Política morta-viva

Política morta-viva


A crise econômica de 2008 deu origem a um movimento libertarianista [1] chamado Tea Party, composto de jovens defensores do liberalismo clássico. O movimento cresceu rapidamente e possui vários representantes ocupando posições no governo dos EUA. Há quem diga que o movimento representa nada mais que um novo fôlego dos republicanos como reação à vitória de Barack Obama, mas também que pode representar um novo fôlego do liberalismo clássico em resposta à incapacidade do neoliberalismo de conter as bolhas financeiras.

Recentemente, uma empresa de advergaming [2] chamada Starvingeyes fez um jogo chamado “Tea Party Zombies Must Die” (Zumbis do Tea Party devem morrer), em que o objetivo do jogador é matar versões zumbis de membros do movimento Tea Party. Aparentemente, a empresa que produziu o jogo está sugerindo que matar opositores políticos, pelo menos virtualmente, é divertido. Não haveria problema nisso, já que os inimigos do jogo são apenas zumbis. Liberdade de expressão, certo? Não é tão simples assim…

A cultura midiática tem usado o zumbi como uma desculpa para explorar representações de violência contra certos grupos sociais, tirando desse elemento típico do horror todo seu significado original. Jogos de matar zumbis, assim como os jogos de guerra, estão se tornando indistinguíveis de jogos de matança gratuita. Quem são os zumbis? São pessoas estranhas que foram afetadas por alguma condição que as obriga a agir segundo um desejo irresistível de matar e consumir vida. São seres irracionais, e por isso não se encaixam mais no conceito de pessoa: já não são mais livres para agir por vontade própria, por isso não é uma ofensa moral destruí-los, é uma mera questão de sobrevivência. Mas nossa fome de matar zumbis parece ser tão grande quanto a fome deles de nos matar. Talvez nós alimentemos a fantasia de viver somente pela motricidade da sobrevivência imediata contra um mundo hostil porque nos falta algum propósito maior, e porque neste cenário poderíamos nos livrar definitivamente da moralidade. Nós estamos nos tornando como o monstro que caçamos.

Isso também descreve uma mudança contemporânea na política. Os conflitos políticos não mais são feitos em torno de posições ideológicas bem definidas, e cresce cada vez mais o desinteresse pela agenda política nacional. A globalização transformou a política em algo cada vez mais individual. Os zumbis são aqueles que ameaçam seu interesse individual. Isto inclui a massa ignorante que age de modo coletivo e com vista a um bem comum, já que nenhuma coletividade poderia ser mais “inteligente” do que uma horda de zumbis. Nunca foi tão fácil tornar-se um crítico da sociedade, graças à internet. O excesso de informação possibilita que cada um lute sozinho contra o resto do mundo, porque conhece fatos que a maioria desconhece. Sua revolução é feita pela divulgação de ideias revolucionárias. As redes sociais são um meio de medir o sucesso da causa. A adesão de outros produz a sensação de que algo está mudando e que sua vida tem um propósito: você descobriu uma verdade oculta que precisa ser compartilhada. Quanto mais pessoas “gostam” do seu conteúdo, mais você sente que está fazendo algo importante.

Isto é provocado tanto pelo excesso de ceticismo quanto pelo excesso de credulidade. Antigamente era possível ouvir a um sujeito que se aproximava dizendo ter novidades importantes para relatar. Hoje em dia, não temos tempo para ouvir todo mundo que diz conhecer um segredo que pode mudar sua vida. Mas algumas propostas são apresentadas de modo sofisticado e convincente, dependendo do seu grau de conhecimento e das suas próprias expectativas. Quem tem o privilégio de entrar em contato com uma visão sensata da realidade ainda jovem talvez se torne uma pessoa sensata na maturidade. Mas isso é cada vez mais raro, e a maioria das pessoas luta para manter uma visão mais confortável, por mais absurda que seja.

A premissa central de um artigo que escrevi sobre o jogo Left 4 Dead é que havia um bom motivo para o zumbi ser representado como um ser que se move lentamente. Quando o jogo dá aos zumbis a capacidade de correr, o horror contemplativo, que permitia pensar sobre sua própria condição, é substituído pela reação condicionada, que é pura adrenalina. Isso não se explica somente por tendências de mercado que variam com a flutuação dos desejos dos consumidores, ou como se diz: “Zumbis que correm são mais divertidos e é isso que as pessoas querem hoje em dia”. Estes jogos se tornam divertidos na medida em que aprendemos a gostar deles, e isso depende mais de uma boa engenharia de mecanismos de estímulo e resposta do que da vontade das pessoas. Há um elemento psicossociológico na busca por este tipo de jogo: a raiva causada por um modo de vida cada vez mais estressante. Os próprios defensores desse tipo de jogo apontam que a violência simulada é uma válvula de escape de uma necessidade natural que teria efeitos desastrosos se fosse liberada no mundo real. Mas a raiva não está diminuindo, está se acumulando ainda mais, o que é ótimo para o mercado. A raiva retro-alimentada por este suposto “sistema de escape” se acumula em forma de ressentimento, gerando fenômenos cada vez mais extremos de explosão e implosão de emoções negativas e desejo de vingança.

O que os defensores do Tea Party tem a dizer sobre um jogo em que eles são representados como zumbis? Um membro do Western youth, um movimento estudantil de direita relacionado ao Tea Party, disse que não ficou nem um pouco ofendido com o jogo. De fato, ele gostaria que fosse feito um outro semelhante, em que o jogador possa matar zumbis de esquerda, socialistas e libertários. Ele apenas se lamenta pelo fato de que “os conservadores tendem a jogar limpo”, isto é, não apoiariam uma coisa dessas. Diz que se alguém fizesse um jogo assim, “O establishment conservador iria abandoná-lo, e em seguida começariam a falar como covardes sobre como eles não são ‘racistas’ ou ‘intolerantes’. Eles provavelmente até mesmo diriam o quanto eles amam os homossexuais ou o multiculturalismo ainda mais do que os libertários”. É importante notar aqui que o termo “liberal”, em inglês, significa algo bem diferente do termo “liberal” em português, assim como “libertarian”, em inglês, significa algo bem diferente de “libertário” em português. Em inglês, “liberal” é uma pessoa de esquerda, como o “libertário”, e não um defensor do liberalismo, como o “libertarian”.

Talvez a ideia de usar fogo contra fogo demonstre outra tendência política: a de que os conservadores exponham mais abertamente suas posições “politicamente incorretas” e lutem por elas com armas mais sofisticadas. Convenções sociais não os preocupam, uma vez que tenham se convencido de que o mundo está dominado por uma infecção chamada esquerdismo. É isso que influentes filósofos de direita não se cansam de tentar provar com inúmeros artigos e vídeos. Mas talvez liberals e libertarians (libertários e liberais) sejam, afinal, muito parecidos. São ambos defensores de ideais humanistas, e só discordam quanto aos meios de atingir os mesmos fins. O fim seria a democracia, os meios seriam a liberalização do Mercado ou o controle sobre o Mercado; o fortalecimento do Estado ou a derrubada do Estado. Na luta pelos seus próprios conceitos de liberdade e democracia, eles querem se matar para decidir qual o lado correto para se passar manteiga no pão.

Em outras palavras, são zumbis uns dos outros. Eles tentam se colocar em lados opostos, mas acabam se igualando nas atitudes, exatamente como os jogadores de Left 4 Dead se igualam aos zumbis, por estarem num constante estado de alerta na luta pela sobrevivência.

“Quantos de vocês querem pagar a hipoteca do vizinho que construiu um banheiro a mais e agora não pode pagar suas prestações?” [3]

A atual depressão econômica tem origem no excesso de endividamento, e o endividamento significa que há um buraco negro na economia mundial. Este buraco negro pode sugar todo o dinheiro do mundo, e ainda não será suficiente. Ninguém quer investir no que não dá retorno, e o que sobra é cortar gastos públicos. A riqueza só pode crescer se houver pessoas gastando cada vez mais. Por isso os endividados devem permanecer gastando. É preciso fazer mais dívidas, não apenas porque quitar as dívidas é impossível, mas porque pagá-las ao invés de gastar mais apenas aprofunda a depressão. Este ciclo compulsivo provavelmente não pode mais ser quebrado. Quando acumulamos dívidas para enriquecer, temos uma economia morta-viva. Na cabeça de alguns, hordas de excluídos estão invadindo nosso país, estragando a economia e tentando te transformar num deles.

Há quem considere o Tea Party como a revitalização dos valores civilizados. Num comentário a um artigo chamado Entendendo o Tea Party, de Nivaldo Cordeiro, lemos o seguinte: “Deus abençoe os Estados Unidos. Se aquele país proibir o aborto e o casamento gay, vai voltar a ser perfeito como era antigamente. Falta só proibir essas duas coisas para aquele país voltar a ser O PAÍS”. Com uma coisa parece que todos estão concordando: o império estadunidense está em meio a uma decadência de valores. Mas quais valores? Será que o próximo dono da fazenda será melhor? 

Temos capitalismo para todos os gostos. Capitalismo conservador ou progressista, moderno ou antiquado, machista ou feminista, letrado ou populista, religioso ou ateu, civilizado ou selvagem, materialista ou espiritualista. Temos capitalismo ecológico e ao mesmo tempo empresarial, ético e ao mesmo tempo pragmático, individualista e ao mesmo tempo comunitário, e por aí vai. Existem mil maneiras de se encaixar no sistema, invente uma…

A questão talvez não se limite ao modo de produção ou quem são os proprietários dos meios de produção. É preciso saber o que está sendo produzido: vida ou morte-vida? Se a produção visa a sobrevivência humana, quem são nossos inimigos e o que exatamente nos distingue deles?


[1] O libertarianismo é uma filosofia política conservadora de direita que se divide em duas correntes: o anarcocapitalismo e o minarquismo. Os libertarianos rejeitam o papel do Estado enquanto regulador da economia e se fundam nos ideais de propriedade, vida e liberdade dos pais fundadores dos EUA.
[2] Advergaming é uma estratégia de publicidade que usa jogos eletrônicos criados especificamente para fins publicitários.