Prosperidade sem crescimento econômico

Prosperidade sem crescimento econômico

A prosperidade é a melhor protetora dos princípios.

Mark Twain

Recentemente, o inglês Tim Jackson, matemático, filósofo e professor de desenvolvimento sustentável da Universidade de Surrey, em Londres, lançou o livro “Prosperidade sem Crescimento: economia para um planeta finito”, obra ainda sem tradução para o português. A obra gerou grande impacto e explora a dependência da sociedade ao crescimento econômico. Demonstra que crescimento não é a mesma coisa que prosperidade e alerta que as taxas atuais de crescimento não podem se manter caso se queira permanecer dentro dos limites ambientais de um único planeta.

O autor discute a ideia de empresa ecológica, que utiliza recursos de forma eficiente, e cujas atividades possam criar empregos, apoiar comunidades e contribuir para a prosperidade humana. Para quem se interessa pelo tema, é um livro imperdível. A seguir, discorre-se sobre algumas das principais idéias do autor.

Uma economia sadia deve crescer, mas antes tem que primar pela busca de um modelo de crescimento qualitativo e não quantitativo descartável, que produz mais desigualdade social e danos ambientais.  É hora, pois, de trocar velhos paradigmas por uma nova visão de mundo.

Para compreender melhor a dinâmica do sistema capitalista de crescimento econômico, pode-se resumir seu funcionamento com base em um fluxo circular da economia, ou seja, a movimentação financeira gerada pelo ganho da renda familiar e venda de produtos e serviços e investimentos estimulam o crescimento do consumo ao forçar o crescimento contínuo da produtividade, que baixa os preços e motiva a todos a buscar novidades, consumir mais e realimentar um processo de destruição criativa.

O ser humano tem certo apetite por novidades. Adora coisas materiais novas, novas ideias, novas aventuras, novas experiências. E esse desejo por consumir novidades, aliado ao status que isso representa, cria um sistema que liga estruturas econômicas a uma lógica social, fazendo com que o motor econômico funcione a todo vapor, movendo não apenas economias, mas também utilizando recursos materiais incessantemente e gerando a tensão ambiental que hoje se vivencia.

A materialidade do apetite por novidades opera com uma linguagem simbólica de bens de consumo, que vai ao encontro da ansiedade da sociedade humana. Empresas investem em novidades para continuar a expansão de mercados consumidores, criando um sistema perverso de criatividade destruidora, por meio de um ciclo de constante crescimento produtivo. A justificativa para tudo isso é manter a ânsia e apetite humanos insaciáveis por consumir, não apenas itens necessários mas também o supérfluo, para ostentação.

Mesmo quem não queira comprar alguma novidade, precisa fazê-lo para não quebrar todo o sistema. E para que isso aconteça é oferecida às pessoas uma vasta quantia em crédito e débito, o que tem feito com que as poupanças despenquem e as dividas aumentem.

É uma história perversa do ser humano, sendo continuamente persuadido a gastar dinheiro que não tem, com coisas que não precisa, para criar impressões que não duram, em pessoas que pouca importância tem em sua vida. Em resumo: eu sou porque nós somos!

Faz-se necessário criar uma macroeconomia para a sustentabilidade, que reconheça os graves limites naturais à expansão das atividades econômicas e rompa com essa lógica social do consumismo. Empresas diferentes formadas por consumidores diferentes, para uma nova economia.

As empresas devem ter como foco interesses ambientais e comunitários e investir na proteção e cuidado com os ativos ecológicos e o bem estar humano, dos quais depende o futuro longevo. O investimento tem que ser algo diferente: tratar de uma transição de modelo, investir em tecnologias e infraestrutura de baixa emissão de carbono e prover capacidades para que as pessoas tenham qualidade de vida, prosperem e sejam felizes.

Por fim, Tim Jackson diz que a prosperidade das sociedades terá não apenas dimensões materiais, mas também objetivos sociais e psicológicos: família, amizades, compromissos e participação ativa na sociedade local. Essas interações ocorrem em lugares onde se possa conectar-se, como praças, parques, jardins, bibliotecas, museus. Deve-se, então, fazer investimentos nesses locais para torná-los atraentes, aprazíveis e seguros.