Uma abordagem sobre a Afrocentricidade no Hip Hop Moçambicano

Por: Magus DeLírio e Macossa

África é um livro não aberto com titulo escuro e conteúdo incerto – Sem Paus

“To me Afrocentricity is a way of living… It’s about being into yourself and into your people and being proud of your origins” – Queen Latifah

“Hip Hop is the Vehicle to Deliver Innumerable Lessons! Hip Hop heads should not just have knowledge of Hip Hop” – Afrika Bambaataa The Godfather of Hip Hop.

Introdução

Ao resgatarmos aspectos de dimensão cultural que nos possam identificar como membros integrantes de uma mesma colectividade, muitas são as manifestações que nos podem ajudar a denunciar o ‘lugar social’ ao qual pertencemos. Quando esses elementos culturais são referentes ao continente africano, particularmente no segmento musical, geralmente se recorre à chamada Música Tradicional Africana. No entanto, com a ‘ajuda indispensável’ do advento das novas tecnologias de informação e comunicação, a música feita em África foi conhecendo e incorporando outros estilos vindos doutros cantos do mundo. A cada dia, esses estilos ‘estrangeiros’ vão ganhando maior visibilidade e notariedade, muitas vezes, em detrimento da música de cariz nacional de cada país (incluindo Moçambique). Visto que a cultura é dinâmica, não nos é possível evitar e tão pouco parar essa tendência. Assim sendo, nada mais nos resta a não ser ceder à tal pressão esperando, no entanto, que tais estilos musicais se enquadrem no rol de manifestações culturais que asseguram a nossa integração nesta colectividade que se chama África e que cumpram com o importante papel de desvelar a nossa identidade africana.  Um desses estilos é, com certeza, o Hip Hop, provavelmente pelo facto de transcender a categoria de estilo musical, para outra muito mais ampla e abragente – a de cultura, visto que para além de ser um estilo de música é, acima de tudo, um estilo de vida.

O presente artigo é uma tentativa de mostrar até que ponto o Hip Hop Moçambicano está a (ou pode) ser usado como veículo para a afirmação da identidade Africana, usando para tal o conceito da Afrocentricidade.

Julgamos ser interessante e oportuno abordar este tema visto que a identidade cultural tem sido algo bastante debatido e questionado, principalmente no que diz respeito à música africana em geral, e à moçambicana em particular, que tende a ser cada vez mais ocidentalizada e mais vazia de conteúdo e valores culturais.

Este artigo começa por, de forma sumária, conceitualizar e contextualizar a Afrocentricidade. A seguir, aborda o Afrocentricidade no contexto do Hip Hop internacional, mais precisamente no contexto norte-americano, por serem os Estados Unidos da América (EUA) o berço da cultura Hip Hop, e no contexto português, pelo facto de Portugal compartilhar a mesma língua oficial com Moçambique. Posto isto, faz-se a reflexão analítica da realidade social que se pretende abordar.

Para a elaboração deste trabalho foi necessário em primeiro lugar efectuar-se uma revisão bibliogáfica, de seguida, do universo cada vez mais vasto do Hip hop moçambicano, recolheu-se todo material discográfico possível que se relacionasse com a temática a estudar.  E finalmente avaliou-se de que maneira esse material se relaciona com a África e com a Afrocenricidade, tendo em conta as letras das músicas, as línguas em que essas músicas são cantadas bem como o ritmo, ou seja, a instrumentalização dessas músicas, um procedimento que embora não tenha seguido nenhum rigor científico, muito se aproxima àquilo que em Metodologias de Investigação se chama  Análise de conteúdo.

O conceito de Afrocentricidade

Afrocentricidade, Afrocentrismo ou Africentrismo é uma visão do mundo que enfatiza a importância do povo Africano, tomado como um único grupo e muitas vezes sinónimo de “negros”, na cultura, filosofia e história [1]. A abordagem afrocentrada nasceu com o objectivo de corrigir as distorções causadas pela ausência do ponto de vista africano na historiografia mundial e pela frequente omissão do africano como protagonista da história humana [2]. Molefi Kete Asante, chefe do Departamento de Estudos Afro Americanos da Universidade Temple, é considerado o pioneiro na utilização do conceito de “Afrocentricidade” [2].  De acordo com este académico, e outros considerados como afrocentristas radicais, os africanos foram responsáveis por muitas das grandes inovações na filosofia antiga, na ciência e na tecnologia, que posteriormente foram roubadas pelos povos europeus [1].

Importa referir, antes de dar prosseguimento a esta reflexão, que para além da Afrocentricidade, existem (ou existiram) outras correntes ideológicas que têm (ou tinham) na  recuperação da dignidade e da personalidade do homem africano a sua razão de ser, como é o caso da Negritude, criada por Aimé Cesáire e Léopold Sédar Senghor e sistematizada por Jean-Paul Sartre [3], do Pan-Africanismo de William Edward Burghardt Du Bois e Henry Sylvester Williams, do Rastafarismo, fundamentado pelas ideias de Marcus Mosiah Garvey, do Nacionalismo Africano, do Nacionalismo Negro, entre outras [4]. Porém, uma leitura mais cuidada permitiu-nos constatar que a Afrocentricidade de alguma forma, agrega os ideais de todas correntes anteriormente citadas.

A Afrocentricidade no hip-hop internacional

O Hip Hop enquanto cultura urbana, surgiu nos guetos nova iorquinos dos anos 60, com o jamaicano Afrika Bambaataa. O desenvolvimento nos EUA, detalha os quatro elementos que compõem essa cultura (MC, DJ, Break e Grafite), além das influências latina e européia [5]. Sendo o Hip Hop uma cultura nascida no seio das comunidades negras, é de se esperar que tenha uma ligação intrínseca com a Afrocentricidade. O nome daquele que é considerado seu criador, Afrika Bambaataa, se quisermos, já é um grande indício dessa relação.

No panorama internacional, mais precisamente nos EUA, a Afrocentricidade esteve fortemente presente durante a chamada Hip Hop Golden Age (ou Golden Era), ou seja Era dourada do Hip Hop, um período (entre os finais do anos 80 e início dos anos 90) caracterizado pela diversidade, inovação, qualidade e influência, na qual se destacaram artistas como Public Enemy, Booggie Down Production, Erik B. & Rakim, Beastie Boys, Big Daddy Kane, De La Soul, A Tribe Called Quest e os Jungle Brothers [6]. O rapper Common, no seu tema I Used to Love H.E.R.,  do álbum “Resurrection” (Relativity Records, 1994), faz uma referência específica à queda do Rap de consciência afrocêntrica, devido à crescente popularidade do West Coast Hip Hop e do G-funk [7]. Na Europa, General D, rapper português nascido em Moçambique, mostrou o lado afrocêntrico da cultura Hip Hop, não só pelo teor das suas letras como também através da introdução de batidas e línguas africanas. São exemplo disso, a participação do grupo coral cabo-verdiano Finka Pé no seu EP “PortuKKKal É um Erro” (EMI-Valetim de Carvalho, 1994),  o título do seu álbum de estreia “Pé na Tchon, Karapinha na Céu” (1995) gravado por General D & Os Karapinha, que inclui o tema de sucesso “Black Magik Woman”, no qual General valoriza a mulher africana, bem como o título e uma boa parte das músicas do álbum “Kanimambo” (1997) [8]. Aliás, General mostra ser também advogado da Afrocentricidade pela sua indumentária, isto é, pelos seus trajes e seus penteiados, características que foram também verificadas na já referenciada Era de Ouro do Hip Hop, em que estava na moda deixar crescer o cabelo, vestir roupas coloridas com ênfase para as três cores da consciência africana (vermelho, preto e verde), anéis, colares, pulseiras e cosméticos africanos [9]. Para além de General D, vale também lembrar que Gutto, membro integrante do grupo Black Company, contribuiu sob o nome Dxplainer (aka Bantú) com a faixa “Ser Negro” para a colectânea TPC – Sessões de Hip Hop Vol. 1 (No Stress, 2000) [10]. Nesta faixa Gutto fala, como o título sugere, do que significa ser negro. Aqui, vale a pena também chamar atenção em relação ao pseudónimo Bantú, que é, evidentemente, uma clara homenagem que o rapper presta ao povo Bantu.

A Afrocentricidade no Hip Hop moçambicano

Partindo da idéia de que a Afrocentricidade é uma visão do mundo que enfatiza a importância do povo Africano, ou seja, dos “negros”, na cultura, filosofia e história e tendo em conta que, segundo Asante [1], esta visão pressupõe uma defesa de elementos culturais africanos como historicamente válidos no contexto da arte, música e literatura,  partiremos, finalmente, para a nossa análise.

Conforme foi referenciado anteriormente, a cultura Hip Hop é composta por quatro elementos principais: MC, DJ, Break e Grafite. O MC é o cantor, o DJ o fornecedor da base instrumental sobre a qual o MC irá cantar, o Break a dança e o Grafite a pintura, muitas vezes feita em muros. Portanto uma abordagem completa sobre o Afrocantricidade nesta cultura deveria incidir  sobre estes quarto elementos. Porém, no Hip Hop moçambicano, por motivos que ultrapassam o âmbito deste trabalho, somente se desenvolveu o elmento MC, ficando desta feita os restantes elementos por se desenvolver. Portanto, a avaliação a ser feita irá sobrecair sobre o elemento MC, ou seja, o Mestre de Cerimónia. Importa referir que alguns autores preferem substituir o elemento MC por Rap (ou emceeing) [11], para este trabalho o termo Rap é mais conveniente visto que para além da poesia cantada pelo MC, abarca também o ritmo ou beat, que nem sempre é fornecido por um Dj mas sim por um produtor ou beatmaker.

Neste âmbito, serão analisadas três vertentes, a saber: as letras, as línguas e o ritmo.

As letras

As letras consideradas são: “Afro” de Iveth , “Ser Negro” da Dama do Bling e “África” da G Pro Fam.

Em “Afro”, Iveth fala do orgulho que tem das suas origens, da sua pele e dos seus cabelos crespos. Fala do sol e do clima, da cultura e das riquezas naturais, dos nossos idiomas, das nossas gentes e dos nossos heróis. Portanto, a rapper mostra nesta sua música o lado feliz e positivo da África e dos africanos: “Eu sou das terras negras terras negras eu sou /afro/ a pele escura e cabelo crespo eu sou/ afro/ eu sou do berço da humanidade eu sou/ afro/ eu digo  eu sou/ afro/ eu digo  eu sou/ afro/ orgulhosamente/ afro/ 100% 100% / afro”.

Dama do Bling, pelo contrário, mostra-nos o lado triste porém verdadeiro do “Ser negro”. Trás-nos uma série de lamentações que descrevem nua e cruamente o lado dramático, triste, negativo e até pessimista do africano: “Ser negro é ir à guerra enquanto já perdeu a batalha/ Ser ameaçado e esfaqueado com a própria navalha/ Nunca saber qual o sentido verdadeiro de vencer/ Ter que seu passado e sua história esquecer”.

A GPro Fam, por seu turno, trás-nos em “África” não só a visão positiva e negativa de África e dos africanos mostrada pelas rappers Iveth e Dama do Bling, como também mostra-nos a questão da igualdade entre as pessoas: Eu cantarei até que a voz me doa/ mas pela igualdade e os direitos entre as pessoas/ a cor, a origem, a lingua, a crença/ chegou a altura certa para se unir as diferenças/ O sangue é vermelho em todos os racionais/ todos diferentes porem todos iguais. E a crença num futuro promissor a pesar das adversidades: tanto sofre mas a paz um dia chega/ o único canto do mundo em que o ar ainda é puro/ espaço pra todos construírem um futuro/ todas bocas todas raças, vamos à vida e todas suas graças/ esqueçamos as desgraças, Africanos de corpo e alma de coração e de mente mantemos acesa a nossa chama”.

As línguas

Segundo Mackellene, a língua que falamos denuncia nosso Ser tanto melhor quanto outra manifestação do nosso espírito. A língua não é uma roupa que se veste, é o espírito de nossa carne se manifestando. Ela está viva cá dentro de nós como uma serpente que nos vasculha, nos rastreia [12]. Como se pode ver, a valorização da lingua reveste-se de uma importância capital para desvelar  identidade de um povo. O proeminente escritor moçambicano Albino Magaia, no se livro “Moçambique: Raízes, Identidade Unidade Nacional”, dedica particular atenção à questão da valorização das línguas nacionais, nesta sua obra Magaia lembra-nos que ‘Todos países desenvolvidos, que foram à Lua, o fizeram nas suas línguas. Ninguém vai numa língua emprestada. Se quisermos ir à lua temos que investir nas nossas línguas, porque em português nunca iremos lá.’ [13]

No Hip Hop moçambicano a língua mais usada é o Português, que é a lingua oficial. Porém, assumindo as citações de Mackellene e Magaia como verdadeiras, fica claro que a língua de Camões está longe de ser a que nos identifica como africanos, para tal, alguns rappers, cientes da valorização dos seus valores culturais e por forma a fazer chegar a sua mensagem ao seu povo que se comunica, maioritariamente, através das línguas bantu, recorre ao uso das línguas nacionais, que segundo o mapa linguístico de Moçambique são cerca de 20 [14]. São exemplo disso o rapper Big L e os grupos Xitiku Ni Mbaula e Timboni Ta Jah, que cantam essencialmente em Xichangana, Cicope e Xironga, línguas da Zona Sul do país.

O ritmo

Quanto ao ritmo, a valorização da nossa identidade poderia ser feita através da inclusão de sons e instrumentos tipicamente africanos. Poucos são os produtores que condimentam assim seus beats. Porém algumas incursões, embora tímidas, podem ser encontradas nas músicas “Afro” e “África”, de Iveth e G Pro Fam, já referenciadas neste artigo. O rapper Azagaia, também valoriza ritmicamente  África em “Malhazine ”, que abre o seu álbum Babalaze (Cotonete Records, 2008), ao incluir excertos do Hino de África “Hosi Katekisa Africa”.

Considerações finais

Tendo em conta as leras, importa salientar que embora as rappers Iveth e Dama do Bling, partam de dimensões ou de perspectivas distintas, as mesmas procuram retratar a mesma realidade social. Ora, Iveth parte duma dimensão positivista e optimista do ser africano ou negro, ao passo que Dama do Bling prefere partir duma visão mais obscura e da realidade nua e crua que desde o primordios da humanidade afligiram o povo africano e negro “a opressão”,  perpetuada pela colonização. No entanto, é de notar que tanto em Iveth como em Dama do Bling as abordagens se desencadeiam num apelo á afirmação da identidade cultural.

Alinhando pelo mesmo diapasão, a GPro Fam, também faz um apelo à afirmação de identidade cultural que, tal como foi referenciado acima, é um dos designios da Afrocentricidade. E procura fazer também um apelo a não segregação e discriminação racial, mas sim a valorização do outro enquanto sujeito e actor social, pois, parafraseando Norberto Cunha, “as nações são feitas de aceitação das diferenças e não pela negação do outro” [15]. Ademais, tal como em Iveth, na GPro Fam está implicitamente patente a ideia de Africa como berço da humanidade.

Portanto nota-se na abordagem destes rappers a tentativa ou o esforço de pensar na necessidade da desconstrução e reorganização da história dos africanos que duma forma subjectiva e intencional foi propalada pelo ocidente.

No que tange às línguas e ao ritmos, pouco há por acrescentar, antes porém importa reter que nas três vertentes ora abordadas, vislumbra-se a ênfase da importância do povo Africano, ou seja, dos “negros”, na cultura, aqui representada pelo movimento Hip Hop, e uma clara defesa de elementos culturais africanos no contexto da música.

Mostra-se também, que o Hip Hop, embora de forma pejorativa e até errónea se considere uma cultura margial e exterior à nossa realidade, pode, sim, ser utilizado como um veículo para fazer valer a nossa identidade cultural africana.

Referências Bibliográficas

1. Afrocentrism. Disponível em: www.en.wikipedia.org/wiki/Afrocentrism (Acessado em 30/10/2010).

2. Nascimento, E. L. Afrocentricidade – Uma abordagem epistemológica inovadora (Coleção Sankofa, volume 4). Selo Negro Edições, s/d. Disponível em: www.selonegro.com.br (Acessado em 30/10/2010).

3. Margarido, A. Estudos sobre literaturas das nações africanas de língua portuguesa. Lisboa: A Regra do Jogo, Edições, Lda., 1980.

4. Panafricanismo. Disponível em: www.es.wikipedia.org/wiki/Panafricanismo (Acessado em 30/10/2010).

5. Souza, R. M. V. Cultura Hip Hop. Identidade e Sociabilidade: Estudo de Caso do Movimento em Palmas. Bocc, s/d. Disponível em: www.bocc.ubi.pt (Acessado em 30/10/2010).

6. Golden age hip hop. Disponível em: www.en.wikipedia.org/wiki/ Golden_age_hip_hop . (Acessado em 10/11/2010).

7. I Used to Love H.E.R.. Disponível em: www.en.wikipedia.org/wiki/I_Used_to_Love_H.E.R.. (Acessado em 10/11/2010).

8. General D – Para muitos o Rei do Hip Hop Tuga. Disponível em: www.hiphoptuga.org/2009/08/general-d. (Acessado em 15/11/2010).

9. ChollyHudnall, Mr. What happened to Afrocentricity? Disponível em: www.chollyhudnall.newsvine.com. (Acessado em 15/11/2010).

10. TPC – Sessões de Hip Hop Vol. 1 (2000). Disponível em: www.h2tuga.net/hiphop/mcdj/discografia. (Acessado em 24/11/2010).

11. DeLírio, M. O suicídio na música de Azagaia, Coldman, Flash e Yazalde-Yazalde. Webartigos. 2010. Disponível em: www.webartigos.com. (Publicado em 18/10/2010).

12. Mackellene, L. Língua e identidade. Cronopios. Disponível em: www.cronopios.com.br/sites/ensaios.asp (Acessado em 10/11/2010).

13. Magaia, A. Moçambique: Raízes, Identidade Unidade Nacional. Maputo: Ndjira, 2010.

14. Macaire, P. L’heritage makhuwa au Mozambique. Paris: L’harmatan, 1996.

15. Cunha, N. Europa: Globalização e Multiculturalismo. Vila Nova de Famalicão: Editora Ausência, 2005.