A BIBLIOTECA PÚBLICA: DA HISTÓRIA À TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Resumo:

A atuação da biblioteca pública, através dos tempos, é de grande valia para o estudo das mudanças ocorridas em comunidades. Tais transformações são decorrentes dos esforços empreendidos no âmbito do ensino, educação e cultura, convergidos para o livro e sua disseminação. Inserido no contexto das transformações sociais provenientes da atuação das bibliotecas, o presente trabalho busca levantar idéias e análises referentes ao que a biblioteca pública fez em épocas passadas, aquilo que ela realiza e os resultados que gerações futuras poderão usufruir a partir de uma maior consolidação de suas capacidades como mecanismo de transformação social.

Palavras-chave: Biblioteca Pública – História; Biblioteca Pública – transformação social; Bibliotecários

1. INTRODUÇÃO

A Biblioteca Pública, situada em um contexto informacional cada vez mais abrangente, apresenta-se como um poderoso artifício de conexão entre o indivíduo, muitas vezes proveniente das camadas sociais carentes, e a informação, a qual é refletida, dentre outras coisas, nos produtos e serviços oferecidos à comunidade.

O período colonial foi testemunha do surgimento da primeira biblioteca pública brasileira, organizada em Salvador, Bahia. À luz de valorosos esforços, a sociedade presenciou o início daquilo que se caracterizaria como um poderoso elemento transformador social.

Séculos mais tarde, observam-se dois pontos a serem estudados mais detalhadamente: se, por um lado, as bibliotecas públicas ocupam lugar honroso no apoio educacional e cultural nacional, por outro, estudiosos ainda apontam caminhos a serem percorridos na estrada que leva aos altos patamares do orgulho social.

O presente trabalho objetiva levantar idéias que corroborem a noção da biblioteca pública como um mecanismo a ser ainda mais explorado por governantes, leitores e profissionais, para uma transformação social ainda mais consolidada. A visão histórica do surgimento embrionário da biblioteca pública, com seus recursos materiais e humanos, bem como suas perspectivas, também é salientada.

2. A BIBLIOTECA PÚBLICA DA BAHIA: UMA HISTÓRIA A SER CONTADA

Foi na Bahia que o desenvolvimento tipográfico particular introduziu-se com a empresa de Manuel Antonio da Silva Serva. Neste mesmo local, a sociedade de então presenciou a organização da primeira biblioteca pública, em Salvador.

Assim relata Rubens Borba de Moraes (2006, p. 151): “A Biblioteca Pública da Bahia é a primeira que com esse caráter se fundou no Brasil, pois as dos conventos não eram públicas e a Biblioteca Real do Rio de Janeiro já existia em Lisboa e tinha somente sido transferida de sede”.

Era, logicamente, uma biblioteca iniciante. Todavia, a idéia de um local aberto à sociedade, à procura de características que oferecessem meios e métodos para que as necessidades informacionais fossem satisfeitas, consolidar-se-ia em séculos posteriores.

A biblioteca foi inaugurada no antigo colégio dos Jesuítas, em 1811. Ela

funcionava diariamente, de manhã e à tarde, salvo às quartas-feiras. Seu Diretor era Pedro Gomes Ferrão Castelo Branco, assessorado, para a administração das subscrições, por José Avelino Barbosa. O secretário era o padre Francisco Agostinho Gomes, ao que parece o maior doador. O tesoureiro era Manuel José de Melo e o bibliotecário, Lúcio José de Matos. Um servente era encarregado da limpeza dos livros, o outro da cobrança das subscrições. Um porteiro completava o pessoal (MORAES, 2006, p. 156).

Um dos “pilares” a serem considerados na estruturação de uma biblioteca pública é a coleção de referência (obras de consulta rápida, como dicionários, enciclopédias e atlas). Um serviço adequado, visando um público com características próprias (como, por exemplo, os usuários idosos, estudantes, mulheres, trabalhadores), fará com que haja, no usuário, um sentimento de bem-estar, resultando, automaticamente, em seu retorno.

Na Biblioteca Pública da Bahia, a coleção de referência era, para os padrões da época, consideravelmente elaborada. Esse

setor é simplesmente excelente. Há perto de quarenta dicionários diversos. De língua portuguesa, lá se acham os três melhores da época, o de Bluteau, o de Viterbo, e a segunda edição do Moraes, de 1813. Entre os franceses destaca-se o Dictionnaire de l’Académie Française (quinta edição). Inúmeros são os dicionários bilíngües: o português-inglês e o inglês-português de Vieira, etc. Há uma série de outros bilíngües: alemão-francês, italiano-português e um dicionário hebraico-siríaco-caldaico. Os latinos (a começar pelo inevitável calepino) e de latim e outra língua são os melhores da época. Numerosos são os ‘dicionários de assunto’ ou especializados de história natural (o de Valmont de Bomare, o de Vandelli), de geografia (o de Vosgien e outros) de história (o de Moreri), de botânica, da fábula, de moedas, de comércio (o célebre Dictionaire universel de commerce, de Savary, consultado até hoje), etc. (MORAES, 2006, P. 162).

A Divisão de Obras Raras, da Fundação Biblioteca Nacional brasileira, possui, ainda, dois catálogos que merecem ser destacados, e que estão situados entre as obras de consulta da Biblioteca Pública da Bahia. São os que seguem:

Catálogo dos livros que se achaõ na Bibliotheca Publica da cidade da Bahia, impresso na tipografia de Manuel Antonio da Silva Serva, em 1818. Como informa Alexandre Passos (1952, p. 34), esta obra, de apenas 54 páginas e 14 cm é considerada o primeiro catálogo de uma biblioteca impresso em território brasileiro. Atualmente este item encontra-se salvaguardado em cofre, na Divisão de Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

Catálogo Geral da Bibliotheca Publica da Bahia, organisado sendo presidente da provincia o Illustrissimo Senhor Dezembargador e Senador do Imperio João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, inpresso na Bahia, em 1858, pela Tipografia de Antonio Olavo da França Guerra. Este catálogo possui um “Índice Alphabetico” e arrola, dentre outras, obras sobre “Antiguidades”, “Caça”, “Caminhos de ferro”, “Dansa”, “Direito das Gentes”, “Pesca”, “Pontes e calçadas”. Inclui a parte “Periódicos e Revistas”, onde estão elencadas publicações como “Correio Brasiliense” e “Idade de Ouro do Brazil”.

Não é propósito, no presente momento, discutir se a primeira biblioteca pública em território nacional desenvolveu com eficácia seu papel. Levantamos, sim, alguns dos pontos que devem ser norteadores para as bibliotecas públicas atuais, sem o esquecimento daquilo que o passado representa para os trabalhos atuais.

3. BIBLIOTECA PÚBLICA E SEU PAPEL NO CONTEXTO SOCIAL

Julga-se oportuno salientar aqui alguns tópicos que enobrecem o papel da biblioteca pública e a conseqüente transformação social expressa por ela.

Citando Luis F. Málaga, Wilson Martins (2002, p. 326) salienta:

em lugar de ser um simples depósito de livros ou o refúgio dos escritores infelizes, a biblioteca pública deve colaborar na educação das massas ignorantes. Ela completará o ensino dispensado pela escola e ajudará a formar o público de amanhã. Ela desempenhará o papel de um centro de serviço social, onde as crianças, os adolescentes e os adultos que não puderem receber nas escolas uma instrução suficiente, encontrarão informações, conselhos, divertimentos, sem distinção de condição social, de nacionalidade, de crença, de língua ou de profissão. Enfim, ela servirá aos interesses da comunidade e aos mais nobres valores humanos; ela despertará a consciência social do indivíduo e do grupo, contribuirá para o desenvolvimento das atividades criadoras no povo e orientará as aspirações altruístas dos melhores elementos da sociedade.

O Congresso de Bibliotecários, realizado em São Paulo, 1951, destaca alguns objetivos inerentes às bibliotecas públicas (MARTINS, 2002, p. 326-327). São eles:

1) Fornecer ao público informações, livros, material e facilidades diversas em vista de melhor servir seus interesses e de satisfazer às suas necessidades intelectuais;

2) Estimular a liberdade de expressão e favorecer uma crítica construtiva dos problemas sociais;

3) Dar ao homem uma formação que lhe permita exercer uma atividade criadora no quadro da coletividade e trabalhar no aperfeiçoamento da compreensão entre os indivíduos, entre grupos e entre as nações;

4) Completar a ação dos estabelecimentos de ensino oferecendo à população a possibilidade de continuar a se instruir.

Em artigo intitulado A missão da biblioteca pública no Brasil (1978), Antonio Miranda aponta, em linhas gerais, os objetivos “que inspirariam a missão das bibliotecas públicas”. Conforme o autor, a promoção do idioma nacional, expandindo-se o “acesso ao acervo produzido pela inteligência nacional”; o fornecimento de publicações oficiais, objetivando levar a informação relativa às leis, instituições e serviços que influenciam o cotidiano do cidadão; o fornecimento de livros e outros materiais para o estudante, como auxílio para as tarefas escolares ou para o cidadão autodidata; o apoio às campanhas de alfabetização e fornecer livros adequados aos neo-alfabetizados. Neste tópico, ressalta-se a idéia de que “cada não leitor (analfabeto ou alfabetizado) deve ser a preocupação fundamental da biblioteca”. Ser depositária do acervo da inteligência e da história local. A biblioteca pública assume o papel de detentora das obras que “representam a cultura e a história da comunidade, do município e seu entorno […]”. Na visão de Antonio Miranda, o ato de fornecer serviços de informação técnica e comercial às empresas locais, às indústrias e sobre oportunidades turísticas também é contemplado pela biblioteca pública. 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É a biblioteca pública, por tudo aquilo que ela desempenha, no transcorrer dos séculos, um elevado artifício de integração e socialização para os indivíduos das mais diversas situações econômicas ou intelectuais.

Desempenha um papel cultural de valioso em uma sociedade que, muitas vezes, assiste a uma derrocada em termos de planejamento e execução de projetos que visem ao bem-estar físico, moral e intelectual da sociedade.

Inserida em diferentes contextos locais, a biblioteca pública possui todas as prerrogativas de “refúgio educacional” para as classes menos favorecidas, lançando mão de recursos impressos, audiovisuais ou ainda aqueles situados no ambiente web.

Verificando aquilo que a biblioteca pública representou, representa e poderá representar, conclui-se que ela engloba, em toda a sua estrutura, o papel de edificadora social; um local para críticas, debates, estudo, enfim, crescimento do homem e, consequentemente, espaço em que vive.

REFERÊNCIAS

MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. São Paulo: Ática, 2002.

MIRANDA, Antonio. A missão da biblioteca pública no Brasil. Revista de Biblioteconomia de Brasília, Brasília, DF, v. 6, n.1, p. 69-75, 1978.

MORAES, Rubens Borba de. Livros e bibliotecas no Brasil colonial. Brasília, DF: Briquet de Lemos, 2006.

PASSOS, Alexandre. A imprensa no período colonial. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde. Serviço de Documentação, 1952.

SUAIDEN, Emir José. A biblioteca pública no contexto da sociedade da informação. Ciência da Informação, Brasília, DF, v. 29, n. 2, p. 52-60, maio/ago. 2000.