Liderança e líderes do século XXI


Conte-me e eu esqueço. Mostre-me e eu apenas me lembro. Envolva-me e eu compreendo

Confúcio

Uma destemida jovem de apenas 17 anos assumiu em 1429 o controle do exército francês e enfrentou um cerco aos ingleses que invadiram a cidade francesa de Orléans com um exército de 4 mil homens. Mesmo assim,  os derrotou. Seu nome: Joana d’Arc, camponesa de origem pobre e analfabeta. Em uma época de total discriminação da mulher, que ocupava papel secundário na sociedade, ela não só participou de batalhas sangrentas como, imbuída de patriotismo, liderou o exército francês, o que lhe custou a própria vida, aos 19 anos de idade. O pouco que viveu foi suficiente para deixar um legado: capacidade de arrebatar multidões, guiar exércitos, romper limites e desafiar a ordem social de seu tempo. Joana d’Arc, detentora de enorme carisma, além de heroína e santa, foi uma grande líder mundial.

É dos comandos militares que emergem muitos dos pressupostos sobre o papel do líder nas organizações, com relação à função de alcançar objetivos, manter a hierarquia, com poder plenamente estabelecido. Busca-se um perfil pessoal ideal para justificar a liderança, baseado em traços físicos (altura, peso, aparência); habilidades mentais (inteligência, fluência verbal, escolaridade, raciocínio); e habilidades emocionais (introversão, extroversão, autocontrole, agressividade, sensibilidade, visão). Porém, nenhuma pesquisa conseguiu comprovar qualquer perfil que se reproduzisse sempre em situações e contextos diferentes. A única comprovação das pesquisas é de que o líder tem, de forma mais marcante que seus liderados, traços significativos de proatividade para ser capaz de conduzir determinadas situações.

Ser um líder significa manter uma visão à frente das pessoas, amar o trabalho que exerce, sonhar com desafios, saber ouvir e contagiar outras pessoas com energia e verve. Construir uma comunidade em que os envolvimentos sociais têm a habilidade, a liberdade e a vontade de atingirem resultados surpreendentes. A motivação para participar de um verdadeiro processo de liderança envolve convencimento e inspiração em um ambiente de respeito e igualdade, dinâmico e em constante mutação.

Em certas circunstâncias, uma ordem tradicional pode ser modificada pela ação transformadora de um líder. Suas qualidades pessoais, carisma e confiança podem modificar a sociedade, à medida de seu poder de aglutinar e conduzir seguidores na direção de sua fé, de sua visão. O comando é feito por meio da liderança, exercida através da comunicação, do convencimento e em relações sociais com regras que delimitam o poder e obrigam o líder a justificar seus atos diante de seus liderados.

A liderança, exercida em um contexto relacional e motivacional, requer flexibilidade, capacidade de ouvir e visão de futuro em ambientes em que predominam valores éticos, que solidificam a relação entre líderes e liderados, em busca de objetivos comuns. A cultura organizacional desenvolve-se a partir de valores e pressupostos transmitidos pelos líderes ao grupo. Caso o grupo seja bem-sucedido e os pressupostos se tornem inquestionáveis, a cultura define, para as próximas gerações de membros, o tipo de liderança aceitável.

O ser humano tem o poder da liberdade de escolha, o livre-arbítrio e o conhecimento (know-how), seu maior patrimônio, essencial para a sobrevivência das organizações. O patrimônio tangível de imóveis e máquinas perde espaço rapidamente para o patrimônio intangível da informação e aumenta o poder de seu quadro de funcionários. As grandes corporações mundiais preservam e desenvolvem seu quadro de funcionários, pois vendem essencialmente conhecimento e perceberam que este pertence ao ser humano. As matérias-primas da economia global não são mais somente recursos energéticos, minerais e mão de obra, mas informações, conhecimento, comunicação e propriedade intelectual.

A transformação do modelo gerencial do passado, em que o ser humano era  apenas mais uma das muitas peças de uma engrenagem, para um modelo que o coloca no centro do universo corporativo, estimulando-o ao autoconhecimento e ao autodesenvolvimento, de forma a assumir as rédeas de sua vida e carreira, é uma tarefa complexa e um desafio para os líderes. Esse novo modelo implica ações de influência e não mais de direção, uma grande mudança para quem passou anos dizendo às pessoas o que fazer.

A liderança é uma atividade de pessoas, abstrata, distinta de burocracia administrativa ou de atividades de planejamento, que faz a diferença ao gerar valor intrínseco de longo prazo e alcançar metas de curto prazo, por meio do conhecimento (know-how). É um relacionamento de influência ativa, recíproca, multidirecional entre líderes e liderados, ao redor de uma visão comum, que objetiva mudanças genuínas e compartilhadas, cujos resultados refletem o propósito conjunto das responsabilidades pessoais assumidas na direção de um futuro desejável, o que gera uma massa crítica de seguidores.

Ao refletir sobre os grandes líderes do século XX, pode-se citar, na política, John F. Kennedy como um presidente que enxergava novas fronteiras, um sonhador que acreditava poder mudar o mundo, e visualizava, em 1961, levar o homem à lua até o final da década de 1970. Ou Juscelino Kubitschek que, com a visão desenvolvimentista, direcionou o Brasil, com o plano de metas, a crescer em cinco anos o que levaria cinquenta. Martin Luther King Jr. foi o líder de mudança social. Sigmund Freud contribuiu para a compreensão da natureza humana. Santos Dumont voou alto nas ideias, e, com os pés no chão, revolucionou os meios de transporte. Peter Drucker é um influente líder do pensamento. Jack Welch destacou-se à frente da General Eletric como líder organizacional. E Bill Gates revolucionou o mundo da informação.

Todos esses grandes líderes têm vários traços em comum, entre eles a tenacidade em buscar objetivos, a capacidade de pensar estrategicamente, orientação para o futuro e fé em determinados princípios fundamentais do comportamento humano. Têm fortes convicções e não hesitam em demonstrá-las, são politicamente astutos, dotados de empatia e empregam o poder para o bem maior, assim que o enxergam.

Não se deve inspirar de forma personalista em um único líder à procura de um herói, mas aprender com os relances de genialidade de cada um deles, já que todos têm em suas biografias episódios de homens comuns. Homens que erram, equivocam-se, por vezes fraquejam com platitude, mas deixam marcas positivas de liderança à frente de seu tempo. Tácito dizia: os chefes são líderes mais através do exemplo do que através do poder.

Líderes nem sempre são vencedores em todos os seus projetos. Pode-se descrever a breve biografia de uma pessoa comum com os seguintes acontecimentos: filho de lavradores pobres, perdeu a mãe aos 9 anos; foi educado com pouco esmero pela madrasta; mal frequentava a escola, mas formou-se em advocacia; faliu no comércio aos 22 anos; perdeu a eleição estadual aos 23; faliu novamente aos 24; perdeu a eleição para o Congresso aos 34; perdeu a eleição para o Senado aos 45 e aos 49 anos. Aos 60 anos, foi eleito presidente da República502. Abraham Lincoln (1809-1865) foi o 16o presidente dos EUA, conduziu o processo de unificação americana na Guerra Civil, emancipou os escravos e é considerado o maior presidente americano de todos os tempos e inspirador da moderna democracia.

Os líderes do século XXI vêm se defrontando com um mundo que se modifica rapidamente. A revolução do consumo de tecnologia, informação e conhecimento atingiu grande velocidade. As pessoas estão cada vez mais esclarecidas, conscientes e nem exércitos inteiros podem conter ou mesmo diminuir o fluxo acelerado de informações através das fronteiras. Padrões de qualidade cada vez mais elevados exigem transformação das organizações em mercados globais.

Os líderes do futuro enquadram-se nesse perfil de ego elevado, possuem o recurso magnânimo da ideia, da visão certa, e traduzem-nas em ação. Vislumbram a construção dos padrões emergentes de uma nova sociedade, por estarem abertos a realizar mudanças, com a visão orientada para o futuro. Acreditam que podem e devem moldá-lo, colhem as frutas maduras e associam-nas para formar um novo cenário compreensível e que beneficie a todos.