Só uma perguntinha

Só uma perguntinha

Por: Ivani de Araujo Medina

“No final do segundo milênio, e justamente no espaço da sua expansão originária, na Europa, o cristianismo encontra-se mergulhado numa profunda crise, provinda da crise da sua pretensão de verdade. Esta crise tem uma dupla dimensão em primeiro lugar, pergunta-se cada vez mais com maior insistência se, no fundo, será justo aplicar à religião a noção de verdade; por outras palavras, se ao Homem é dado conhecer a verdade propriamente dita sobre Deus e as coisas divinas.” ─ Cardeal Joseph Ratzinger (Prefeito para a congregação da Doutrina da Fé)

Àquelas religiões declaradamente baseadas em mitos nem há por que se aplicar a noção de verdade. Elas não se impuseram e nem se impõem como tal; não tiveram pretensão universalista; não perseguiram as demais religiões com o objetivo de dominarem todos os corações e mentes; não provocaram guerras; não massacraram e torturaram inocentes etc. Porém, às culturas religiosas que ainda se passam por simples religiões vitoriosas, certamente. Essas “religiões” que se dizem baseadas na história e abriram mão do tempo mítico para se aventurarem no tempo cronológico, precisam responder por esta aventura nos termos das próprias afirmações. Devem ser questionadas e investigadas pelos métodos atuais da história e não a partir das suas autobiografias, que mantêm sempre as saídas de emergência abertas para o pátio generoso e arejado da filosofia.

Com habilidade e conhecimento de causa o Sr Ratzinger se afasta do perigo:

“por outras palavras, se ao Homem é dado conhecer a verdade propriamente dita sobre Deus e as coisas divinas.”

Não é a mesma coisa de conhecer a verdade propriamente dita sobre Jesus Cristo e as coisas terrenas do cristianismo. Parecem farinhas do mesmo saco para o crente, mas não são. Jesus Cristo, personificação do Logus, não devia ter sido deslocado da esfera mítica em que foi criado para o desconforto da história. Eis o cerne da crise. Os perigos eram imprevisíveis e o risco absoluto. O colapso do cristianismo parece decorrente de algo que escapou pela fresta aberta pelo excesso de confiança e entusiasmo dos seus elaboradores. Agora não dá para remediar.

Diante do fato, só uma perguntinha: vão insistir na mentira ou honrarão o mea culpa? A não ser que, por um milagre nunca dantes visto, a noção de verdade venha a ser ajustada a esta difícil realidade.

Referência

Reproduzi o primeiro parágrafo de um texto que reporta o debate entre o diretor da revista italiana MicroMega, Paolo Flores d’Arcais, e o atual papa, Joseph Ratzinger, que recolhi na Internet http://www.snpcultura.org/vol_existe_Deus.html e acabou virando livro.