Burro é a mãe!

Fiz a cirurgia dos meus quatros cisos. E não sei qual dor era pior de sentir: se era a dor angustiante da extração ou ficar deitado o dia todo, assistindo televisão.

Não sei o que é pior também, se a atuação das novelas que me chamam de idiota e me convidam ao mergulho ao “entretenimento” ou se são os programas de palco para revelação de modelos desengonçadas. Honestamente não sei.

Se é quando afirmam que a novela das seis ,dirigida por Miguel Falabela perde um quinto da audiência no segundo dia de estréia, enquanto acham isso absolutamente normal e tentam ate se justificar, baseado no desempenho de uma outra ainda pior do horário e ficam procurando ate um culpado entre o burro que escreve ora o burro que assiste.

Isso quando também, não aparece um motivo mercantil para nos tornamos mais uma vez com o sentimento de colônia atrás das telas. Acho um saco, depois das crises e dos abalos do capitalismo, inventarem mais uma metrópole para nos catequizarmos por meio da televisão. Meio século antes era os Estados Unidos e agora as novelas ficam responsáveis por nos ‘ensinar’ qual é o “caminho” das índias ou ate mesmo “negociar” com China. Legal que falar o mandarim pode ate ser uma boa mas eu só espero que andar de camelo não vire moda.

Ou talvez, e eis ai a minha angustia, quando vejo em um comercial falarem da preferência pela globo devido a sua “imparcialidade”. ou quando vejo o Datena endossar as veses os discursos para não “meter o pau” nos caras da prefeitura de São Paulo na enchente devido o convênios e patrocínios com o programa,(a questão que ele mesmo falou isso em pleno o programa) Da vontade de rir, ou as veses acho que a televisão está de brincadeira comigo.

Quando terminou a favorita mesmo, minha mãe disse que não gostou do final. ”Esperei tanto, para ter um final daquele!” É sempre assim. Eu evito assistir o final de novela, para não ter que me esbarrar nesses “determinismos”. No final ou tem casamento ou o vilão sempre morre: ou de tiro ou de um motivo fútil que chega da desgosto.E ainda queriam inventar uma versão parte dois da novela.Quem seria o idiota a dar continuidade?

Sei que lhe dar com as emoções pode ate parecer uma tarefa fácil quando se escreve mal. Ate mesmo por que é fácil ganhar ibope quando escrevo para um publico ingênuo. O problema é quando os ingênuos não são tão mais ingênuos como antes. Ou ate se cansam de ser. Ai tudo vai por água abaixo. Tem pessoas que ficam pensando: será que sempre as novelas foram piores do que as de agora? Ou sempre foi assim? Eu prefiro ficar com o segundo questionamento.E ate dizer que sim.A saramandaia mesmo com aquela velha gorda que explode no final da novela de tanto comer é de da dó!

As novelas, por que não dizer a televisão? , vivem tentando superar a si mesmas e se esbarram na mesma demência. E ficam ate tentando enganar a si próprios por uma falência de criação. A Gloria Perez, por exemplo, volta e meia ela ,se defronta com essa questão.O que é o caminho das índias senão a volta do clone?E a escolinha do Barulho apresentada na band por Sidney Magal? Senão uma treplica ultrapassada de si mesma tentando fazer sucesso?E o Silvio santos querendo se dar bem de palco ressuscitando os “vê tês” milenares de Ivo landa ou jogando aviãozinho no domingo a tarde?Sem contar o cinismo da Sandra Anemberg no jornal hoje, ou o desencaixe da Claudete no a Tarde é Sua.Ah e o que dizer tambem da record vivendo de migalhas, a espera de mais uma demissão de atores globais para trabalhar em novelas draculas e pouco fatídicas?E a Xuxa como uma alma penada?E a Vera Ficher fazendo o papel de Michael Jackson,com uma fuça esticada sem a menor noção? Eu nem cito a berração do Gugu e do Faustão e tão menos do Big Brother por que eu acho que pode ate se tornar clichê e deixarem de ler o meu texto agora.- Fico a pensar quanto espaço na televisão sendo desperdiçado!

E fazendo um favor para aqueles que me acham ate radicais, salvam-se alguns ancoras como o Boris, de vez em quando o programa do jô e o repeteco do Pica – Pau que é a minha terapia. Ou assistir comercial de vez em quando, em meio a um protesto pessoal quando nada presta mesmo.

Em meio a tanta esculhambação,sinto a impressão de as veses estar assistindo a volta dos mortos vivos – ou talves a volta dos que não se foram. Em meio a esse filme de terror que é a teledramaturgia, e a televisão de um modo geral, vou vivendo esperando as dores do meu ciso passar.

E quem sabe de volta ao trabalho, eu possa imaginar a infelicidade dos tempos da tarde e não querer jamais ficar ali deitado assistindo tudo isso. Talvez dando as minhas aula no fundo de casa e esperando o tempo certo para debater sobre o assunto, lendo esse texto em publico por exemplo, quem sabe alguém entenda a minha mensagem e desligue de uma vez por todas essa geringonça

Danillo Cerqueira Barbosa é escritor e professor.11/02/2009