BOLINHAS DE MERCÚRIO

O que é felicidade? Algo intangível, inatingível ou efêmero? Em que se traduz, afinal das contas?

Para muitos, é relativa ao que se pode ter. Para outros, se relaciona ao que se pode sentir. Para alguns poucos, ela se desmembra em fragmentos, tal quando brincava, ainda criança, com o mercúrio que vazava de termômetros que se quebravam. Ao chão, se espalhavam incontáveis bolinhas prateadas, as quais tentava reunir para, novamente, fazer uma única. Até cansar, desfazia a unidade e a reintegrava.

A vida nos mostra que por mais que tentemos reunir todas estas “bolinhas” – estes fragmentos de felicidade -, sempre haverá uma ou outra tão diminuta que mal será vista e acabará por passar despercebida. Outras, se entranharão pelas frestas dos tacos de madeira e não mais as alcançaremos, o que acabará por nos frustrar pela perda.

A gente esquecia delas, com o tempo, até que outro daqueles se quebrasse, às vezes propositalmente, e repetíssemos a “brincadeira”.

Tentamos, continuamente, nos remeter à felicidade por meio de músicas, poemas, lembranças, flores, lugares, momentos, pessoas…… representadas pelas tais “bolinhas de mercúrio” que nos insurgem ao interminável desejo de vê-las reunidas e completas, em uma só unidade.

Insatisfeitos, queremos que a unidade seja grande e única, reunindo todos os anseios de felicidade. Mas, as diminutas e aquelas por entre os tacos continuarão lá, perdidas e despercebidas. Sempre faltará algo na unidade.

As “bolinhas de mercúrio” e a felicidade têm uma relação tão estreita que chega ao ponto de podermos facilmente correlacioná-las. Você perde a unidade, que antes presa em um invólucro seguro e hermeticamente fechado, que ao se quebrar, se espalha em centenas, milhares de minúsculas “bolinhas” – fragmentos de felicidade -, que impelem que as juntemos novamente.

O frasco se quebrou. Não há como reconstituí-lo. Mas, há como tentar reunir as “bolinhas” e refazer a unidade. Umas se perderão, outras serão perdidas, mas a maior parte pode ser resgatada e unificada.

Isto feito, a unidade “completada”, o objetivo nos parece ter sido cumprido. Mas, não, aquilo passou. Já não é mais nosso desejo. Queríamos, mesmo, era reunir tudo, recolocar no frasco e fechá-lo hermeticamente, novamente.

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Cada um de nós está em seu universo. Cada qual com suas constelações.

Em suas infindáveis transformações, o universo promove eventos que a totalidade da humanidade desconhece. Dentre eles o BIG BANG, uma fuga cósmica que, teoricamente, promove a expansão do universo.

Pois bem, seu universo se expandiu em um tão intenso brilho que pareceu um piscar de olhos em direção ao meu, que, tomado por seu calor, sucumbiu.

Meu universo é seu. Poderemos perder umas ou outras, mas podemos ser UM só universo. Únicos, tais quais as “bolinhas de mercúrio”.