SERTÃO, O QUE MORREU E CONTINUA VIVO

SERTÃO, O QUE MORREU E CONTINUA VIVO

Rangel Alves da Costa*

Não lembro a data precisa, mas os jornais, rádios e televisões repercutiram com suntuosidade e sensacionalismo a fatídica notícia: o sertão morreu, mataram o sertão! Pelas ruas, esquinas, mercados e escritórios não comentavam outra coisa: coitado, morreu tão novo, mas é longe demais e eu nem posso ir lá dar o último adeus. Teve gente que dizia até a causa do ocorrido: morreu de sede. E outros acrescentavam: de sede e fome. “É, passou dessa pra uma melhor”, falou consigo mesma a beata da janela. Alguns amigos já queriam fretar um ônibus pra ir à missa de sétimo dia. Mas ir pra onde, se o sertão havia morrido, não existia mais?

Na verdade, quase todos os anos matam o sertão. Mas é de quatro em quatro anos, em época de eleições, que ele tem morte certa. Às vezes ele morre de causas naturais, de morte morrida, quando não suporta mais tantas dores sofridas e despede-se do mapa nordestino até as próximas chuvas. Qual a Fênix, tem o dom de renascer. Outras vezes, envergonhado pelas falcatruas e roubalheiras que fazem em seu nome, simplesmente suicida. Diríamos que tem mil vidas, mil mortes e uma, apenas uma eternidade.

Para os órgãos governamentais, em busca de verbas e mais verbas (que nunca são aplicadas), os prefeitos anunciam a morte do sertão de modo pesaroso, lastimoso, com uma tristeza de dar pena: “Tá tudo acabado, não sobrou nada, nem uma gota d’água, nem um pé de planta, tudo secou, tudo morreu”; “Dessa vez foi a maior desgraça, só vendo pra acreditar naquela tragédia toda”; “Agora não tem mais jeito não, e só Deus pra ressuscitar o sertão”. E com essa mesma ladainha vão para as emissoras de rádios, redações de jornais, salas e ante-salas de autoridades. Alguns prefeitos chegam até mesmo a chorar, e chora também aquele que não conhece a verdade, o que realmente está por trás das lamentações. Conheço um prefeito que não precisa nem chorar, basta começar a falar e cada palavra já é um soluço.

Como não poderia ser diferente, a comoção logo se espalha pelo estado e pelo restante do país. “Chega, chega, os restos mortais do sertão têm que ser reverenciados!”, proclamam em uníssono. E se sucedem os discursos, as lamentações em Aracaju e Brasília. Deputados da oposição afirmam que não se pode conceber um infortúnio como este, pois o governo já teria que ter um projeto pronto para acabar com a falta de água, com a sede do povo e dos animais; ademais, dinheiro não faltava em caixa, os recursos já estavam disponíveis, faltando somente aplicá-los para salvar o sertão. Defendendo-se, os deputados da situação, com o mesmo discurso de sempre, rebatem e afirmam categoricamente que a culpa é do governo passado.

Esses mesmos políticos que ocupam as tribunas para chorar o sertão, quase sempre são os mesmos que de quatro em quatro anos, às vésperas de eleições, colocam o semi-árido em cova rasa. Como isso ocorre? Ora, todas as vezes que se dirigem até lá em campanha se comportam como salvadores de todas as desgraças existentes; tratam o povo como órfão e desvalido, que precisa de um político eleito para tutelar seu destino e protegê-lo das tantas ameaças existentes; dizem ter o poder de fazer renascer a terra esvaída, guiá-la para um futuro de eterna prosperidade; prometem, enfim, que o sertanejo viverá num oásis de fartura e riquezas verdejantes. Basta trocar a tristeza pelo voto e o eleito fará com que não mais sofra por sua terra.

Certa feita apareceu por lá um político dizendo que se preciso fosse ele mesmo morreria no lugar do sertão. O povo acreditou, votou nele, foi eleito, e parece que cumpriu mesmo o prometido, pois sumiu, desapareceu de vez. Outra feita, um candidato a prefeito falava tanto em seus discursos que o sertão havia morrido que aconteceu o inesperado: descobriram depois que naquele pleito mais de vinte mortos votaram, e ele foi eleito exatamente com vinte votos de frente.

Nisso tudo, a certeza é que o sertão continua assombrando muita gente, causando pavor e atrapalhando as noites de sono de muitos políticos. Muitos destes não deitam sem antes fazer fervorosas preces, não andam sem antes telefonar para o além e procurar saber como andam as coisas por lá, não comem pelo fastio danado que passaram a ter. Tudo porque as eleições se aproximam e ouvem dizer que algo se move debaixo da terra e vem aí com disposição para dar o troco, para dizer que “respeito é bom e eu gosto”.

Não precisa desesperar. Mas fiquem com a certeza que, por mais que queiram fazer daquelas paragens áridas uma região onde o povo vale menos do que o voto, o sertão continua e continuará vivo, respirando com suas próprias forças e incansavelmente caminhando pelos pés de sua gente. Digo isso porque eu vi, vivenciei: a criança raquítica e desnutrida mais tarde torna-se um homem forte; o chão rachado pelo sol também tem seus dias de aguaceiro; a planta que secou renasce como alimento; o sol se esconde, a noite encurta e amanhece uma manhã de chuva. Vi também alguém chorar, mas era de alegria.

Vi vivo o sertão. Vivo o sertão. E não morrerei com ele porque ele é eterno, eu não…

Advogado e poeta

e-mail: rangel_adv1@hotmail.com