Isabela e Isadora

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– Isabela, você vai ver quando chegar lá em casa. Falava a mãe no banco de trás do ônibus. Há muitos anos não usava o transporte coletivo urbano, lotação, ou qualquer outro nome que queira dar. É triste. Um amontoado de gente se empurrando, se esfregando e se desrespeitando. – Isadora já te falei, deixa essa pipoca pra abrir em casa. Ouvia enquanto observava o comportamento das pessoas dentro e fora do ônibus. Caixas de papelão cheias, sacolas de supermercado, malas, crianças e muito barulho é o que se via e ouvia. Uma senhora sentou-se ao meu lado, mas logo procurou outra poltrona, só pra ela, precisava de mais espaço devido às gordurinhas em excesso. Fiquei sozinho outra vez e a viagem continuava alternando muita e pouca gente no transporte, de acordo com os bairros por onde passava. Só não desciam as irmãs Isabela e Isadora que continuavam suas estripulias. Estava ali por que meu carro simplesmente não quis sair da garagem naquela manhã. Procurei o eletricista que olhou, mediu, perguntou, e falou: – Não é pra mim é para um mecânico. Veio mecânico, veio guincho, foi-se o carro e fiquei eu. A pé. Nisso meus compromissos da manhã, que eram em outra cidade, foram para o espaço. Calcei a cara, liguei para um amigo, e pedi um carro emprestado, sabendo que ele tinha outro veículo. “Tudo bem” disse, mas venha aqui em casa buscar, não sairei na parte da manhã. No caminho para buscar o carro participava da aventura das irmãs Isadora, que acabara de dar um tapa daqueles estalados, e Isabela que recebera o “carinho”.  – Isadora, Isadora você vai se ver comigo, mãe dizia. Do lado de fora, estranhamente os bares estavam cheios, pessoas tomando “uma gelada” em plena manhã de terça. Outras conversas podiam ser identificadas no interior do “busão”: Big Brother, novela, horóscopo, almoço, marido, e a viagem continuava. Disso tudo só o almoço me atraía. “Ê lugá qui num chegava sô!”. Pensava no meu amigo “Tôco”, que estava acamado e por isso mesmo não saíra naquela manhã de dia útil. O onipresente mosquito o pegou de jeito. Estava com Dengue. Mas isso é assunto para outro artigo, pois também já passei por tal perrengue. A viagem era longa. – Isabela!!! Ponha os braços pra dentro, ecoou, a espevitada criança resmungava. Vi ainda pelo caminho um ex-colega de escola que há muito não encontrava, meninos jogando bola, feirinhas em esquinas e várias outras coisas que passam despercebidas quando estou ao volante. Enfim meu destino. Antes de descer ainda pude ouvir Isabela e Isadora sendo convidadas de volta para os assentos, estavam andando pelo corredor do ônibus.

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