Resenha. “O Monge de Cister”, Alexandre Herculano.

O Monge de Cister ou A Época de D. João I. Alexandre Herculano, Ed.Tecnoprint S.A. São Paulo, 1965.

“Se não perdoardes, também Deus vos não perdoará”.

(Alexandre Herculano, “O Monge de Cister”).

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa, em 28 de Março de 1810, e faleceu no ano de 1877.  Poeta, romancista, historiador e crítico, um dos introdutores e guias do Romantismo português. Homem de lúcida visão crítica e participação ativa nas lutas políticas de seu tempo. Na sua infância e adolescência não pode ter deixado de ser profundamente marcado pelos dramáticos acontecimentos da sua época.

Herculano foi o iniciador do romance histórico em Portugal. Fez reviver em dezenas de obras as velhas tradições do seu país e todo o pitoresco da vida medieval portuguesa. Herculano soube relacionar a história com a imaginação sem que uma destruísse a outra. Os seus romances retratam épocas de particular interesse para a escola romântica, como o domínio árabe, a fundação da nacionalidade e a consolidação da sua independência no tempo de D. João I. São fidelíssimos em conservar a histórica e o local dos acontecimentos narrados: exatidão de vestuário, de armas, de costumes, de interiores e exteriores, de leis, de arquitetura, etc.

O romance histórico Monge de Cister de Alexandre Herculano, transcorre no século XIV, no ano de 1383, nesta obra Herculano historiador e prosador notável, soube como ninguém desdobrar com extrema habilidade as intrigas do reinado de D. João I.  A excelente construção romanesca gira em torno do Frei Vasco, da ordem dos Frades Bernardos, um cavaleiro que se faz monge, mas em que o hábito não apagou os sentimentos de ódio e vingança. Neste romance o autor reconstitui a história de Portugal, as intrigas políticas da corte, desde as lutas da reconquista do território até o final da Idade Média. Neste período o poder real ou estatal começa a se fortalecer, com o apoio das forças produtivas do país, constituídas pelo povo e pela burguesia.

O protagonista do romance é Vasco da Silva, um cisterciense, robusto, cavaleiro de Cristo, jovem mancebo de vinte e poucos anos, cabelo negro e crespo. Que após o falecimento de seu pai o Senhor Vasqueanes, descobre que sua irmã Beatriz havia fugido com D. Vivaldo (Fernando Afonso) um sedutor infame, desde então o Senhor Vasqueanes é acometido por uma tristeza que o leva a morte, mas antes de sua morte, seu pai  nutre um sentimento de vingança que é herdado por seu filho Vasco. Este sentimento de vingança se torna ainda maior quando Vasco descobre que sua amada e prometida Leonor, por desejo de seu pai Mem Viegas, casa-se com Lopo Mendes, considerado por seu pai Viegas, o genro mais rico e mais nobre que Vasco.

No desenrolar do romance, o autor faz um elo entre a ficção e o contexto histórico, narra a trama de forma despretensiosa, como se estivesse vendo os acontecimentos em todas as suas épocas e acompanhando todos os personagens, episódios políticos e sociais são inseridos, o autor cita os abusos da nobreza e do clero e a vontade do povo em amortecê-los ou anularem esses abusos, cita também o sistema de contribuições, que se estabeleceu definitivamente no reinado de D. João I, onde as rendas e tributos eram convertidos em patrimônio para a corte real.   O autor narra a história das conquistas de Portugal com riqueza de detalhes, descreve o estilo de vida tipicamente medieval, desde uma estrutura feudal até a conquista de uma nação moderna.

O autor sutilmente discute sobre o problema do perdão, que mesmo que inconscientemente reflete o íntimo de todos. Ao encontrar Lopo Mendes, o qual casara com sua amada, o cavaleiro totalmente tomado por sentimento de ódio e vingança não teve misericórdia de seu rival, matando-o friamente com duas punhaladas no peito. Embora Vasco tenha realizado seu desejo de vingança, agora esse sentimento se misturava ao sentimento de remorso, que tomara a alma do cavaleiro. Vasco sentiu-se ainda mais traído e miserável ao ver sua amada chorar a morte de seu marido. Neste momento o jovem tem a alma crivada de remorso e angústia e assim entrega sua vida ao sacerdócio, buscando consolação e perdão.

Neste momento é possível constatar que o autor mostra que a busca pelo perdão pode ser feita de forma superficial, uma espécie de fuga daquela situação incômoda, mas que no seu mais íntimo esse sentimento esta longe de se concretizar. Neste momento o autor leva o leitor a uma reflexão sobre conceitos morais e religiosos, extremamente sutis e delicados.

A dolorosa narrativa das desventuras de Vasco agora segue na companhia de Frei Lourenço o “Mestre da Teologia”, o qual entrega seu punhal e recebe conforto e apoio espiritual. Nas suas peregrinações ambos sem saber encontram a irmã de Vasco, que encontrava-se moribunda e abandonada, ao confessar-se com  Frei Lourenço ele descobre que aquela mulher na verdade era a irmã de Vasco e que o infame que havia seduzido e abandonado-a era Fernando Afonso. Após saber que aquela pobre mulher era sua irmã, Vasco é tomado por um imenso ódio e decide matá-la, mas é contido pelo Frei Lourenço.

Em um cuidadoso e inteligente trabalho, Herculano insere na história D. João Dornelas, abade de Alcobaça, que mais tarde terá um papel fundamental nas decisões de Vasco. O cavaleiro conta toda a sua angústia a D. João Dornelas, que decide vingá-lo principalmente por Fernando Afonso ser seu inimigo mortal de longa data. Mesmo vestindo o hábito cisterciense, o moço cavaleiro nas trevas de sua alma ainda penetra um raio de vingança.

No decorrer do romance os sentimentos de piedade e vingança vão de encontro em cada capítulo da obra, o autor procura expor questões morais, conceitos religiosos e os impulsos mais ardentes da natureza humana. No leito de sua morte, a irmã de Vasco suplica misericórdia de Fernando Afonso, mas Vasco deseja do fundo de seu ser que o infame suplique perdão por toda a maldade causada a Beatriz. Mesmo com seu coração tomado pelo  ódio, Frei Vasco faz juramento a sua irmã. Ao saber da decisão de Vasco D. João Dornelas decide revelar que Fernando Afonso também teria sido amante de sua amada Leonor.

Diante da atual situação é possível constatar que o autor pretende confrontar um duplo desiderato, ou seja o desejo de vingança fraternal e vingança amorosa. Que mesmo diante das súplicas de perdão de seu inimigo na presença do cadáver de sua irmã, não obstante sua ideia fixa de vigar-se daquele que feriu-lhe a alma e a honra de seu pai e de sua irmã, incentivado pelo ódio de D. João Dornelas, Vasco revela ao Rei D. João I o passado tenebroso e maléfico de Fernando Afonso, o qual é condenado ao suplício do fogo por D. João I, sendo antes mortificado por Fr. Vasco.

Neste romance hipocrisias, ambições, jogos de intrigas políticas e traições mostra a decadência da nobreza e do clero. Frei Vasco que nunca tivera libertado sua alma das angústias desaparece e mais tarde morre. Não se sabe se aquele miserável realmente em algum momento tenha vingado seu pai e sua irmã, na verdade o autor busca no interior mais profundo da consciência as respostas para as atitudes da natureza humana, que todos nutrimos sentimentos os mais perversos que nos seguem ao longo de nossas vidas.  De forma reflexiva e consciente o romancista finaliza sua obra, fazendo o leitor refletir com a sentença do Evangelho: “Se não perdoardes, também Deus vos não perdoará”.