Eu, a Polícia

Nasci junto com a civilização. Nos primórdios dos primeiros aglomerados humanos eu já estava lá, presente, desvelando-me pela manutenção da ordem; prestando a necessária proteção e tranqüilidade, sem as quais seria impossível qualquer desenvolvimento material ao rebanho de almas que se formava naquele momento.

Sou irmã gêmea da Religião. Juntas, em nome da paz, impomos certa moralidade aos desregramentos do espírito e reprimimos os abusos da carne. Complementamo-nos. Os ensinamentos divinos daquela servem-me de base a lastrear o árduo exercício do ofício que me foi instituído.

Tenho orgulho de descender diretamente da Moral e dos bons costumes, elementos em constante sedimentação pelo atrito diário do povo, conforme a marcha constante de suas aspirações e desejo incontido de progresso.

Por este motivo meu nome deriva do vocábulo grego politeia e do latim politia. Ambos de igual significação: governo, administração da cidade. A mesma raiz etimológica (polis) do meu batismo, também dá origem à palavra política, cuja definição é por todos conhecida. Pois bem, somos primas em primeiro grau.

A mitologia greco-romana não me atribuiu representante específico no Olimpo, como o fez com o comércio e a medicina, por exemplo. Porém, sou devota altiva e ardorosa das qualidades conceituais da deusa Têmis – e de suas filhas Eirene (Paz), Eunomia (Disciplina) e Diké (Justiça) –, além de receber estímulos do deus Prometeu.

Na deusa Têmis e sua prole com Zeus, busco inspiração para agir acertadamente, respeitando a oscilação dos pratos de sua balança e a fecundidade de sua cornucópia. Em Prometeu, procuro imitar o exemplo de auxílio despojado a todos os homens, mesmo tendo por retribuição provavelmente o mesmo castigo eterno.

Durante minha trajetória, por muitas vezes e em épocas e nações distintas, déspotas desprovidos de legitimação e, invariavelmente, odiados por seu povo, ataram-me a engonços e manipularam largamente o meu ofício, açulando-me contra a população em genuína revolta, para assegurar-lhes o trono ou a perpetuação do poder arbitrário.

Nunca me revoltei isoladamente por causa disso, mas sempre fui sediciosa em diversos outros levantes, constantemente à braços com a sociedade vilipendiada.

Apesar de ter me deixado marcas profundas, nada disso, entretanto, conseguiu apagar o carinho e a candura que o povo guarda por mim em seu coração. Nasci de seu ventre com a missão de protegê-lo como um pai deve guardar o filho dileto. Sou filha dele, mas também ele é meu filho. Esta relação é indestrutível!

Por conta desta intrínseca simbiose, não há nação no mundo, por mais avançada técnica, espiritual, econômica e democraticamente, que prescinda dos meus serviços. Em todos os estados e regimes eu tenho destaque e assento. Certamente, sou ao mesmo tempo querida e odiada – dependendo bastante da situação e da ótica do protagonista. Mas, incontestavelmente, sou tão necessária ao bem estar social quanto o sorriso da criança o é para a mãe extremada.

Costumo comparar-me ao médico epidemiologista, que tem por mister desenvolver permanentemente ações preventivas de contenção ao aparecimento de surtos inesperados de doenças ou de agravamento de endemias pré-existentes. Em caso de grave disseminação generalizada, ele está obrigado a arregaçar as mangas e por mãos à obra, em estreito contato com os infectados, sem poder se dar ao luxo de contrair a moléstia.

Assim sou eu. Está claro que, na troca de alguns designativos pertinentes a cada caso, identifico-me perfeitamente neste paralelismo. Apenas faço uma pequena observação: para mim, além de o contágio significar danos irreversíveis de funestas conseqüências à saúde do tecido social, resulta também em grande descrédito popular, extensivo a todo o meu corpo.

Tenho inominável sentimento de dignidade pela qualidade dos meus quadros espalhados mundo afora. Neles está abrigada imensa legião de filhos amados. São mulheres e homens honestos, trabalhadores, honrados, civilizados, cultos, prestativos, cientes da magnitude de suas obrigações e que, sobretudo, se dão, espontânea e diariamente, sem pedir nada em troca por este desprendimento.

Contudo, para minha tristeza e infelicidade, acoita também infinitésima minoria de ladrões contumazes, viciados empedernidos, assaltantes repugnantes e irascíveis irretratáveis, enfim, criminosos de vários matizes que macula a minha reputação e enodoa a minha insígnia. Certamente, estes não são meus filhos!

Por certo, nunca serão alçados ao panteão dos meus heróis e, muito menos, convidados à minha mesa. Lanço sobre eles o labéu eterno da infâmia e da abjeção. Meus filhos amados, sem contemplações ou sentimentos corporativistas, hão de lhes dar as costas e obstinar em pô-los à ferros em merecido lugar.

Causa-me repugnância qualquer bandido ostentar minha insígnia. Aquele que assim o faz, apresenta-se aos meus olhos como criatura de caráter indefinível, mais desprezível e pernóstica que o meliante que abertamente se intitula como tal. Revela-se menos audaz que o mais tímido dos delinqüentes. Envergonha profundamente até mesmo a classe dos malfeitores, por não ter coragem de definir-se a uma coisa nem a outra; escuda-se com meu brasão e refugia-se como um miserável à sombra da minha nobre corporação.

Quando age isoladamente ou em pequeno bando para cometer atividades à revelia da minha sã e elevada doutrina, sua impertinência não me pede conselhos, não me consulta. Todavia, quando seus atos espúrios são revelados, manchando inexoravelmente todo meu quadro, acovarda-se acocorado e, despudoradamente, vem me pedir apoio e abrigo. Não os terá… Certamente, este não é meu filho! Apunhala-me pelas costas como um salteador barato.

A eterna luta para resgate e enobrecimento do meu nome não pode compactuar com tais atitudes.

Por sinal, não vai aí nenhum indício de arrogância ou impetuosidade. Simplesmente, apreço ao pensamento de um grande senador desta República, que ensina: “combater a criminalidade não significa, necessariamente, ter ódio ao criminoso”. Mas, não há lugar para indulgências no trato com quem deliberadamente traiu o próprio juramento de defender a sociedade, até com o sacrifício da própria vida.

Mesmo com todos estes percalços, tenho alcançado cotidianamente mais honra e admiração que desgosto. Ademais, gradativamente, tenho atraído a minhas fileiras pessoas que antes se persignavam à mera menção de meu nome. Apesar de faltar ainda muito, meus quadros estão mais bem preparados que outrora. Em alguns casos, o reconhecimento popular tem alcançado níveis substanciais, demonstrados, mormente, na contrapartida remuneratória. Minha heráldica, assim como certas nomenclaturas que me impuseram, tem recebido tratamento correspondente a grife importante.

Então, posso afirmar, não havendo solavancos e sobressaltos em médio prazo, a tendência da minha qualidade será representada por uma linha em ascensão.

Por estas, despeço-me deixando registrado que, neste exato momento em que você lê este texto, meus filhos e filhas, espalhados por todo globo, seja no ar, na terra, em rios ou no mar; seja sob sol, chuva, neve, calor ou frio, estão zelando para a manutenção da sua tranqüilidade e sossego; do seu estilo de vida e pela continuidade do regime de governo que você escolheu e atualmente se submete. Portanto, peço-lhe humildemente: não ponha toda culpa pelos infaustos apenas em mim ou nos meus filhos amados.