Filosofia: Amor as coisas, ao Mundo e derrota do Egoísmo Intelectual

Resumo:

Habitamos em uma sociedade em que pouco vale a reflexão e muito importa consumir o máximo possível. Novos padrões de comportamento substituem os antigos. Os ditos “profissionais”, alguns em especial, em quase todas as áreas – incluso a educação – praticamente se vendem e deixam de lado aquele gosto pelo ensino como forma de transformar o mundo. Tudo passa a girar em torno do dinheiro e da fama e a qualidade é deixada de lado bem como a preocupação com o desenvolvimento do próximo. Como vencer tal problema? A Filosofia pode nos dar uma idéia do que fazer, visto que é ela o “amor a sabedoria” ou “amizade” em si mesma. Mas desde que utilizada com desprendimento caso contrário há de tornar-se uma contradição.

Palavras-Chave: Sócrates – Filosofia – Profissional

Título:

Filosofia: Amor as coisas, ao Mundo e derrota do Egoísmo Intelectual.

De fato o pensamento racional crítico sobre a abundância existencial de todas as coisas nunca deixou de ser essencial em nenhuma época. E nesta primeira década do novo milênio não poderia ser diferente.

Vivemos em um período em que coisas e padrões de comportamento que outrora eram desprezados agora tomam valor e vice-versa. Um exemplo clássico são pais e mães que agora não são mais pais e mães de seus filhos, mas se auto intitulam “amigos” de seus filhos. Pai e mãe são um só, em nossas vidas, ao contrário a amizade é feita e desfeita ao longo de toda a nossa existência. Mas pai e mãe continuam únicos, insubstituíveis. O que se pretende aqui dizer, é que coisas que aparentemente são “normais” podem ou não esconder segundas intenções como, por exemplo, a “abolição da hierarquia familiar”. Mas isso é uma história para outro momento, no entanto reflete a necessidade de alguém que pense e olhe diferente para uma realidade aparentemente sem más pretensões.

Não se deve nunca abandonar o prazer saudável da procura de coisas novas ainda não refletidas. Hoje em dia as coisas se transformam em questão de milésimos de segundo e junto com essas transformações somos “tragados” numa velocidade espantosa rumo ao “desconhecido futuro”. Mas se quisermos chegar lá para “desvelar” tal desconhecido é preciso deixar-se guiar pelas “correntezas abundantes” do conhecimento tecnológico que “banha as praias” do nosso ser. Lembrando que, deixar-se guiar não necessariamente é ser influenciado pelo que nos é exposto como verdade. Devemos vasculhar criticar construtivamente até a ultima gota de conhecimento para que não façamos nada sem a mais plena consciência.

A filosofia na sua definição mais clássica é conhecida como “amor a sabedoria” ou “amizade a sabedoria” e isso é importante, o amor. Devemos buscar ter amor por todas as coisas. Amor aqui no sentido de pertença seja no patrimônio público, na solidariedade a outras pessoas a outros seres etc. Pois é através do amor que se é possível transformar uma realidade social, familiar, religiosa e até mesmo global.

Quando amamos uma pessoa em particular ou um objeto que nos lembre de um momento especial de nossa breve existência, suspiramos de alegria ao revê-la, cuidamos com todo zelo e mostramos aos outros com todo o orgulho que cabe em nosso peito, o grande troféu de nossas vidas. Assim deveria ser também a mentalidade de muitos educadores, políticos e nas mais diversas profissões. Um “profissional” que se preocupa unicamente com o seu próprio “Eu” não é digno de ser chamado de profissional. Diria Arthur Schopenhauer que “o egoísmo é colossal, o universo não pode contê-lo. Porque se dessem a cada um a escolha entre o aniquilamento do universo e a sua própria perda, é ocioso dizer qual seria a resposta[1]. Portanto, antes de tudo é preciso vencer esta grande limitação que habita dentro em nós para sermos mais solidários no caminho do ensino e da vida como num todo.

Ser profissional é fazer além de sua própria realidade é desafiar-se corriqueiramente para além de suas forças. Numa busca audaciosa e constante da melhoria de si e dos outros consequentemente. Sempre é claro, respeitando a dignidade e a limitação particular de cada ser humano.

O Sociólogo polonês Zygmunt Bauman define como “Vida Líquida” esta faze em que vivemos. Ou seja, um período de “… uma constante autocrítica, de autoexame, e autocensura. A vida líquida alimenta a insatisfação do eu consigo mesmo[2]. Fazer esta avaliação de vida é fundamental nesta “peregrinação terrestre” visto que nos auxilia e muito no crescimento de uma personalidade amadurecida e realizada consigo mesma. A partir do momento em que paro diante de mim e observo-me como sou e como me manifesto é que cada vez mais e mais creio no que dissera Sócrates, “Só sei que nada sei”. Expressão maior do “Eu” que ainda está por terminar, do “Eu” que “Não nasceu pronto”[3], nos dizeres do Filósofo Mário Sérgio Cortella.  No entanto, isso também levado ao extremo pode ser perigoso visto que tem a tendência de ferir o principio básico de “aceitação de si” com toda a sua carga de limitações pessoais.

Somos todos convidados hoje á não sermos Sofistas do novo milênio, mas homens e mulheres dispostos a ajudar a construir um mundo novo e muito melhor sem pretensões meramente particulares, individualistas. Lembrando que os Sofistas eram aqueles homens dotados de conhecimento na Grécia antiga e que para partilhar tal dom cobravam taxas. “Górgias, por exemplo, ganhou tanto dinheiro com sua arte que pode dedicar uma estátua de si mesmo ao deus de Delfos, toda em ouro maciço” [4]. Assim os define o historiador holandês Johan Huizinga na famosa obra literária “Homo Ludens”.

Portanto, o verdadeiro amor a sabedoria, a verdade é depreendido de todo e qualquer apego material e principalmente a si mesmo. No entanto, é um comprometimento com a proclamação da verdade nua e crua para que quem tiver ouvidos e olhos ver e ouvir em todos os cantos do universo.


[1] SCHOPENHAUER, Arthur. As dores do mundo. Rio de Janeiro: Edições de Ouro.

[2] BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

[3] CORTELLA, Mário Sérgio. Não nascemos prontos. Petrópolis: Vozes, 2006.

[4] HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Perspectiva, 2000.