Candangos: Sonhos de Concreto na Capital da Esperança

Projeto de Esperança: Brasília

O Projeto A promessa de erigir uma nova capital no Planalto Central, chamada ao estilo da época de NOVACAP, surgira durante a campanha eleitoral. Era a oportunidade de mudar o destino geográfico do Brasil, esparramado há 450 anos pelo litoral atlântico. Os goianos esperavam pela transferência da capital e por suas benesses desde que a Comissão Cruls demarcara em 1984 o quadrilátero que no Planalto Central designava sua edificação.

Os goianos sabiam o que representaria a mudança da capital e o apoio destes foi fundamental para construção: sob o Governo de Ludovico de Almeida (1955-1959) funcionou a Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, chefiada pelo médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco que efetivou a desapropiação das terras do Distrito Federal. A transferência era uma oportunidade de afirmação e construção da identidade goiana. “Goiás sairia de um estágio colonial para entrar, de repente, em fase de intensa industrialização (…) a localização da Capital Federal no planalto goiano transmudaria o panorama econômico do Estado e lhe garantiria um lugar de relevo, ao lado dos vários Estados da Federação”4 Brasília foi construída em três anos – pelo menos seus principais prédios foram concluídos nesse prazo.

Em 1958, o palácio da Alvorada tinha sua fachada mostrada na revista Manchete. JK sabia que, se a sede do governo não estivesse pronta na data prevista para sua inauguração, o projeto seria abandonado. A máquina administrativa estatal ao sair do Rio de Janeiro, onde se encontrava fazia dois séculos, deslocando-se para o centro do Brasil, produziram um enorme choque na região.

O objetivo do processo seria afastar o Brasil do litoral, mudar o cenário político do país, tirando o governo da agitação golpista e vulnerável do Rio de Janeiro, dando ao governo federal uma maior liberdade de governar. Porém a idéia de transferir a capital do país para longe do mar não era nova. A interiorização da capital do país já havia sido defendida por grandes nomes5 como o cartógrafo Tosi Colombina (1750), o Marquês de Pombal (1761). Em 1788-89, por razões político-militares ela aparece no ideário da Conjuração Mineira. Um grupo de intelectuais conhecedores do Iluminismo, projetam a mudança da capital para São João del-Rei, a 240 quilômetros de Ouro Preto.

 

Apesar de abortado, o projeto torna-se simbólico e permanece na agenda política por mais 160 anos na idéias de José Bonifácio e Silva (1823), do historiador Adolfo de Vanhagem (1877) e do Padre italiano Dom Bosco (1883). Em 1892 é instituído pelo presidente Floriano Pexoto a comissão exploradora do Planalto Central, chefiada pelo astrônomo Luiz Cruls, conhecida como Comissão Cruls. Epitácio Pessoa assina em 1917 um Decreto Legislativo que previa o início da construção da nova capital e o erguimento da pedra fundamental em 1922.

Getúlio Vargas lança em seu governo a cruzada rumo ao oeste (1940), e o presidente Eurico Gaspar Dutra institui a comissão para a Localização da Nova Capital em 1946 e em 1953 Getúlio instaura a Quarta comissão para a escolha da futura capital. A Missão Cruls (1892-93) foi a “determinante ambiental”6 do projeto de Lúcio Costa, já que esta realizou o levantamento topográficos (clima, água potável, materiais de construção,percurso entre as cidades e vilas existentes, o mecanismo das queimadas e o perigo das erosões) e indicou os quatro vértices do sítio onde seria implantada a capital federal. No relatório da citada Missão, já se percebe a resistência por parte dos cariocas quanto a transferência da capital, tanto que o engenheiro relator da mudança rebate sobre a distância utilizada como argumento contra a construção da cidade á época.

Brasília advém desse longo processo de interiorização e das idéias que justificaram sua construção do nada, e esse ideário, como vimos, ganhou contornos no século XVIII, e tomou forças com a urbanização ocorrida no país em meados do século XXA Meta-síntese de JK Apesar de tantas ações para que a nova Capital fosse construída somente em 1955 um candidato a presidência se comprometeu em construir Brasília em seu mandato: Juscelino Kubitschek. Já nos primeiros dias de sua administração JK encaminhou ao Congresso Nacional a chamada mensagem de Anápolis, propondo a criação da NOVACAP – Companhia Urbanizadora da Nova Capital, empresa que seria responsável pela construção de Brasília. Ao escolher Brasília como meta- síntese de seu Plano de Metas, JK queria revesti-la de uma grandeza simbólica que a sobressaísse sobre todas as outras metas contidas no plano, onde quer que essas estivessem sendo implementadas. Brasília seria a parte visível, palpável, que desse a medida do sucesso do Plano de Metas.

Nas palavras de JK, em seu livro Porque construí Brasilia, a capital seria: “(…) a chave de um processo de desenvolvimento que transformará o arquipélago econômico que é o Brasil em uma continente econômico integrado.” (JK, 1961, p.109) Após o envio da proposta de criação da NOVACAP, a empresa que seria responsável pela construção de Brasília, iniciou-se a construção do aeroporto e do Palácio da Alvorada. Fundou-se a Divisão de Arquitetura e Urbanismo da NOVACAP, da qual Oscar Niemeyer foi nomeado chefe. Niemayer, após ser nomeado, lançou o concurso público para a escolha de um Plano Piloto para Brasília. Entre os 26 projetos inscritos a proposta de Lúcio Costa foi a vencedora.

A parceria Niemeyer – Costa data de 1934, quando o primeiro formou-se na Escola Nacional de Belas Artes da qual Lúcio Costa era diretor. Em 1936, Niemayer participou da equipe que desenvolveu o projeto do conjunto do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro que era chefiada por Lúcio Costa e tinha Le Corbusier, (arquiteto, urbanista, decorador, pintor e teórico) como consultor. O projeto de Lúcio Costa é considerado uma obra prima, para Ronaldo Costa Couto (2001): “(…) é o único que realmente apresenta plano para uma capital administrativa. Conforma o Plano Piloto a partir do sinal-da-cruz. Em forma de avião ou pássaro de asas abertas. (…) Dois grandes eixos cruzando-se em ângulo reto. (…) A simplicidade é o principal traço da solução.” (p.116) Para Seu Ângelo7, candango que chegou a Brasília em 1959 para trabalhar na NOVACAP, hoje morador do Núcleo Bandeirante e funcionário do Museu Vivo da Memória Candanga, onde possui o duplo papel de “segurança” e “guia” da exposição permanente Poeira, Lona e Concreto, o projeto de Lúcio Costa é: Um negócio muito bonito. O homem (Lúcio Costa) riscou uma cruz assim no meio do nada. Muito interessante isso não é? E agora você vê o que é hoje Brasília, ninguém diz que aquele desertão (sic) ia virar isso que a gente vê aí hoje em dia.

A primeira e mais conhecida obra de Brasília, considerado então seu primeiro palácio presidencial, chama-se Catetinho. Feito de tábuas no meio da Fazenda do Gama. Foi esboçado por Niemeyer em um encontro de amigos no Hotel Ambassador no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1956. O material veio de Belo Horizonte no dia seguinte. Em 10 de novembro do mesmo ano é inaugurado por JK. Uma festa dos pioneiros e candangos, primeiro ao ar livre depois, com a chuva que caia, dentro do Palácio Provisório. A derradeira missa é realizada em 3 de maio de 1957 pelo arcebispo de São Paulo Dom Carlos Carmelo. Era o batismo espiritual da cidade que surgia no meio do nada e reuniu 15 mil pessoas. Um ano após a celebração da primeira missa em Brasília inicia-se a “construção do Plano Piloto de Lúcio Costa e dos edifícios que tinham sido projetados por uma equipe de arquitetos chefiados por Oscar Niemayer e conduzida com a ajuda de Israel Pinheiro, presidente da NOVACAP8.”

Construiu-se também a primeira igreja católica, Igreja Nossa Senhora de Fátima (Igrejinha), em alvenaria e o asfaltamento do Plano Piloto. Os candangos já eram parte da imagem da nova capital. Já estavam instalados na cidade livre em barracos de lona. Ao anunciar a construção da nova capital, JK atraiu brasileiros de todo país, principalmente das regiões sul e norte, fazendo com que o antigo projeto de Vargas9 de “política de povoamento” se tornar um fato concreto. A construção de Brasília pode ser entendida como uma nova “Marcha para o Oeste”, já que deslocou populações (os chamados “candangos”, principalmente migrantes nordestinos) para os sertões e possibilitou que os equipamentos da vida urbana chegassem a uma região que os desconhecia

Mais que isso, levou o poder central para o interior e serviu para iniciar um processo de deslocamento da modernização brasileira do Centro-Sul para o Centro-Oeste. Centenas de homens começaram a chegar ao Planalto Central a partir de 03 de novembro de 1956 e em 1957 o local já se tornara um grande canteiro de obras. Esses trabalhadores chegaram sozinhos inicialmente, as famílias chegaram depois e foram instaladas nas favelas próximas aos canteiros de obras. Os sinais dessa provisoriedade marcam até os dias atuais os arredores da capital federal.

“Tempos que não voltam mais…” – A ‘fala’ dos candangos.

Eu vim pra cá por causa da fome. Passava fome demais.Só tinha 6 cruzeiros no bolso e a fé. Só a fé. Posei demais na casa de gente estranha na estrada até chegar aqui. Mais o povo dizia pra gente que aqui ia ter emprego pra todo mundo e hoje eu tenho até casa.” 10 O presente tópico pretende analisar os discursos, a “fala” popular dos candangos e o imaginário inerente a esta, suas representações que nos permitem entrar na percepção11 e na construção da realidade, articulando com o imaginário, segundo Carvalho (1996), seus “elementos ordenadores, valorativos, mobilizadores, interpelativos, transformativos, veiculadores de construtos enunciativos com valor de verdade, aceitos como tal (pag. 3).”

O conceito de “discurso” utilizado pelas ciências humanas é resultado da recorrência ás ciências da linguagem. Propõe-se assim, uma análise do que falam os candangos, os sentidos que estão ligados a essa, sendo o candango o autor e sujeito desses acontecimentos por ele narrados. Não se propõe aqui a consideração da tradicional dicotomia cultura popular- cultura erudita ou letrada, já que o que é produzido por essas integram plenamente a noção de discurso. As vozes populares fazem parte do momento histórico aqui tratado. Através destas, os pioneiros traduzem suas esperanças, objetivos, vivências. Seu Tiago, 68 anos, não sabe ao certo quando chegou a capital, “talvez em 59” diz ele. Veio de Taguatinga cidadezinha do interior de Tocantins. Quando aqui chegou logo arrumou emprego na NOVACAP “Trabalhei lá naquela igreja (Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida) que tem as ponta (sic.) assim (faz gesto com as mãos e os dedos em riste) pra cima. Minino, aquilo era um barro só. A gente trabaiava (sic.) o tempo todo. As casa era tudo de lona, só as carcaça, mais o povo dizia que depois todo mundo ia ter imprego. Se num fosse pra Brasília num tinha minha casinha hoje, que eu num sô bobo.”

Para Seu Tiago ir para o centro do país e erguer uma cidade eram também a possibilidade de erguer uma nova oportunidade. Ir para o local onde se construía a nova capital era uma “aventura”. Para os olhos de seus familiares, ele estava cometendo uma loucura. Ao fazer do “inseguro” e do “incalculável” os pressupostos de sua ação, a ação do aventureiro se torna loucura para o homem sóbrio. O aventureiro é autoconfiante, portador da 11″segurança sonâmbula”, os homens e mulheres que construíram Brasília tem a memória impregnada pela representação da aventura. O raciocínio de Seu Tiago visto na citação inicial, define bem essa nova proposta de vida. A busca por benefícios, no “oásis” goiano define bem o que é ser candango. O caçador de sonhos. A mitificação de JK é então transferida para a 12″massa anônima”. Os sujeitos que realizaram a obra são enfatizados e não a cidade. 13″O herói-povo, construtor do seu destino.”

Segunodo JK Os futuros intérpretes da civilização brasileira, ao analisar este período da nossa história hão de deter-se com assombro ante a figura bronzeada desse titã anônimo, que é o candango, herói obscuro e formidável da construção de Brasília e para qual desejo ter neste discurso a palavra calorosa do merecido louvor. Enquanto os descrentes sorriam da pretendida utopia da cidade nova que eu me dispusera a constituir, os candangos se encarregaram de responder por mim, trabalhando dia e noite para que até ai se cumprisse, no meu governo, a letra da constituição Bravo, fiel e destemido. O candango era peça fundamental para que Brasília se erguesse, sendo o espelho do vislumbre da perspectiva da mudança de vida em uma terra que promete maravilhas. O ritmo de trabalho alucinante era visto para os candangos como o caminho para uma recompensa final. A seca, a chuva, os redemoinhos enfrentados por estes, na narrativa candanga, parecia não interferir na disposição dos trabalhadores. Seu Guilherme15 lembra-se de um tempo diferente, onde todos “se davam bem” apesar das dificuldades. Aposentado da CEB, ele veio de Vitória-ES para trabalhar como encarregado de obras. “As minhas lembranças desse tempo são muito boas. Nós eramos unidos, tinhamos um bom convívio. Todo mundo tava feliz trabalhando, tinha gente de todo lugar e era tudo irmão. Eu trabalhava muito, tinha dia que varavamos a madrugada, mais estavamos felizes de construir a capital. Seu Guilherme recorda-se do quão cansativo era: O trabalho tinha hora pra começar. As 5:00 da manhã já se ouvia os barulhos dos tratores trabalhando no cerrado, aquele poerão levantando. Tinha que ser tudo rápido, pra ontem. Tinha uma pausinha na hora do almoço, a gente sentava nuns banquinhos improvisado e contava uns causo. Mais depois a gente voltava pro serviço, aí não tinha hora pra acabar não. Tinha dia que virava a noite na labuta. Mais ninguém reclamava, pois a gente tinha um serviço, pra mim já era o bastante. Hoje em dia o sujeito trabalha um pouquinho mais e já reclama” Para Bosi (1994) o que parece unidade é múltiplo, pois a memória é um encontro de vários caminhos e vivências, assim: O grupo é suporte da memória se nos identificamos com ele e fazemos nosso seu passado. (…) Outros fatores interferem na memória, como o lugar que alguem ocupa na consideração de seu grupo de convivência diária. (…) As lembranças grupais se apóiam umas nas outras formando um sistema que subsiste enquanto puder sobreviver a memória grupal.

Assim, o lugar isolado de tudo, o ritmo de trabalho alucinante e o espírito de entusiasmo, amizade e confiança favoreceram a formação de pequenos círculos. A identificação de idéias possibilitou a junção de trabalho e felicidade entre os candangos. A memória de candangos e pioneiros é marcada pela saudade de um tempo e lugar onde o trabalho criou uma comunidade de homens livres, um ambiente marcado pela esperança, onde as oportunidades profissionais juntavam-se a experiência utópica da refundação nacional. Esse discurso não é uma mistificação dissimulada. É uma união em torno do dever sagrado do trabalho, mesmo que com sacrifício, cansaço e exaustão. O tom de Seu Guilherme mostra resignação e uma alegria nostálgica. Não existe revolta em suas palavras, para ele o trabalho é tão natural como dormir, comer, andar. É uma necessidade. Um exemplo. Para Bosi (1994) a memória do trabalho vem: (…) acompanhada de uma valorização do trabalho evocado e de uma crítica, ou melhor, de uma estranheza em face dos costumes atuais. (…) aquilo que custou anos de aprendizado e que, afinal, sustentou uma existência, passa (ou deveria passar) a outra geração como um valor. (…) A memória do trabalho é o sentido, é a justificação de toda uma biografia.(p.481) O trabalho aqui não é só uma fonte salarial, é a inserção do homem dentro de uma hierarquia social construída e enraizada. Trabalhando o homem participa de um sistema de relações econômicas e sociais. O construto de um imaginário de uma nova vida, onde as realizações de sonhos estavam ao alcance de todos, em uma terra da qual se ouvia maravilhas. De acordo com Baczko (1990):O social produz-se através de uma rede de sentidos, de marcos de referência simbólicos por meio dos quais os homens comunicam- se dotam-se de uma identidade coletiva e designam as suas relações com as instituições políticas etc. (…) Assim se define um código coletivo segundo o qual se exprimem as necessidades e as expectativas, as esperanças e as angústias dos agentes sociais. A nostalgia também faz parte da fala de Seu Tiago: Ih, aqueles tempo num voltam mais não. Era tempo de gente direita. Cê (sic.) podia esquecer até dinheiro em cima duma (sic.) mesa de buteco, qui si tu voltasse lá, ou tava no mermo lugar, ou tava guardado. Era só gente direita e trabalhadora que tava aqui, pai de família, gente de bem. Hoje em dia só tem mala. Esse conflito entre a memória do passado e os acontecimentos recentes faz parte do discurso dos entrevistados. A lembrança traz para o presente um acontecimento único, que não se repete, irreversível. Ela é uma construção feita a partir dos materiais que se encontram a disposição. Faz parte de a natureza humana olhar para o passado com nostalgia do que poderia ser e não foi, do que era e não é mais. Sobre essa nostalgia, Ecléa Bosi (1994) em seu livro Memória e sociedade – lembranças de velhos conceitua: O passado conserva-se e, além de conservar-se, atua no presente, mas não de forma homogênea. De um lado o corpo guarda esquemas de comportamento de que se vale muitas vezes automaticamente na sua ação sobre as coisas. (…) ocorrem lembranças independentes de quaisquer hábitos (…) que constituiriam autênticas ressurreições do passado. (p. 48) Como todo discurso, este é inevitavelmente uma construção, uma versão dos fatos e não fatos em si. Essa representação do passado possui interferências externas a vida do entrevistado. O Brasil do qual “Seu” Tiago fala era o Brasil que ia a passos largos em direção ao futuro, á modernidade, onde os brasileiros poderiam criar uma nação diferente. O País se vangloriava de gerar finalmente, novidades para o mundo a partir de sua própria cultura. Esse era o Brasil dos “50 anos em 5”, da primeira conquista futebolística numa copa do mundo, toda essa ideologia interfere no discurso dos entrevistados. Dentro desse entrecho, pode se detectar o ufanismo, o otimismo e o imaginário comum da década de 50. O resgate dessa memória implica em selecionar os significados passados compatíveis com a nova totalidade do presente, criando uma ponte entre esses. Ao se recorrer ao passado, não mais em seu significado pretérito, mais numa nova leitura do presente. A obra urbanística, o ideário de progresso, de supressão das desigualdades, de promoção do cidadão brasileiro no sentido de integrar este a um novo mundo moderno, transfere-se para cidade e seus primeiros habitantes desde seu início. Toda a concepção de Brasília contém uma nova proposta de vida, vida esta que dá ao brasileiro o direito sobre benefícios modernos. A proposta desenvolvimentista combina-se a moção de uma cidade moderna, edificada sob os mais avançados recursos do urbanismo. A nova capital se define, dentro desse raciocínio, como a materialização do progresso ( 50 anos em 5) para o qual o país caminha. Ao estudar o projeto modernista de Brasília, deparamo-nos com um problema conceitual. Na arquitetura e nas Artes o termo moderno é usado para nomear as concepções formuladas a partir da virada século XIX para o século XX. Na dimensão histórica, o termo refere-se a um intervalo do processo histórico tal como História Moderna e História Contemporânea. Para Jacques Le Goff (1990), o modernismo é o “termo que marca o endurecimento, pela passagem á doutrina, de tendências modernas até então difusas.”(p.179) Le Goff, em seu texto, propõe uma relação continuísta do modernismo em relação ao moderno, sendo o primeiro uma síntese de conceitos pré-existentes, porem que careciam de doutrinação. A modernização seria uma espécie de transformação da realidade, um processo de atualização histórica. O modernismo é uma referência que marca a história de uma busca de identidade nacional, presente no pensamento brasileiro no século XX. A modernidade estava atrelada ao otimismo, assim, ser brasileiro nesse período, significa ser moderno. Para Seu Ângelo, Brasília é a síntese da modernidade brasileira. Ao mostrar a maquete da planta de Brasília, localizada no Museu Vivo da Memória Candanga, ele diz: “Olha como é perfeito (diz apontando com o dedo na maquete) tem a praça do três poderes, até a terceira ponte colocaram aí. Brasília é a cidade mais moderna do mundo, e o Nyemaier gostava de desenhar assim com um monte de curva. Não tem nenhuma cidade no Brasil com esses prédios assim desse jeito. Acho que só perde pra esses países da Europa, tipo França né?” Na visão de Seu Angelo, o significado de moderno está inerente a arquitetura singular de Oscar Niemeyer, presente nas curvas dos prédios desenhados por esta na capital. O modernismo arquitetônico brasileiro se desenvolveu sob a influência de inúmeros fatores pertinentes ao período de 1920 a 1960. Esse modernismo se diferencia daquele apregoado na Semana de Arte Moderna de 1922. A distinção é a internacionalização das concepções estéticas promovidas no Brasil, ao mesmo tempo em que essas ocorriam na Europa, concepções essas que romperam com a estética neocolonial. O modernismo inaugurou no país uma estética influenciada pelas visões do exterior, mas enfatizando uma temática nacional. O modernismo em Brasília surge como um sistema de signos, e também como expressão do projeto desenvolvimentista de JK.

Personagem: JK

Em busca de um paraíso perdido, repleto de abundancia e felicidade, os candangos mitificam não só a “terra árida e deserta” mais também a figura regente de JK, que orquestrava a obra modernista de Brasília. Nas trovas de Varela (1981): “Quando Juscelino chegava todos mudavam a feição era o chefe do governo cheio de satisfação sentia-se que seu prazer era esta construção (…) Um cidadão sorridente complementava os candangos dizia estão satisfeitos isto aqui é um sertão mais tarde vai ser a redia a capital da nação Entre todos os presidentes foi ele o mais popular a sua política foi só mesmo de trabalhar se um dia ele desaparecer todos tem que se lembrar

Para “Dona” Valdomira17 moradora de Planaltina, dona de casa, a personificação do Brasil no tempo da transferência da nova capital se encontra na figura de Juscelino Kubistchek: “Olha minha filha, nunca mais vai ter presidente “home” como foi o Juscelino. Esses que entram aí é só pra roubar o povo e não faz nada. O Juscelino é que foi “home”, naquele tempo o Brasil era outra ‘coisa’. Antigamente o presidente mandava, falava que ia fazer e fazia. Olha Brasília mesmo, só ele que teve peito pra fazer, ninguém botava fé nele, mais ele mostrou que quando ‘os político” qué, eles faiz.” A heroificação de Juscelino é característica marcante na memória de uma boa parte dos entrevistados.

Para os candangos, Juscelino possibilitou a criação de um ambiente em que as perspectivas de um futuro diferente eram palpáveis. Os homens acreditavam na criação de um espaço novo, onde uma vida diferente se constituiria. JK personificava esse novo tempo. Seu Guilherme não conheceu JK, mais fala dele com entusiasmo e admiração: Foi o melhor governante do Brasil. A gente ouvia dizer dele, que era um homem direito. Eu não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mais muito amigo meu conheceu e disse que ele era muito gente boa. Conversava com todo mundo do mesmo jeito. Tem muitos ai que chegaram ontem no governo e cita ele não é? Mais nenhum segue o exemplo. Hoje os presidentes só querem saber de “tirar o seu” e o povo que se dane.” O médico, mineiro de Diamantina que iniciou a vida pública em 1932 foi um pessedista típico e verdadeiro aventureiro, que passava por cima de costumes tradicionais em busca de inovação.

A oposição conservadora da UDN, da qual compunha tanto o segmento agrário como a classe média urbana, vinham Juscelino como herança do estado novo. JK possuía um vocabulário muito desenvolvimentista, ou seja, um estranho no ninho da política mineira que possuía o caráter tradicional, ranço do período da Republica Velha. Juscelino tinha o estilo do “povo”, falava diretamente com eles, gostava do contato direto. Segundo Pinheiro (2001) em JK, Jânio, Jango: três jotas que abalaram o Brasil. : O certo, entretanto, é que o estilo JK, que tanto desagradava a parte das elites, agradava ao povo – primeiramente na prefeitura de Belo Horizonte,-depois no governo do estado. E quanto mais popular, maior a oposição gerada nas elites…(p.24) Nas palavras de Seu Tiago, Juscelino era um “homem muito humilde”. Ele andava lá no meio das obra. Apertava a mão de todo mundo, conversava com todo mundo. Falou comigo um dia, fiquei meio sem jeito, mais ele deixava a gente á vontade. Era muito trabalhador, seis hora (sic) da manhã já tava andando no meio das obra (sic), tomando cafezinho com as peãozada (sic). A chegada de JK a presidência foi mais que uma posse de um determinado projeto de poder. Foi legitimação de um projeto político nacional- desenvolvimentista que só se tornou viável ao encontrar ressonância no imaginário de poder e expectativas de futuro presentes na nação brasileira.

O presidente “Bossa Nova”. Mesmo perseguido durante o governo militar, os últimos anos tem sido generosos com Juscelino. A maior emissora do país produziu recentemente uma minissérie sobre sua trajetória, e paradoxalmente através de seu fundador18, então a frente do Jornal antimudancista “O GLOBO”, JK teve ferrenha rejeição e crítica. Os livros biográficos de sua trajetória como os de Couto19 (2002) e Bojunga20 (2001) tratam de exaltar sua capacidade política e de superação de dificuldades numa clara ufanização do mito. A imagem do presidente parece ser imune ao desencanto. A sua imagem é ligada a modernidade, desenvolvimento e ousadia. Através do discurso, não só de candangos, mais de políticos jornalistas e historiadores, o mito JK se fortalece no imaginário e na realidade Histórica. Citemos o economista Marcelo de Paiva Abreu: JK não precisa de atmosfera de conto de fadas ou de sebastianismo para ser considerado um dos dois ou três melhores presidentes da história republicana, civis ou militares, ditadores ou não, na República Velha ou pós-1945. Sua habilidade política assegurou amplo respeito às liberdades democráticas e o esvaziamento das manifestações mais daninhas do lacerdismo militar. Teve grande sucesso na venda da imagem de nacionalista, baseado no compromisso com o Brasil interiorano, materializado em Brasília (…). O Brasil mudou de cara doponto de vista econômico, com importantes mudanças estruturais e acelerado crescimento. Dadas as limitações dos anos 50, e mesmo que de forma bastante improvisada, JK tinha uma estratégia de crescimento que foi coroada de sucesso.

Considerado assim, como um dos melhores presidentes do país, JK, e sua figura mítica se entrelaçam com o poder institucional. O canalizador e executor dos sonhos de milhões de brasileiros, ideal de qualidade e virtude. Essa leitura apaixonante do presidente é enfatizada na fala de Dona Valdomira: Olha minha filha, aquele era homem bom. Olha só Brasília, o ele deu a vida nessa construção. Muita gente criticou ele por causa de Brasília, mais era inveja. Se não fosse os militares ou se naquela época pudesse ser presidente duas vezes igual hoje, com certeza ele seria presidente de novo. JK é uma personalidade incomparável e singular. O símbolo do Brasil que nascia ladeado pela atmosfera otimista. Um suspiro de democracia no país vitimado por ditaduras e caudilhos. Mas, como todo personagem impar, Juscelino Kubitschek e sua obra são marcados pelas duras críticas como veremos no capítulo seguinte. A História, como se sabe, não é feita de verdades absolutas Capítulo 2 Os “Espinhos” 1. Anti-mudança “Quase ninguém acredita esta cidade não vai começou o falatório naquele vai mas não vai mas o negócio era sério começou o pau quebrar pois o decreto era mesmo do governo federal”

No dia 22 de janeiro de 1957 o Jornal de Carlos Lacerda (Tribuna da Imprensa23) estampava em sua primeira página um avião atolado na lama da primeira pista do aeroporto da cidade em construção. A chamada dizia “Brasil afundou em ‘Brasília’ ao peso do avião de Kubitschek”. Essa foi uma das inúmeras reportagens da época que enxergavam a construção da Nova Capital pela visão antimudancista, da qual o Jornal de Carlos Lacerda era o maior filão. Outro inimigo do Projeto era o ex-ministro da Fazenda do governo Café Filho. Para ele JK estava fugindo da opinião pública e gastando oceanos de dinheiro numa aventura irresponsável. A luta, ainda que simbólica, entre antimudancistas e mudancistas concentrou esses e outro nomes do cenário político brasileiro. Gilberto Freire24, pioneiro do culturalismo no Brasil e autor de Casa Grande & Senzala, deputado pela UDN em 1946, de 1933, veio a Brasília a convite de JK mais não deixou de expor sua opinião: “A maneira como Brasília foi feita, sob uma perspectiva do assunto inteiramente ditatorial, não foi nada boa (…) quem foi mais ditatorial no Brasil que Juscelino, no modo de criar Brasília? Ele agiu como um faraó chamou dois arquitetos, aliás, ilustres, e disse: vocês vão levantar uma: capital e eu dou carta branca. (…) Ela se tornou para ele uma espécie de amante-mulher (…) Brasília habitada esta sendo humanizada pelos seus habitantes, mais ela começou inumana.” A oposição, que primeiro tentou impedir a obra, começou a duvidar que esta tivesse êxito, e torciam para que essa fosse o túmulo político de JK. A grande imprensa alegou que a obra era onerosa para o Estado e a principal causa da inflação.

A imprensa da época reportava abandono da cidade. Feita para 500 mil habitantes, ficou claro na época que a cidade atrairia para si pessoas de várias partes do país. A “Capital de Esperança” deu ensejo e guarida para vários migrantes, que, ao contrário da proposta do projeto inicial, não voltaram para suas cidades de origem, após a inauguração em 1960. Brasília então escapou ao seu modelo inicial de povoamento. No dia de sua inauguração. O caráter planejado para cidade provocou a exclusão das classes populares para cidades satélites que foram planejadas ao longo de sua construção, para abrigar milhares de trabalhadores de forma temporária. Dona Valdomira exemplifica esta especificidade candanga: “Eu vim pra trabalhar de cozinheira, junto com meu esposo (falecido) que ia trabalhar na obra. A gente morava num barraco de lona no Núcleo Bandeirante. A gente veio sem os ‘menino’ (5 filhos), mais aí as coisa foi se ajeitando e a gente ficou e depois mandamo buscar eles.” Para socióloga Licia do Prado Valladares, existem ‘duas Brasílias’: Brasília desempenha um papel de fronteira, de terra de pioneiros, desde o tempo em que era apenas um enorme canteiro de obras. (…) Opondo-se ao Plano Piloto bem equipado – com apenas 30% da população total – teríamos as cidades satélites, distantes e subequipadas. Opondo-se ao espaço exclusivo dos ricos – também conhecido como “Ilha da Fantasia” – teríamos a “periferia”, o espaço dos excluídos, dos pobres. Numa visão dual esses espaços seriam bem contrastantes: o Plano Piloto e o cinturão de pobreza a contorná-lo. Brasília tornou-se o inverso do planejado por Lúcio Costa. A segregação social, segundo Valladares, faz parte de Brasília desde seu início.

Essa dualidade de realidades reflete o espírito fronteiriço de seus pioneiros, o não pertencimento que apenas reafirma a identidade distinta. Uma rígida organização de moradia nega a identidade para depois reafirma-la e reconstruí-la com o intuito de preservá-la 2. “(…) sangue de centenas, o suor de milhares e as lágrimas de muitos.”26 Muitos candangos também reclamam dos maus tratos sofridos na época. Polícia violenta, excesso de trabalho, comida estragada. Seu Vinícius27 funcionário aposentado da antiga NOVACAP, nordestino de Igaraçu – PE, diz que foi um tempo muito difícil:

Seu Vinícius “Foi um tempo muito difícil. A comida era ruim e por qualquer coisinha a atoa os policiais espancavam o cidadão. Tinha ‘nêgo’ que morria e era enterrado sem nada, porque ninguém podia saber. O salário era alto, mais sumia na mão da gente num instante. Comprava um saquinho de arroz, outro de feijão e acabou. E a gente não tinha nada, aqui era só poera e lama.” Brasília constituiu-se em, na sua construção, em um projeto de utopia urbana. A idealização de uma capital moderna que traduziria o momento de desenvolvimento do país. O “outro lado da moeda” da capital brasileira encontra-se na provisoriedade em que refletiu em conseqüências imprevisíveis e distintas do processo de edificação de Brasília como cidade. A utopia da cidade igualitária, onde todos poderiam ter acesso as “modernidades”, transformaram-se de sonhos em pesadelos para muitos. A História aponta o desmoronamento de sociedades que almejavam trazer igualdade social e que basearam seus fundamentos nessas idéias. No caso de Brasília, a igualdade não poderia ser estabelecida por decreto, como sua construção. O “país do futuro” de 1950 já possuía uma ‘herança’ de estrutura social desigual. Sebastião Viana, o Tião da UNB, que morreu em 1995, escreveu os versos O Candango da Fundação de Brasília em forma de cordel, publicado em 1981 relata em forma de trova a dura vida dos que pegaram no pesado para construir Brasília:

Tudo era violento sem parar sequer um dia a frota do basculante com o cascalho da pista tudo eixo encascalhado os grandes carros de piche esguichando toda estrada as máquinas fazendo o piso (…) Tinha uns políticos contra JK nem se importava botaram até no jornal algumas vezes criticava mangando das decisões que o governo tomava enquanto isto candango aqui nunca se agüentava São os versos verdadeiros da fundação de Brasília que nos fala da poeira também dos alagadiços da verdadeira intriga de candangos com policiais Do chuverão sem parar até amanhecer o dia candangos no descoberto tiriricando de frio os fogos todos apagados ouvindo cantar de jia Os barracões do governo tinham muita segurança porém os particulares eram mesmo uma matança parece que o temporal perseguia por vingança Chegava uma ventania tão forte de assobiar uma chuva de poeira era para começar a água vinha depois e começava a chegar Quando a poeira baixava chovia mesmo a granel relâmpago de caracol rasgava o bucho do céu ali por cinco segundos se ficava quase cego Candangos só agüentavam por causa do ordenado trabalhavam como nunca porém ganhavam dobrado comia o pão que o diabo amassou no meio deste cerrado E por isto que o candango se sujeitava à poeira dobrava e redobrava dentro do barro vermelho suportava o que já disse somente atrás do dinheiro Muitos eram econômico fazia seu dicomer cozinhava almoço e janta cuidava de uma vez voltava pra sua terra mas não era na pobreza Outros não dava valor bebia igual um pato chegava no mulheril bebia cachorro e gato terminavam ébrios e a polícia levava dando sopapo Polícia naquele tempo pagava para bater às vezes sem necessidade levava para a cadeia quanto mais o homem ébrio esse apanhava sem ver Hoje nem se fala mais do começo de Brasília.

A construção foi marcada por dois eixos: a visão “mitológica de futuro” e a precariedade das condições de vida de seus construtores. A migração de homens de vários cantos do país não foi levada em conta no projeto original da cidade. Dessa maneira, milhares de operários viviam em condições precárias na nova capital. Em Sousa (1983) vemos que: “Registros de moradores antigos descrevem um cenário pouco confortável nos acampamentos.(…) Os colchões eram de capim e a falta de higiene nos alojamentos favorecia a presença de percevejos, pulgas e piolhos, sendo as vezes necessário incendiá-los.”(p.37) O ritmo da construção era intenso, o que dava espaço para arbitrariedades, principalmente no que diz respeito as leis trabalhistas. Os turnos duravam de 6 ás 24 horas e outro de 24 ás 18 horas, e não raro os candangos faziam horas extras nos fins de semana. Só o Plano Piloto foi planejado e várias cidades cresciam em torno, construções que seriam provisórias mais que após reivindicações dos primeiros habitantes passaram a ser definitivas (as chamas cidades satélites) sem nenhuma estrutura pela pressa com que se planejou e construiu a cidade. Seu Vinícius relata-nos sua experiência:” Funcionava assim, você cumpria seu turno, daí, com um tempo vinha o encarregado dizendo que se você ‘dobrasse” o salário do turno também dobrava. Aí, você ta no meio do nada, longe da tua terra, querendo só fazer um pé-de-meia, você encara. Tinha nêgo que trabalhava até desmaiar de cansaço. Mais ninguém tinha pena não, falta um, logo aparecia outro pra ocupar o lugar, porque tinha um prazo pra se cumprir e nada podia atrapalhar.” Porém, Brasília representou um novo horizonte para todos que encontravam dificuldades em suas regiões de origem. A procura por trabalho constituiu-se em motor migratório para o Distrito Federal. A ausência de uma regulação na área de segurança também provocou atritos. Os guardas eram escolhidos entre os migrantes e recebiam um rápido treinamento para cumprir suas funções. A truculência da GEB (Guarda Especial de Brasília), onde os homens escolhidos eram policiais goianos violentos e migrantes fortes são também reconhecidas no discurso de Seu Vinicius.” Nêgo apanhava por nada naquela época. Tinhas uns que bebiam uma cachacinha nas folgas pra aliviar as idéias, aí já viu né? Os cara tão ligado, ai conversa vai, conversa vem, começava uma discussão. O policiais da GEB logo aparecia e aí era um salve-se quem puder. O cacete comia feio, mais isso ninguém fala hoje. Só fala de Juscelino, que ele foi isso e aquilo, mais ele foi igual os outros. Roubou demais na construção de Brasília, todo mundo sabe disso”.

Dentro desse contexto, construído pela memória de Seu Vinícius, nota-se que a construção de Brasília possui a história dos “vencedores”, aqueles que conseguiram realizar seu objetivo de nova vida e realizações, mudando o curso do próprio destino, e a memória dos “vencidos”, que foram oprimidos e vencidos pelas dificuldades, vendo ruir seus sonhos utópicos de “uma nova vida”. Le Goff (1990) avalia em História e memória: (…) os vencidos, em lugar de uma verdadeira história, formam uma ‘tradição como meio de recusa’. Uma história lenta dos vencidos é também uma forma de oposição, de resistência à história rápida dos vencedores. (…) por outro lado, esta história lenta que encontramos na cultura “popular” é, com efeito, uma espécie de anti-história, na medida em que se opõe à história ostentatória e animada dos dominadores. Ou seja, diferente de Seu Guilherme ou Seu Tiago, ou mesmo Dona Valdomira, que olham para Brasília como a concretização de seus sonhos, Seu Vinícius vê todo esse processo como uma exploração dos “vencidos” pelos “vencedores”. Ele se opõe e resiste a essa “Fantasia de esperança”. O olhar dele sobre os acontecimentos é diferente, porém não discrepante da realidade. Juscelino Kubitschek é visto nesse relato como culpado. No conceito nietzschiano, origem da “culpa” está vinculada ao conceito material de “dívida”. A quebra do contrato assumido com o grupo, de igualdade e esperança, torna o devedor um criminoso, um infrator, um culpado. Para Nietzsche em Genealogia da moral: uma polêmica: (1998): “o criminoso é, sobretudo um “infrator”, alguém que quebra a palavra e o contrato com o todo, no tocante aos benefícios e comodidades da vida em comum dos quais participava.” (p.60) Seu Vinícius culpa JK pelo que não deu certo, pela desilusão do que, na concepção dele, não vingou. Porém, Seu Vinícius não voltou para sua terra, ele ficou e em Brasília construiu sua vida. O construto de uma ilusão do discurso em questão desconstrói a pespespectiva mítica, porém não a elimina por completo.

Pollak(1989)cita em essa são a s chamadas “memória subterrâneas” que : Recusar levar a sério o imperativo de justificação sobre o qual repousa a possibilidade de coordenação das condutas humanas significa admitir o reino da injustiça e da violência. À luz de tudo o que foi dito acima sobre as memórias subterrâneas, pode-se colocar a questão das condições de possibilidade e de duração de uma memória imposta sem a preocupação com esse imperativo de justificação. Nesse caso, esse imperativo pode se impor após adiamentos mais ou menos longos. Ainda que quase sempre acreditem que “o tempo trabalha a seu favor” e que “o esquecimento e o perdão se instalam com o tempo”, os dominantes freqüentemente são levados a reconhecer, demasiado tarde e com pesar, que o intervalo pode contribuir para reforçar a amargura, o ressentimento e o ódio dos dominados, que se exprimem então com os gritos da contra violência. (p.7) Seu Tiago então valoriza um lado da História enfatiza exatamente o que os “enquadradores de memória” insistem em colocar à sombra. O que os outros entrevistados colocam como fatos diminutos ou pequenos efeitos colaterais de algo maior a ser alcançado ele expõem as claras como às “feridas” e o “obscuro” dos “anos dourados”

Terra Sincrética

Um Grande emaranhado de crenças Além da corrida pela busca de uma redefinição de sociedade brasileira, a mudança da capital para o centro do Brasil representou também uma busca mística. Futura capital do então maior país católico do mundo, teve seu “batismo espiritual em 3 de maio de 1957 numa missa celebrada na mesma data da primeira missa celebrada no país. Mais Brasília era um caldeirão de crenças. Assim com aglomerava e acolhia pessoas vindas de todos aos cantos do país, a cidade nascitura englobou várias religiões. Católicos, Evangélicos, Espiritas,Umbandistas e os Ecléticos conviviam no turbilhão de culturas e regionalismos dos candangos recém chegados. Fruto de uma profecia, de São João Dom Bosco na noite de 30 de agosto de 1883 que vislumbrou uma nova cidade, o advento de uma nova civilização, Juscelino se agarrou a esse sonho-profecia27 como símbolo e sinal de predestinação: “A visão de Dom Bosco fora (…) uma antecipação (…) profética do que iria ocorrer no Planalto Cental apartir de 1956.” (p.15) O missionário da Missão Presbiteriana no Brasil28, John Miller e sua esposa Margareth Jean já pregavam na região de Formosa-GO e Planaltina-DF desde 1956. A Assembléia de Deus começou seus trabalhos em 19 de Novembro de 1956 e inaugurou seu templo em 15 de junho de 1957 Em 1956 um ex-piloto Yokanam liderou a fundação de uma comunidade mística – a Fraternidade Eclética Espiritualista Universal- nos arredores da nascente capital. Em 1959 uma ex-motorista de caminhão, Tia Neiva, deu início, em Alexânia-G O aquilo que viria ser o Vale do Amanhecer em Planaltina – DF.

Segundo D. Valdomira, as religiões viviam em harmonia: “Todo mundo tinha Deus no coração. Todo mundo comia junto, conversava e se respeitava. Crente, católico, espírita todos eram de bem. Os padre (…) até se juntava com os pastor (…) para ajudar quem precisava e foram eles também ajudaram um monte de gente a ganhar lote”. Quem pesquisa sobre Brasília encontra muitas referências as imagens desta como terra prometida, paraíso, el dorado. Migrantes que renunciaram suas terras para pregar o Evangelho, fundadores de movimentos messiânicos que deram certo são exemplificados por SILVEIRA (1994): “(…) religião e política compartilham de uma linguagem comum e de um mesmo universo de representações simbólicas (…) esperança, utopia, sonho, centro, céu, elevação, que levam a razão política do progresso e do desenvolvimento até a dimensão do mito e das profecias.”(p.20) Ou seja, o milenarismo e misticismo Ibérico presente na cultura brasileira foi catalisado na nova capital. O sentido da expressão de Malrax (“a capital da esperança”) é o de que Brasília fazia com que os sonhos esquecidos e a nobreza do mundo renascessem. A nova civilização representada no sonho de Dom Bosco seria o símbolo da luta épica do homem contra a terra. O mistura de crenças e credo nasceu com Brasília e nela se firmou. Reis28 (2008) fala dessa propensão natural brasiliense: “Eis a sua vocação, ainda gestacional, mas notadamente sentida, de produzir a articulação entre espaços e tempos de origem diversos, que, imbricados, definem os contornos de uma paisagem humana particular, informada e distinguida pela multietnicidade.”(p.3) Juscelino, apesar de não explicitar esse caráter místico da capital e ser conhecidamente católico, é visto com a reencarnação de figuras históricas, tais como Nero ou do Faraó Akhenaton. A cidade nascida de uma profecia possui sim, um caráter espiritual. Não poderia ser diferente, visto que esta é a capital de um país (Brasil) que tem sua matriz cultural no místico e mítico.A Canaã Brasileira, Seu Ângelo, evangélico, diz que morar em Brasília foi “plano de Deus”: “Por um acaso que eu vim pra cá. Acaso não, foi Deus que me mandou pra cá. Até dinheiro emprestado eu tomei pra chegar aqui. Já tive chance de ir embora, mais sei que Deus não quer. Sabe, aqui é o lugar pra onde Deus me mandou” Espaço geográfico privilegiado, em Brasília o sagrado está ligado a espacialidade. Seja pelo otimismo onde seu projeto foi gestado, seja pelo discurso apologético de seus oposicionistas, Brasília tornou-se um berço de imaginários sobrenaturais. Dona Valdomira, católica não praticante e simpatizante do espiritismo, vê a cidade como o “paraíso”. O que eu acho mais bonito aqui é o céu. É diferente, bonito. O sol ilumina tudo, parece que é o olho de Deus em cima da gente, cuidando da gente. Eu não duvido não. Eu acredito nessas coisas de ‘espirito’ A espacialidade ligada ao mítico torna a cidade diferenciada até mesmo no sentido espacial. A ‘Terra prometida’ tem simbologia cósmica até em seu traçado. O cruzamento do eixo rodoviário e monumental tem a forma de uma cruz, como no projeto de Lúcio Costa. Essa sacralidade utilizada por Costa transmite a união do sagrado e da religião na Capital. Brasília é o construto de um caráter vaticínio e modernizante. A meta síntese de Juscelino, revestida de utopias, impõe-se predestinada a atender as aspirações, cobiças e perspectivas humanas. O caráter messiânico da obra prima de Niemayer possui as vozes do imaginário conceituadas por Laplatine (1993): “A espera messiânica ou milenarista, que é a resposta sociológica normal de uma sociedade ameaçada por dentro ou por fora em seus fundamentos: multidões exploradas, sedentas de absoluto de justiça social se reúnem em torno de grandes profetas ou pequenos iluminados transformando seu desespero em esperança. 30” A capital federal possui diversas roupagens sagradas – evangélicos, espíritas, católicos, budistas, ecléticos- ou, seja, um vasto campo de instituições que possibilitam orientar seus seguidores em conexões com o sagrado. A contradição da “sagralização 31” da espacialidade Brasiliense encontra-se no pressuposto de que a moderna capital, que contemplaria a igualdade, o civilidade, o coletivo e a fraternidade teve como meio a racionalização do místico trouxe na prática todas a “irracionalidades ” e resistências, até mesmo ao sagrado. A história dos “vencidos” e da realidade candanga mostra que o projeto utópico de seus idealizadores não visionou a oposição humana as esses preceitos igualitários que se mostraram frustrados na prática. Brasília, porém, diante de toda adversidade do esfacelamento de seu projeto de esperança é vislumbrada pelos crentes como sede de desenvolvimento espiritual. Laplantine explica essa dualidade entre o pessimismo e o otimismo, fatores que levam a fé com intensidade análoga: “Todas estas aspirações profunda estão ávidas por absoluto e querem preencher a insuficiência e a insignificância sociais. Elas irrompem a cada vez que as sociedades vivem horas difíceis no estrondo de seus valores destruídos, de um mundo que perdeu seu sentido, de instituições que se esvaziam e de um futuro no qual não se crê mais. Nestes momentos de efervescência social, a imaginação coletiva se dilata até o infinito e apela para aquilo que devemos chamar de sagrado.”

Seu Vinícius expressa bem o lugar da religião na vida de quem passou por dificuldades e sobreviveu pela fé: Claro que eu acredito em Deus e nos santos. Pra passar pelo que passei nesse lugar e sobreviver pra contar só mesmo com ajuda de Deus e de ‘Nossa Senhora’. Toda vez que as coisas apertava eu rezava pra ter força. A mistura de fenótipos existente em Brasília dá combustível para que se alimente o ecletismo existente na cidade. O convívio, ora pacífico ora atribulado das várias correntes de fé existentes ilustra a espeficidade candanga no que diz respeito ao sagrado. Esse é visto como alívio para dissabores do que “poderia ser diferente” e do agradecimento daqueles que enxergam na capital a realização de uma utopia de novo Brasil. Considerações Finais Este trabalho tentou, através da narrativa candanga e do embasamento teórico pertinente, reunindo através de seus relatos, os fragmentos necessários para a construção de uma História de Brasília através dos sujeitos que construíram seus sonhos nas curvas de concreto da nova capital. O palco desse enredo é a memória dos anos 50, suas idéias desenvolvimentistas, os ares modernistas, a migração que mudou a cara do cerrado, as idéias que ajudaram na consolidação do Projeto da Capital da esperança. Não poderia deixar de tratar da sacralidade que nasceu juntamente com a cidade, a imagem mítica e mística que está inerente a esta desde sua concepção até os dias atuais. Diante disso, Sonhos de concreto na Capital da Esperança tentou trazer para os dias atuais relatos, acontecimentos e visões de outra época, reconstruindo o passado através da memória e do conjunto de livros sobre o assunto. Nos relatos esta inserido as esperanças e inquietações de quem conta como foi a vida naquela época, a perspectiva de um recomeço. As vivencias contraditórias tanto quanto os primeiros tempos de Brasília. O papel da oralidade visa aqui dar a voz ao imaginário dos trabalhadores, pessoas comuns que sonharam uma capital dos brasileiros onde todos teriam direito de edificar suas vidas ou mesmo “recomeçar” uma nova existência de possibilidades. Como todo construto histórico, as entrevistas e livros que contam o surgimento da nova sede do governo federal tem vários heróis, citando aqui principalmente a figura do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, e personagens, os candangos que se dispuseram abrir seu baú de memórias. Esses últimos assumem o papel de criadores de Brasília e do novo mundo que essa prometia. O cenário de insólito do cerrada inabitado demonstra também as diferenciações dos canteiros de obra e dos espaços urbanos em formação, o ritmo acelerado de trabalho e a conquista do novo espaço. A proposta deste Trabalho de Conclusão de Curso é uma viagem ao começo de Brasília nos tempos de sua construção. A “fala” dos candangos pontua esse processo pelos olhos dos atuantes no processo. Recuperar esses sentidos que são atribuídos por eles ao decurso da construção da cidade, as significações do contexto social ao qual estavam inseridos faz com se reflita sobre essas vivências ímpares recriando o passado através da percepção dos migrantes, que erigiu a formação de uma nova realidade. Sabe-se porém que o projeto desenvolvimentista de JK, o projeto de Lúcio Costa de agregação, de uma cidade “feita para todos” , ficou boa parte na utopia dos candangos. O curso da História mostrou algo diverso do que os idealizadores do projeto tinham como objetivo principal. A cidade cresceu de forma tão díspar quanto desigual foi sua aglomeração de várias culturas e regionalismos então presentes no país. A provisoriedade e a expansão de Brasília vieram como conseqüência de seu crescimento desordenado. Porém não se tira o mérito desta que é tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade. É uma cidade que , para seu pioneiros, possui natureza acolhedora, uma aura mística inexistente em outras cidades Brasileiras, e nas palavras de Dona Valdomira: ” o céu mais lindo do mundo!” Os “heróicos bandeirantes” e suas memórias expõem o entrecho ideológico da época em que a Nova Capital foi iniciada. Sonharam, juntamente com JK, Niemeyer, Lúcio Costa e tantos outros a cidade diferenciada, que mudaria o mapa “litorâneo” do país e se destacaria nacionalmente de todas já existentes.

 

 

 

 

 

 

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