história da humanidade, os chamados petrodólares. Enriqueceu os poucos países exportadores que utilizaram de forma correta esses recursos e endividou e comprometeu o crescimento econômico de muitos importadores.

O poder político mundial já percebeu que se vive um momento revolucionário de ruptura tecnológica e diversificação da base energética, para não depender do humor de países com regimes politicamente instáveis e comandados por líderes autocráticos e oportunistas.

A tendência de a riqueza de recursos minerais sustentar corrupção e conflitos é frequentemente encorajada por corporações que agem com o conhecimento e conluio de governos nacionais. Medidas adotadas para assegurar o acesso e a extração de recursos minerais via de regra restringem a ordem civil, os direitos de comunidades, pilham e envenenam as terras tradicionais e implantam uma tirania.

O poder político impede a implantação e a preservação da democracia, à medida do uso da riqueza mineral para baixar impostos, aumentar gastos e perpetuar-se no poder. Quando esse mecanismo não funciona, mobilizam-se forças de segurança para suprimir dissidências. Guerras, violência, explosões políticas, embargos econômicos, conflitos étnicos, religiosos, sociais ou ideológicos, enfim, quaisquer situações de riscos locais ou globais já tiveram e podem ainda ter o petróleo e sua complexa e organizada gama de agentes como o definidor principal dessas contendas. A distribuição desigual das reservas, em conjunção com incertezas sobre o futuro de novas descobertas e da cotação de preços do petróleo no mercado internacional, constrói um cenário não propício ao desenvolvimento econômico consistente e sustentável de uma nação: é a tirania do petróleo.

Parece que a benção do petróleo traz também maldições, talvez por não se originar na infinitude dos céus, mas sim das profundezas finitas da crosta terrestre. Denomina-se esse paradoxo como a negatividade do recurso mineral ou a maldição do petróleo.

Uma economia excessivamente dependente das exportações petrolíferas tende a abandonar investimentos no desenvolvimento de outros setores econômicos, como agricultura e produção manufatureira, em um processo que ficou conhecido como mal holandês. Para que se aproveite corretamente a riqueza abundante do petróleo na época de vacas gordas e se mantenha distante de sua negatividade, devem-se criar mecanismos para que os recursos cheguem à população; estimular a prestação transparente de contas públicas e privadas; fazer planejamento econômico de longo prazo; diversificar a economia local; e criar fundos de reserva para investimentos futuros em infraestrutura e projetos sociais.

Novas tecnologias de exploração e novos métodos de perfuração auxiliam a encontrar petróleo em locais antes descartados. De acordo com especialistas o pico mundial de descobertas de petróleo bruto ocorrerá dentro de 10 a 15 anos. Ou seja, não há muito tempo para se desenvolver comercialmente energias alternativas limpas e renováveis – como a solar, dos ventos, geotérmica, das marés entre outras.

A civilização baseada no petróleo, o mais bem-sucedido regime energético de toda história humana, está chegando ao limiar de uma virada. Três forças convergem rapidamente e forçam a sociedade a tomar decisões sobre quais métodos adotar para garantir seu futuro: iminente pico global na produção de petróleo; concentração das reservas remanescentes no Oriente Médio; aquecimento progressivo da atmosfera mundial.

Movimentos em prol da preservação ambiental crescem por todo o mundo, e os princípios básicos da sociedade industrial são cada vez mais contestados. A indústria petrolífera, que produziu extraordinários avanços tecnológicos e contribuiu para a formação do mundo moderno, está no topo da lista dos setores que são mais criticados, contestados e investigados. Ganha força pelo planeta ações diversas e esforços múltiplos no sentido de reduzir a queima de todos os combustíveis fósseis, por causarem poluição atmosférica, chuva ácida, destruição da camada de ozônio e aquecimento global, entre outros graves danos ambientais. Mas a civilização dos hidrocarbonetos resiste a abrir mão das inúmeras comodidades proporcionadas ao modo capitalista de viver.

Os sinais de alerta ecoam por todos os lados, vive-se a era do crepúsculo do petróleo. Há tempo para corrigir os rumos, encontrar substitutos e evitar uma crise energética verdadeiramente global, mas o colapso gradual da energia fóssil é uma
realidade. Dos cerca de 2 trilhões de barris que o planeta detinha originalmente, já se exploraram de 45 a 70%. Restam aproximadamente 1,2 trilhão de barris a explorar, suficientes para apenas cinquenta anos de consumo.

Com o prenúncio do ocaso do petróleo convencional, em um cenário de elevação contínua e acelerada de preços, haverá em um primeiro estágio a migração para o petróleo não convencional, carvão, areia de alcatrão, óleo pesado e óleo de xisto, e a utilização dos últimos estoques de petróleo convencional para fins mais nobres que combustíveis.

O Brasil desponta como um país privilegiado no complexo cenário do mundo petrolífero, com seus intrincados conflitos de interesse. Passa a ter grandes reservas com a descoberta do petróleo do pré-sal, possui alta tecnologia em petróleo, base industrial diversificada, grande mercado consumidor e estabilidade institucional e jurídica. Estimativas apontam que a camada de pré-sal, no total, pode abrigar algo próximo entre 100 e 150 bilhões de barris de óleo equivalente em reservas, o que colocaria o Brasil entre os dez maiores produtores do mundo. Além disso, a matriz energética brasileira é extremamente limpa, composta em 45 % por energias renováveis, lastreada em fontes hidrelétricas e de biomassa (cana-de açúcar e oleaginosas).

Todos os seres humanos estão interligados e são interdependentes em relação à geoquímica do planeta. Dessa forma, deve-se agir combinando visão holística e reducionista, ou seja, pensar globalmente e agir localmente. O nível de oxigênio do planeta, mantido pela fotossíntese, é de 21%, e um aumento de apenas 1% nesse nível aumentaria a possibilidade de incêndios em 70%. É provável que um acréscimo de 4% envolveria todo o planeta em chamas3. Daí a importância de entender a dinâmica da Terra para atuar de forma a manter o equilíbrio no habitat em que se vive.

Provavelmente demore séculos para que se atinja o total esgotamento da produção e o uso dos combustíveis fósseis, mas, de tempos em tempos na história da humanidade, ciclos e eras de poder econômico se sucedem. Assim como ocorreu com os ciclos do ouro, das especiarias e do açúcar, a era da civilização do petróleo está no fim, independentemente de seu esgotamento, mas em especial pelos danos ambientais que causa ao planeta. O mundo ainda é escravizado pelos combustíveis fósseis.

A busca de um novo caminho energético passa pelo alerta às autoridades e à população em geral de que: a poluição gerada por combustíveis fósseis compromete para pior o clima do planeta; o petróleo está se esgotando; há tempo para fazer uma transição sem traumas para fontes de energia renováveis e não poluentes; um dos caminhos para a substituição dos combustíveis de origem fóssil é a energia proveniente da biomassa; o álcool combustível e o biodiesel substituem a gasolina e o diesel com grande eficiência e menor poluição.

O desfecho é atualmente difícil de prever, mas a civilização complexa e centralizada dos combustíveis fósseis, a economia do carbono, encontra-se sitiada e sujeita a processos disruptivos, com um final imprevisível. Segundo o xeque Yamani, ex-ministro do petróleo da Arábia Saudita, “a idade da pedra acabou não por falta de pedra”, ou seja, a era do petróleo está em seu ocaso e um novo regime energético limpo e sustentável já está em implantação de forma lenta, gradual e silenciosa por todo o planeta. Seu formato final é de difícil previsão, só não é difícil atestar que os dias de energias de alto carbono estão devidamente contados.

Fonte: Rodnei Vecchia